Minha liberdade é você

30 de março de 2011

Andar por aí sem ter onde chegar ou horário pra cumprir parece uma brisa de liberdade a qual não estou acostumado. Sem precisar dar explicação dos meus atos pra ninguém. Com uma mochila nas costas e uma camiseta engraçada. Não preciso tirar a barba, nem cortas as unhas do pé. Sou apenas mais um na multidão dessa vida que não para.

Eu paro em frente a sua casa, tiro a gaita do bolso e toco uma canção singela que me lembra os sinos do Natal lá da minha terra. Como era mesmo? Vejo seu sorriso lá em cima, olhando o mundo da janela lateral, nem imagina que estou aqui. A minha liberdade sempre me leva pra perto de ti.

Como um cavalo que sabe o caminho de casa de cor. Eu sempre tendo a voltar pra onde me sinto bem, pros seus braços com cheiro de maracujá. Minha morada é o seu peito, sem azeite de oliva. Seu tempero com gosto de nescau. Menina, não quero mais você, mas não consigo te esquecer. Algo me entende? Alguém me atende? Quero repetir a vida num looping infinito.

Nem as aulas de Italiano, nem o peso de minhas crônicas. Como uma revistinha da Mônica, eu sou sempre os mesmos personagens. Você a mocinha que precisa ser salva e eu anti-herói com dívidas de jogo e problemas com alcool. Quem sabe você ficará nessa torre eternamente. Olhando pela janela a beleza dessa cidade cinza. E eu aqui embaixo com minha gaita e uma garrafinha de uisque.

Sempre vem o vento frio me avisando que tenho que voltar pra minha casa. Pra longe de você. Pro dia que estou sozinho em frente ao computador escrevendo algum trabalho sobre Direito Penal ou Marketing. Ou criando algum novo plano pra conquistar você, de vez. Pra mim. Ou pra qualquer outra coisa.

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Oportunidades perdidas

28 de março de 2011

Um bom piloto deve aproveitar as chances que tem de fazer uma ultrapassagem. Não pode hesitar, onde houver uma brecha deve se meter. Retardar a freada, acelerar antes e mais que os outros. Aproveitar todo e qualquer erro de trajetória e estratégia do oponente.

Corrida de carros é isso. Não desperdiçar chances que muitas vezes são únicas. Muitas vezes passamos mais de 50 voltas atrás de um carro mais lento numa pista sem pontos específicos de ultrapassagem. Mas a pressão faz o piloto médio cometer erros e o que diferencia os vencedores é aproveitar os erros alheios criando oportunidades.

O amor é um jogo. É perceber quando surgem as grandes oportunidades. Não hesitar. Não pensar duas vezes. Não deixar para amanhã o que pode ser feito e dito agora. Tão clichê. Tão verdadeiro. É dar um abraço reconfortante quando o choro. Alguns maldosos aproveitam efeitos do álcool em mocinhas indefesas.

Eu não sou um predador. Nem tampouco um macho alfa. No máximo passo por um estrategista da arte da guerra. Seria um bom general. Mas há falhas. Eu penso demais. Planejo demais quando o que é preciso é ação.

Devaneio o nosso amor com floreios e bordas. Puxo seu cabelo com tesão num acesso repentino de desejo. Sou metade eu mesmo e outra metade alguém diferente. Trato com brutalidade e sensibilidade. Mas perco oportunidades.

Confio demais em mim. Talvez seja essa minha baixa estima. Você se perde em silencio lendo poemas no saguão do aeroporto, mas na verdade queria assistir ao UFC num bar que fede a cigarro. Um filme B com atores iniciando a carreira.

O amor não dá segundas chances. São raras. Quase pedras preciosas. Santo Graal. Você é pratica e me trocou por um galego qualquer. Eu sou complicado e te troquei por você mesma. Seis por meia dúzia. Faz frio aqui sem você, sabia?

Agora que o jogo acabou eu sei exatamente o que deveria ter feito para segurar o resultado. Levar a virada aos 44 do segundo tempo é doloroso. Mas a culpa é minha. Eu não disse o que deveria ser dito, não fiz o que deveria ter feito. Sou um defeito ambulante.

Como um apostador que quer ganhar na Mega Sena, mas nunca compra o bilhete.

Vale a pena ver de novo?

28 de março de 2011

Não se trata de sorte. Nem de competência. Eu poderia escrever milhares de razões pra você ficar comigo. É lógica. A arte milenar de manipular pessoas. Resultados. Balanços. Eu poderia explicar minimamente qual a razão da gente estar separado, mas não seria interessante pra minha reputação.

