Pra te esquecer, Solidão

23 de fevereiro de 2012

Talvez tudo esteja parado, um pause rápido enquanto se vai ao banheiro ou se bebe um copo d’água gelada. A mesma revista sobre a cama pousando na página 65 no meio de uma reportagem sobre o sucesso do Barcelona nas categorias de base. E um copo de vidro com manchas de Fanta Uva sobre a cabeceira tampado por alguma biografia de cantor de jazz.

As contas espalhadas pelo chão do quarto conversando com várias meias brancas que não sabem o caminho para o cesto de roupas sujas. Não digo que estou cansado de contar as marcas de infiltração no teto, mas também não reclamo do tédio do meu videogame.

Desde que você se foi o mundo parece mais vivo, com mais cores que eu, daltônico, não pensava que pudessem existir. O céu paulistanamente cinza me faz sorrir bem mais que os discos do Pink Floyd que você deixou para trás, aliás, quem deixa para trás discos do Pink Floyd? Você mereceria prisão perpetua que dói mais que cadeira elétrica.

Pensando bem, você não me deixou. Apenas continuou a traçar o seu destino no qual eu era apenas mais uma estação de trem em que os cães fieis esperam seus donos voltar, mas que nunca estão no caminho de volta. Passagem só de ida, adeus, até outro dia. Aparece lá em casa ou me liga.

Desisti das taças de vinho, prefiro garrafas vazias que enchem a minha cabeça de sonhos que irei despedaçar logo que a sobriedade voltar, eu não quero mais saber de você e suas frases compridas que parecem não fazer sentido algum até o ponto final.

Solidão, você foi minha melhor amiga por anos e anos a fio, agora estou bem. Pode confiar, não escreva mais cartas nem mande cartões postais. Eu nunca fui fã de esquiar nos Alpes mesmo, odeio altura, apesar de ter uma obsessão por quedas. Cair é uma sensação indescritível que você devia experimentar.

No fundo do poço dá pra achar diamantes, sabia? Achei uma pedra preciosa que não saíra do meu lado nunca mais. Ficará cravada no meu peito quase como o mecanismo que mantém o Homem de Ferro vivo, sabe como é? Te expliquei algumas trezentas mil vezes as histórias em quadrinhos. E você insistia que nada fazia sentido, sinto muito.

Agora vou voltar para minha vista das Avenidas mais movimentadas da cidade e talvez eu escreva um poema para te esquecer, Solidão.

Muitos talvez

16 de fevereiro de 2012

Enquanto ela espera que alguma solução para tudo caia em sua cabeça como uma maça de algum físico famoso, o mundo gira cada vez mais rápido, estando você no Canadá ou dormindo na cama do inimigo. Ela é amante da paz de espírito, apesar de ter maltratado animais e criancinhas quando era mais jovem. Não tem um passado tão limpo quanto sua redação de volta às aulas.

E agora ela está sentada na carteira do canto, fingindo ouvir o que o professor está explicando, mas não dá a mínima. Não queria estar em nenhum lugar. Na verdade, queria estar em outro lugar. Numa praia ou numa vida qualquer. Sem barulho das buzinas, sem esquinas, sem dias frios e cambistas.

Escrevia seu nome como se quisesse esquecer quem era, desenhava corações e sombras ao redor das letras fingidas que preenchiam as linhas do caderno. Queria folhear um romance, de preferencia com um final feliz em que ela ficava com o principe encantado, mas sem cavalos brancos, por favor. Tinha pavor de cavalos.

Por fim, decidiu que iria voltar à realidade. À sua solidão entre livros e traças, descobrindo como montar um quebra-cabeças de 5.000 peças sem ter sua própria cabeça montada, talvez uma parafuso a menos, talvez sonhos demais e provavelmente, muitos “talvez” ao longo da caminhada.

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