Como nasce uma história de amor

28 de fevereiro de 2011

Todo escritor é um pouco infeliz. Inventa histórias que queria ter vivido ou desdenha caricaturando histórias passadas em sua vida. Nunca é um sorriso natural, sempre parece forçado como nos retratos de família. A felicidade é algo inalcançavel. É uma utopia. Ele tenta alcançar os corações e as mentes de quem lê de alguma forma. Uma tortura ou um buquê de flores. Supresa, adivinha quem chegou pro jantar?

Pra escrever, eu entro no meu quarto, fecho a janela, ligo o computador, ajeito minha cadeira na posição ideal, vou até a cozinha encho um copo com uma boa dose de uísque 12 anos sem gelo e ligo o rádio numa estação aleatória que toque música de qualidade e começo. Penso em alguém especifico antes do segundo paragrafo. O primeiro sai naturalmente sem pensar em nada. É sempre assim.

Um parto. Dolorido. Sem analgesicos, anestesicos ou balas de menta. Mas o risco de se mostrar vale a pena. Como fazer sexo sem camisinha. O medo vem depois. Na hora, a concentração, a palavra vai-e-vem freneticamente até o gozo final. Sem barreiras, sem mascaras, sem o dia seguinte. Eu não gosto de reler o que escrevo. É sofrer novamente. Mesmo quando é alegre.

Nem sempre The Cure me faz ficar triste. Nem sempre Beatles me faz ficar alegre. Às vezes choro em comédias. Quase sempre sorrio em dramas. O mundo é complicado. E escrever ao seu lado é sempre mais fácil, mas você nunca está aqui. A não ser na minha mente. Ocupando um espaço reservado, um camarote. O que você vê ao seu redor?

É como um pesadelo, faz tanto frio e mesmo assim estou suado. Escrever é amar. Com a fragilidade de sentir a coisa mais sensacional que existe. Ver você dentro dela. Invadir a mente da pessoa. Amar e ser amado. Sem esperar o dia seguinte pra ligar. Sem ligar pro fim do mundo. Viver o presente como se fosse realmente um presente que se ganha. E depois descarregar todos os problemas pelo ralo, você pode até dar tchau quando os vê descendo pela privada. Mas não vale nada. Amanhã será tudo igual. Mesmo diferente.

E quando vejo da janela do meu quarto você indo embora me parte o coração. Mais um pedaço pra minha coleção. Talvez um dia eu aprenda a colar esse quebra-cabeças e possa entregar meu coração a menina mais bonita que encontrei. Como um texto completo. Com todas as variaveis esperadas de uma boa leitura. Você me leria se eu escrever sobre a gente? Posso escrever o nosso final feliz? Melhor, você escreveria comigo o nosso final feliz?

Eu, você e meu complexo de vira-lata

28 de fevereiro de 2011

Eu não sei mais o que acontece comigo. Estou perdido. Caminhando pelas ruas cheias de pessoas estranhas, com meu passo lento, desanimado, sigo olhando pros meus próprios pés com as mãos escondidas no bolso da minha calça eu penso em você. Sim, eu penso. E imagino seu rosto em cada esquina. Mulheres que nem ao menos se parecem com você.

Nem sei mais o que estou vivendo. Pareço preso numa realidade paralela cujas retas só me levam a te encontrar. Em todos os vertices desse triângulo amoroso. Eu, você e meu complexo de vira-lata.

Quem me vê sorrindo na mesa do bar não sabe que na verdade eu não estou lá. Não estou aqui. Não estou em nenhum lugar físico. Minha mente está buscando você como um radar com defeito. Nunca consigo te sintonizar. Outra frequência talvez. Se eu pudesse ao menos voar pra perto de você. Destrinchar todos os problemas numa apresentação no powerpoint pra você ficar comigo.

Eu poderia vestir meu terno mais bonito, com aquela gravata que você escolheu mesmo sem falar nada na vitrine da loja mais cara da cidade. Até lustraria meu sapato com algum engraxate no centro. Mas eu sei que você preferia se eu fosse eu mesmo. Com meu cabelo bagunçado, jeans surrado e uma camisa engraçada. Pra te pedir em casamento, noivado ou namoro. Você decide. Ou eu decido no caminho pra sua casa.

Tantas taças de vinho que nem sei mais contar. Quero te contar como foi meu dia, como está sendo meu ano, como será o resto da minha vida ao seu lado. Mas isso poderia assustar. Então só ligo pra dizer “Boa noite, durma bem, sinto saudades”.

Polvilhados de açúcar

26 de fevereiro de 2011

Não adiantou colocar The Killers, o som que sobressaía era o barulho da batedeira. Manteiga e açúcar teriam que formar um creme claro… Parei com as cascas de ovos e medições de farinha, fiquei olhando o girar do eletrodoméstico, o granulado do açúcar, a leveza, a brancura, a delicadeza, e tudo aquilo era você. O mundo acabaria e eu com os braços alvos sobre o mármore negro, n’um constrate só não maior que nós dois juntos.