Larguei meu tênis no meio da sala. Fala comigo. Diz que tudo não passou de um sonho ruim. Uma música que soa familiar, mas a gente nunca escutou. Mais um capítulo inédito de vale a pena ver de novo. Contradições de uma vida contra.

Não pedi para fazer sentido, não sinto mais nada. Aposto como você queria beijar minha boca desde a primeira palavra que eu disse. Talvez tenha desistido quando eu não parei de falar nem por um segundo. Grito mudo. E desisto de aproveitar o silêncio.

Tenho vivido em situações tensas e mantive a calma. Tenho perdido a calma com o dia-a-dia tedioso. Escrevi um poema que falava de amor. Não dediquei a ninguém. Mas pensei em você.

O seu cheiro que insiste em grudar em mim. Pedindo asilo político depois do último abraço. Sem extradição. E não me deixa dormir sem sonhar com você.

Eu me esqueci de me lembrar de você. Vertendo tédio em horas vagas. Lixando as unhas por não ter mais nada a dizer. Peço desculpas pelo meu jeito de ser. Trago o peso da solidão nos meus olhos quando encontram os seus. Quero te agarrar. Não posso.

Tal qual uma música do Skank. “Te ter e ter que esquecer”. Não existe essa possibilidade no meu caderno de opções de vida. Talvez você seja minha missão. Talvez eu tenha sorte. Mas eu comecei dizendo que não se trata de sorte. Nem de competência.

Na verdade, tudo se resume a nós dois. Você tentando se esconder e eu tentando te encontrar. Vê se dessa vez não se esconde tão bem, não estou muito a fim de esperar mais 25 anos pra conhecer você. De novo.

 

Só o amor faz chover.

25 de março de 2011

Disseram-me que apenas o amor poderia fazer chover. Apenas o amor. Eu não entendia nada sobre amor. Pra mim era apenas mais uma palavra daquelas estranhas do dicionário. Nunca tinha dito ‘eu te amo’ a não ser nas aulas de Teatro.

Era tão facil viver longe desse sentimento. A única dor vinha das quedas nas brincadeiras. Quando quebrei a cabeça. Quando estraçalhei o tornozelo. Isso sim era dor de verdade e eu sabia exatamente de onde vinha. Quando o amor dói a gente não faz ideia de onde vem a dor, da razão exata porque estamos sentindo aquilo. Nada.

Lembranças tomam conta do nosso pensamento, assim, sem avisar. Atrapalha os estudos, os planos, a vida como ela é. Queria até descobrir onde fiquei tão passional assim. Se foi quando aprendi Italiano ou quando meu cachorro morreu envenenado. Deve haver alguma explicação.

De onde vem? Pra onde vai? E porque tem que atravessar sempre no meu caminho. Acho que paro demais na faixa de pedestres e deixo o amor cruzar a rua. Só pode. Manterei os vidros fechados e o arcondicionado ligado. Portas em automático e você não poderá entrar.

Mas você sempre acha um meio, uma fresta. E então tudo fica nublado e aquele pequena nuvem de chuva me persegue onde quer que eu vá. Encharcando minha vida e manchando meu corpo com você. Posso me lavar? Ou devo deixar você tomar conta de mim completamente?

Tá. Eu te amo. Satisfeita agora?

 

Aproveite o silêncio

24 de março de 2011

Na época que ainda existia analista na minha vida. Eu era fanático por outras pessoas me dizendo o que fazer. O único conselho que ela me dava era “Enjoy The Silence”. A arte de ficar calado. Na hora certa. Esse negócio de falar sem parar não estava mais na moda. O certo era ser misterioso.

Lembro que quando completei 17 anos ela me deu um Cd do Depeche Mode chamado “Violator” que tinha essa música como grande sucesso. Disse pra eu ouvi-la 4 vezes antes de dormir. E no dia seguinte anotar como tinha sido meu sonho. Achei aquilo tudo muito estranho. Queria melhorar meus problemas, mas nunca pensei em dever de casa. Mas acatei esse “conselho”. Vamos aproveitar o silêncio.

“Tudo que eu sempre quis. Tudo que eu sempre precisei. Está aqui nos meus braços. Palavras são desnecessárias. Elas só podem machucar”. Assim comecei minha primeira carta de amor. Declarei guerra a essa menina. Queria ficar com ela pro resto da vida. Nunca tinha me apaixonado com tanta intensidade.

Mas como sempre falei demais. Palavras fortes e duras. Meu blablabla foi insustentavel. More than words. Ela dizia. Mas eu falo demais, por não ter nada a dizer. Acho que isso é uma música dessas que ficam na cabeça. Mas o clichê do meu parlatório é infinito. Tédio. Você desliga o telefone se eu ficar um pé no saco? Tantas promessas idiotas escritas no caderno da escola. E então sua letra mostrando nossos nomes dentro de um coração. Amor colegial.

