Porta dos Desesperados

14 de setembro de 2012

Quem disse que o amor é um dia de sol? Quem disse que o amor tem o céu bem azul, sem nuvens estragando o quadro, com passarinhos cantando e a certeza da felicidade passeando de mãos dadas à tarde no parque? Não, o amor não é assim, nunca foi assim, nunca será.

O amor é um dia totalmente nublado. Com nuvens cinza dominando a paisagem e você torcendo para não chover. É incerto como o humor de uma mulher com TPM parecendo doce, parecendo salgado. Uma mistura de incertezas dispersas no ar.

No amor a gente não pode arriscar sair de casa sem guarda-chuva, nem pode se vestir como se o dia fosse ficar sempre invernal, pois pode esquentar em um segundo. Tudo muda em um piscar de olhos. O amor não é oito ou oitenta, é meio-termo, uma dose certa dentro do copo. É ser fiel, ser um cachorro que balança o rabo sempre que sua dona chega e obedece feliz esperando o petisco como recompensa.

O amor é um jogo de risco. É uma decisão. Dar o primeiro passo muito antes de pensar em qualquer coisa. É atravessar a rua sem olhar para os lados. São duas pessoas sem dúvidas, porém sem certeza de nada. É a porta dos desesperados.

Você quer trocar todo um mundo de fantasias, de sorrisos por nada, de mulheres fáceis, de cerveja e futebol com os amigos todos os dias, de liberdade e de prazeres e ilusões por um amor? (Com os olhos vendados, os ouvidos tapados, eu respondo sim). Sim.

Eu troco tudo que o mundo puder me oferecer, todos os prazeres passageiros, todas as noites em claro, todos os jogos de azar, todo o sexo casual, todo final de semana prolongado por você. Sim, eu quero só você e todos os prazeres e ofertas que puderem ser extensivas à você.

Eu aposto minhas únicas fichas, meu “tudo”, meu “nada”, meu “mais ou menos” no amor. No nosso amor dos dias cinza de São Paulo. Dos arranha-céus envelhecidos. Dos nossos beijos apaixonados. Das juras. Das brigas. Dos cobertores puxados. De lavar a louça. De trocar as toalhas. De noites mal dormidas. Das que dormimos tão bem. Das que ficamos nos amando até o amanhecer. Das que apenas ficamos nos olhando.

Troco toda a certeza dos dias de sol por um dia nublado ao seu lado.

O mar não vai nos apagar

4 de setembro de 2012

Não tinha mais medo, não hesitava mais em dizer que me amava com os braços abertos como se quisesse abraçar o mundo.  Parecia a mulher mais feliz do mundo chutando as ondas do mar que lentamente levavam a água para o outro lado do oceano. Certamente é uma das cenas que levarei em minha mente até que a senilidade a leve embora, não sem uma luta árdua antes.

Eu não quero me esquecer de nenhum segundo ao lado dela. Não posso viver sem me lembrar dos seus olhos abrindo lentamente aos domingos pela manhã ou então da dança desajeitada ao ouvir alguma música vinda da janela do vizinho. Aposto que nenhuma doença poderá tirar isso de mim.

Enquanto minha cadeira de balanços faz um barulho irritante que poderia tirar do sério o mais cristão dos ser-humanos, ela segue impassível costurando alguma coisa que ainda não pude decifrar, mas ela diz que é um cachecol. Nossas tardes são assim, um olhando o outro fazer qualquer coisa só pelo prazer de ter algo pra lembrar.

O sorriso dela sendo entregue gratuitamente a mim por qualquer motivo desconhecido que apenas eu consigo decifrar. Era a definição precisa de mar de rosas e felicidade plena. Andar de mãos dadas com ela, mesmo eu morrendo de frio. Aprendendo cada pequena coisa que só ela poderia me ensinar.

Todos esses momentos como um álbum de família feito por uma mãe zelosa e coruja, de repente alguns buracos em minha mente e eu não consigo lembrar das palavras mais bonitas que ela disse em nosso casamento nem do dia que eu a conheci. Coisas gigantes que não consegui esconder dos fantasmas que tentam roubar pedaços do meu cérebro.

Só tenho as pequenas coisas, os detalhes são os únicos amigos do meu amor. O jeito como ela apoia a mão na hora de escrever, o olhar quando eu estava errado, o olhar-sorriso quando eu adivinhava o que ela estava precisando. Os pés gelados por baixo do cobertor. Ah! Os pés gelados por baixo do cobertor.

Eu queria fazer um diário, ou que ela o fizesse, mas nunca tivemos tempo de guardar o nosso amor, sempre acreditamos que a nossa memória fosse perfeita e saudável. A eterna ilusão da juventude eterna. Mas eu me lembro dos poemas que eu escrevi para ela, do cheiro da comida ao chegar em casa em uma sexta-feira cansativa. Dos discos do Fleetwood Mac que ela herdou do seu pai, das novelas das sete, dos programas de culinária, dos restaurantes chiques em que a gente não sabia muito bem o que fazer com os braços, os guardanapos e o celular.

É triste esquecer qualquer coisa, todos os nossos aniversários, todos os dias das crianças, senhas do cartão de crédito, a chave dentro do carro trancado, a porta de casa aberta. Esquecer o nome de um conhecido que há tempos não via, esquecer de pagar as contas, de receber o aluguel, de dizer tudo que pensa. Mas nada é tão triste quanto esquecer os seus olhos negros brilhantes.

A vergonha de chamar o garçom, de falar ao telefone, de dizer “te amo” enquanto a gente andava de mãos dadas chutando as ondas do mar que tentavam lavar nossas lembranças.

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