Aos poucos o amarelado do creme esvaiu-se, era uma espécie de prova que no final tudo ajeita-se. Esqueci o forno ligado pra não fugir da rotina de busca pelo perigo, ignorei a porta da geladeira aberta… Ignorei até mesmo os outros ingredientes e tudo podia parar ali no creme de manteiga e açúcar, seria suficiente. Pra quê bolo quente sem você para uma xícara de café? Era algo sem lógica em minha cabeça.

Poderia correr com um pedaço de bolo até aí. Sim, eu poderia. Na verdade, poderia correr até aí só pra polvilhar açúcar na gente, o mais belo buffet.

The Strokes e o rascunho do amor

26 de fevereiro de 2011

Some people think they’re always right. Você está. Others are quiet and uptight. Eu sou os dois contigo… Others they seem so very nice. Igual eu ao teu lado. Inside they might feel sad and wrong. Talvez porque você é plural, por quê isso?

Twenty-nine different attributes, only seven that you like: eu e você multiplicado por sete, não é? E vinte e duas vezes nós sozinhos e com os outros que ao mesmo tempo são nossas segundas pessoas do singular.

I’ll be waiting for you baby, ‘cause I’m through. Minha mentira é a mais verdadeira possível, tu és sempre o melhor do mundo naquele meu metro quadrado. Sit me down, shut me up. E mereça eu dizer que te amo. I’ll calm down and I’ll get along with you. Quem quer que você seja…

I was afraid that you would not insist. Mas você sabe quando quero um abraço, você sabe ser inteiro esse braço. I said please don’t slow me dow, e pegamos carona na estrela cadente seguinte!

Sometimes say, “Fate my friend, you say the strangest things, I find, sometimes”… Destino, o senhor é uma roda gigante na minha vida, mas pode parar quando minha cadeirinha estiver lá no topo? Eu quero somente sentir o vento ao lado dele, com sua respiração quente no meu pescoço.

Two can be complete without the rest of the world. Isso que importa agora! Can’t you see the sky is not the limit no more? Então vamos sem demora, vamos logo!

De braços abertos

25 de fevereiro de 2011

Uma época da vida inventei de jogar tênis. Eu até tinha um bom preparo físico, um bom jogo de fundo de quadra, mas era péssimo no saque. Pra um jogador amador não era tão problemático assim. O nível dos meus adversários não eram tão alto e eu conseguia manter o jogo disputado compensando com o esforço físico. Mas os rivais foram melhorando os fundamentos e ficou muito desgastante pra mim continuar jogando. Então parei.

Meu primeiro namoro sério sempre foi parecido com minha experiência como tenista. O que ela mais queria era meus pés no chão, planos, família e filhos. Eu sempre fui só aventura. Uma loucura dia após dia. Eu era um esporte radical, mas ela precisava jogar damas como os velhinhos da praça. Tive que usar os freios e uma rédea curta. Não sou burro de carga, meu amor. E logo ficou desgastante demais pra mim. Então parei.

Fui jogar futebol. Um probleminha com meu tornozelo fez com que eu me tornasse goleiro. Enquanto me dividia entre o futsal e o handball tudo dava certo. Quando fui mudado para o campo, o tamanho das traves comparado com meu tamanho diminuto foi um grande empecilho. Por mais que eu dominasse a técnica, na prática não dava mais. Fui obrigado a parar. O futebol parou comigo.

Mais ou menos assim foi minha relação seguinte. Na teoria eu era tudo o que ela poderia desejar em um cara. Namorado fiel, carinhoso com pitadas de audácia e cobertura de inteligência. Mas na prática eu não conseguia demonstrar nada disso. Era apenas um garoto bobo que parecia desinteressado pelo mundo e por ela. Minha timidez foi o grande empecilho da vez. Fui obrigado a parar. Ela parou comigo.

Por fim, botei na minha cabeça que seria um boxeador. Inscrevi-me numa academia. O treinador disse que um boxeador canhoto que não tinha força no punho esquerdo não chegaria a lugar nenhum. Então, ao contrário das outras vezes resolvi enfrentar minhas limitações. Comprei um saco de pancada e instalei no meu quarto. Passava quatro horas por dia esmurrando aquele saco de areia com minha mão esquerda. Até que criei a força necessária pra lutar.Foi uma das poucas vezes que lutei por algo na vida. Apesar de que meu final no boxe não tenha sido feliz (8 lutas e 6 vitórias até que não é tão mal, mas o nariz quebrado, mil cortes no supercilio são. Não acredita? De onde você pensa que vem essa minha carinha bonita?). Eu fui feliz.

E então ela apareceu na minha vida. Cheia de problemas, dificuldades, quase um jogo de videogame selecionado no modo Very Hard. Eu teria mil e uma razões pra não querê-la, mil e duas razões pra sumir, mas listei duas mil que me faziam ficar. Eu tinha que lutar contra tudo e contra todos por ela. Seria a segunda vez que lutaria por algo na vida. E desde então não me acostumei mais a perder. E apesar dos pesares ela está comigo hoje. E eu estou feliz. Encontrei o amor da minha vida, por enquanto. E acho que ela sente o mesmo. Enfim, posso gritar de braços abertos pra todo o vento que sou feliz.