E quanto ao sonho? Naquele sábado acordei inspirado. Lembrava com detalhes do sonho. E reproduzo o que estava escrito no meu caderno:

“Era só areia. Vazio. Um sofá vermelho e uma televisão antiga. Talvez tivesse um gramofone ou sei lá como se chama aquilo do simbolo da RCA com o cachorro. Não tinha cachorro. Só uma carta. Num papel rosa, numa letra desconhecida. Pedia salvação. Talvez seja a letra de Help! traduzida. Talvez seja um daqueles recados de SOS que vem nas garrafas naufragas em alto mar. Estou num ilha. Seca. Sem água. Sem chuva. Sem um coqueiro e uma rede. Sol. Suor. Cadê você? De vez em quando miragem e seu sorriso aparece no horizonte. Longe. Longe. Se distanciando, piscando como o gato da Alice. Não quero paixão dessa vez. Quero um copo d’água. E então aparece um copo d’água. Será que tenho poder? Quero um elefantes com asas. Não aparece nada. Que merda! E eu e meu sofá vermelho flutuando como um tapete mágico à procura de silêncio. Mas eu era surdo e mudo. E só tinha olhos pra você. Te amo, minha princesa”

…como eu era bobo…

Saudade com caroço

22 de março de 2011

 

Ela.

Eu não conseguia compreender o que sentia por ela. Não sabia dizer se ainda gostava ou se era só ressentimento. Queria escrever todos os adjetivos que daria a ela. E nisso compreender tudo que penso. Formular uma opinião embasada, mas ela gostava de azeitonas.

Fazia questão de saborea-las. Seja logo quando chega a pizza. Seja no meio do alimento. Seja guardando o melhor pro fim. Era uma fanática pelo sabor acre das “baratinhas verdes”. Eu não conseguia entender.

Acredito que a saudade é igual a azeitona.

Ambas tendem a dominar os outros sentimentos, impondo seu sabor aos demais. Abrindo a porta com tanta violência e fazendo notar sua presença. Ninguém lembra de pedir pra vir sem azeitona. Ninguém pensa na saudade quando começa um grande amor. Elas vem. E apertam nosso peito, fazendo tudo parecer um grande jogo. Uma salada indigesta de momentos preciosos.

Se você comê-la antes. Ela deixa o seu gosto na boca e todo pedaço posterior de qualquer coisa tem um pesado gosto de azeite. O resto do amor sempre será marcado pela saudade, pelos reencontros imaginários. E mesmo quando se estar junto, vem a sensação de que nos separaremos em breve. Saudade.

Sentir saudade no meio é bom. Ou não. Sabe-se que vai voltar. Terão outros beijos, outras fugas. Haverá contato, atos e distratos. A saudade pode ser engolida, mas teremos que cuspir o caroço fora. O sabor está lá. A gente finge não notar. Usando de adereços e alegorias. Camuflando sentimentos e pedindo pra você ficar. Outros temperos. Outras chuvas.

No fim, haverá saudade. Com ou sem azeitonas. Ou elas ficarão lá paradas no prato. Você vai lembrar, lutar para não sentir. Esconder tudo que vÊ. Jogar fora. Mas a lembrança verde e pequena estará lá. Não adianta engolir sem mastigar. O sabor saudade é insistente e volta ao peito como uma azia.

E você então começa a beber pra esquecer. Mas o tira-gosto oferecido pelo bar ou pela empregada da casa de seu amigo é sempre ela. A saudade em forma de azeitona. E você começa a lembrar de tudo. Se põe a chorar por dentro. Acho que é por isso que muitos culpam a ressaca pela maldita azeitona da empadinha. Ou do pote de conservas.

Agora quando vejo azeitonas lembro dela se deliciando com o pote em mãos e pedindo um beijo que eu me negava a dar. Talvez isso seja só ilusão ou quem sabe saudade

Hoje, mesmo sem gostar, eu comi uma azeitona em homenagem a ela. Talvez isso seja amor.

Afogamento

20 de março de 2011

Acordou. Aquela sensação de que não quer levantar, aquele friozinho, mas a preguiça de desligar o ventilador é mais forte. O lençol por um momento tem um toque tão gostoso quanto o dele, macio, macio! Pega o terceiro travesseiro e abraça como se sua vida dependesse daquilo, é! Rola pra um lado, pro outro… Pensa na bronca que vai levar e organiza os argumentos de defesa ainda não usados em outras conversas com os pais. Mas aí pensa nele e o dia deixa de ser ressaca e volta a ser ondinhas salgadas, com direito a conchinhas diversas! E toda semana a mesma repetição, até morrer afogada em amor.

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