Meu Desejo

25 de fevereiro de 2011

Queria entender como funcionavam os sonhos. Como eles eram formulados, sabe? Uma vez ouvi em um filme que a gente sonha com a última coisa em que se estava pensando. Resolvi testar. Fiquei horas me imaginando dentro das Pirâmides do Egito. Dormi. Na manhã seguinte não conseguia lembrar quase nada, só de uma forma humanóide meio desengonçada se aproximando nas sombras. “E agora? Acho que ta funcionando. Devia ser uma múmia. Vou continuar tentando”, pensei.

Hora de dormir. Operação sonho: segunda tentativa. Canadá, boa. Logo comecei a idealizar mil formas de chegar até as Cataratas do Niágara. Helicóptero? Rapel? Mergulho? Salto de pára-quedas? Canoa? Dormi. Desespero. Agonia. Sinto um puxão repentino e vejo um olhar conhecido. Acordo assustada. “Caramba, tava me afogando. Será que era nas Cataratas? Será que foi um aviso? Na dúvida vou cortar as opções mergulho e canoagem. E aquele olhar preocupado? Já vi em algum lugar…”

Estava cada vez mais empolgada com meus “poderes de criadora de sonhos” que já me sentia o Leonardo DiCaprio naquele filme que nunca lembro o nome. Na noite seguinte estava muito cansada e acabei não pensando em nada. Sonhei que uma baleia me engolia e um valente pescador de cara conhecida abria o estômago do mamífero gigante, me tirando com vida de lá, cheio de sorrisos.

Semanas se passaram e uns dias eu praticava o “exercício”, outros não. Depois de algum tempo passei a notar algo freqüente nos meus devaneios noturnos: o rosto conhecido que nunca se materializava por completo. A resposta mais fácil e rápida foi que, por se tratar de algo presente desde o primeiro, eu o incluíra automaticamente nos demais. Mas minha dúvida maior não era essa, e a sede por respostas persistia. Eu queria saber o que estava por trás da formação de cada sonho.

Um dia conversando com minha psicóloga, contei o quanto era aficcionada por sonhos e sua criação. Ela achou interessante, e então começou a citar alguns especialistas no assunto e suas diversas correntes. E que a predominante afirmava que o sonho era uma manifestação do subconsciente. O momento em que aquilo que está guardado, escondido e incompreendido se materializa. Como uma forma de suavizar medos e desejos.

Voltei pra casa satisfeita. Sem dúvidas. Dormi tranqüila. Um sono bom. Passei a noite inteira sonhando. Aquela cara conhecida e sorridente tava lá de novo e apareceu por completo pra mim. Consegui te reconhecer. Meu desejo, tentando pacientemente, dia após dia, entrar na minha vida. Agora não tinha mais jeito, você conseguiu.

* texto escrito por  minha “grande amiga” AP.

Sem Limites

24 de fevereiro de 2011

Ela curtia um sertanejo enquanto eu via videos antigos da NBA. Eu debulhando meu vício por Hakeem Olajuwon e ela se esgoelando junto a Zezé di Camargo. Era uma combinação quase brilhante, a sagacidade das palavras dela com minha cara de tédio constante. O mundo parecia girar ao nosso redor. Eu era feliz e não sabia.

Ela me pedia sempre mais. Mais de tudo que eu podia e não podia dar. Era um jogo de interesse. A gente combinava até demais. O meu riso de auto-ironia com o balançar dos quadris dela. E a sexta-feira era pequena pra tanta festa. Tanta exposição. Tanto alcool alimentando nossa mente.

Mas era uma tortura, se esforçar pra atender seus desejos de boneca mimada. Nada disso fazia sentido. Senta aqui e vamos conversar. A gente vivia sem limites, uma vida desregrada. Nada poderia ser melhor. Eu era feliz e já sabia, mas a gente cansa.

Senta pra vomitar na beira da calçada, com a cabeça entre as pernas as coisas parecem fazer sentido. Não dá mais pra ser assim. Vamos desacelerar, que tal freios? Air-bag? Alguém que te dê segurança?Ela então me olhou, com aquela maquiagem de fim de festa, dentro dos olhos e me pediu pra ser mais simples. Logo eu, que adoro as complicações diárias de um mundo cruel.

Enquanto eu escrevia textos com meu violão, algum ressentimento de goiano tresloucado. Eu chorava mesmo sem lágrimas, lamentando a distância dos nossos lábios. Uma moda sertaneja. Mesmo não sendo o meu estilo. Ela sabia que era a hora de mudar, voltar as raizes e me esquecer. Eu também sabia que não dava mais.

Então só nos resta lembrar dos tempos de boemia, das bebedeiras homéricas, trepadas histéricas e viagens hipoteticas. Eu era feliz e agora não quero mais.

 

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