A tragédia alimenta o amor

28 de janeiro de 2013

abraço (2)

Em toda tragédia o amor acaba um pouco. Não importa se a porta ficou fechada ou se o mundo escancarou sua opinião do jeito mais fácil. O caminha mais complicado nem sempre é o melhor, e mesmo assim a gente não sabe como escolher pra onde ir.

Ele queria apenas pegar nas mãos dela, sentir o perfume dela o mais perto possível. Não importa a música ou os shows pirotécnicos, o silêncio permanecia ao redor dos dois. Tudo começava a rodar em câmera lenta e em vários ângulos.

Não deixa a fumaça entrar em seus pulmões, não se perca nos labirintos da vida. São conselhos os pais. Enfiados em metáforas como as verduras no almoço de domingo. Dia da preguiça, mas onde o amor se fortalece. Mas eles não quiseram sair. Não queria usar o extintor para apagar a paixão.

Ela não prestava atenção em nada que acontecia no ambiente. Nem sabia que ambiente estavam vivendo (ou morrendo). Só queria manter-se apaixonada por ele. Como jovens deveriam ser. Toda uma estrada pela frente.

Mas existem atalhos e saídas falsas. Talvez alguém diga que tudo precisa acabar para que o mundo comece a fazer sentido. Lágrimas combinam com amor, mas não deveria ser assim. Não necessita-se de grito ou pânico. Um sorriso no rosto no fim.

De repente acelera. Tudo parece correr. Ninguém consegue enxergar mais nada. Ele procura o corpo dela. Procura as mãos. “Vamos embora daqui”. Siga as migalhas que indicam o caminho. Siga as setas para a saída. “Fique calma, fique comigo”.

Ele sabia que não conseguiria. Ele só queria abraça-la bem forte. Nas tragédias o amor se fortalece. Ela jurou paixão eterna mesmo que dure só mais alguns minutos. Veja! Uma luz.

Ninguém tem culpa. Ninguém poderia prever. Eram tão jovens. Eram tão belos. Eram o casal mais lindo do sul. Esqueça os dilemas, os poemas, as lágrimas desesperadas. Veja o principal. Aquilo que só pode ver perto do fim. O amor sempre sobrevive.

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Minha personagem

20 de janeiro de 2011

E lá estava ela debruçada sobre seus três sagrados travesseiros, com aquela cara de birra que me dava raiva e vontade de ir até lá calar aquele silêncio com um beijo até ela perceber que não, não tenho cavalo branco.

Na verdade, nem sabia ao certo por que raios ela estava com raiva. Raiva por eu ter feito papel de besta? Por eu ter cruzado sete quarteirões a pé atrás do maldito sorvete de morango já que ela não tem paladar refinado o suficiente pra admitir que o de doce de leite é o imperador entre todos os sabores de sorvete já inventados na galáxia? Raiva por eu ter cancelado meu futebol com o pessoal da faculdade graças àqueles olhos convidativos e infantis? Ah, talvez por eu ter recusado o convite pra ir na despedida de solteiro do Marcão pra não deixá-la sozinha. Qualquer homem normal poderia dizer qualquer uma dessas, afinal, estamos falando do Jardim Secreto existente na contraditória mente feminina. Mas eu não podia. Era uma garota difícil de explicar-se e explicar: somei A+B e entendi que estava com raiva porque não aceitei abrir mão de assistir Botafogo x Santos junto com minha torcida, ela queria assistir junto com os “Loucos pelo Botafogo”, mas só se EU estivesse louco! Ela planejou uma viuvez precoce? Não queria que todos aqueles meus planos de “e viveram felizes para sempre” se concretizassem? Era só dizer, mas não precisava arquitetar minha morte! Enquanto gritassem “Uh, É Loco Abreu!” eu gritaria “Vai tomar no c*, Loco Abreu”, sendo que ainda nem pensei no meu epitáfio!

Eu tentava construir argumentos, mas aquela cara de raiva distraia qualquer ordem lógica dos meus pensamentos. Peguei meu computador e decidi que ia competir no mesmo nível: comecei a escrevê-la e sabia que logo ela viria pular no meu colo, curiosa, doida de vontade de ver quais adjetivos eu usara! Mas então, o que dizer? Não abriria mão de uma boa pitada de indignação diante do episódio do jogo, oras! Tampouco seria ácido o suficiente para fazer com ela me negasse os carinhos de reconciliação… Ah, eu tinha que ser o famoso meio termo, aquilo que faz com que nós, homens, não sejamos taxados nem de bestas, nem de insensíveis, o meio termo capaz de garantir minha felicidade após aquela minha insossa tarde de domingo em que perdi aquele jogaço e acabei simplesmente ouvindo um comentarista fajuto da CBN dizendo que Neymar era um frango! Se alguém tinha que estar zangado nessa história, esse alguém seria eu! Ela estava intacta, mas quem quase enfartou, fui eu! Eu que assisti aqueles 95 minutos de jogo sob a tensão, a possibilidade de me ver no G-4! Ela, uns gritos aqui, outros xingamentos ali, mas sem demonstrar muita interação com o adversário moral, eu. Ah, sem contar que o amor pelo El Loco beirava níveis estratosféricos, como se ele estivesse estericamente mais “LINDOOOO” que o normal e adivinhem pra quê? Pra me provocar, claro.

Controlei-me e decidi que o melhor seria camuflá-la dentro de uma outra “ela” qualquer, uma outra história que proporcionasse um olhar flamejante de ciúmes. Eu adorava aquela cara de insegurança e sabia descrevê-la de olhos fechados: mordia canto esquerdo da boca, arqueava a sobrancelha do mesmo lado, evidenciava a covinha, remexia o nariz e desviava o olhar para os lados, cantos, qualquer outro lugar, menos o meu. Aí depois era toda uma seqüência, o caminho mais rápido para o ponto final naquele clima de orgulho.

Não sabia em qual “ela” iria escondê-la. Uma cigana ladra de corações alheios? Uma idosa profunda conhecedora dos sentimentos masculinos? Uma menina de rua impetuosa e valente? Uma balzaquiana no auge da sua vitalidade? Uma garotinha que tropeçava em si mesma? Não tive tempo de decidir, em um segundo ela estava ali em meus braços, descalça como estava, rápida, imprevisível como só ela:

– Vamos pular a parte que eu tenho que me adivinhar aí e você tenta esconder-me?

– Como assim?

– Assim!

E foi o maior dos beijos, aquele que poderia ter sido a foto para o convite do nosso casamento caso alguém tivesse registrado. Essa mulher mudou minha vida. Pra melhor? Pra pior? Não sei, só sei que amanhã instalarei uma câmera de segurança naquele que poderia ser o canto de maior inspiração para as comédias românticas. Estamos perdendo dinheiro.

P.s.: agora ela vira de lado e briga que a luz do notebook não está deixando ela ter o sonho que “anjos de candura” merecem ter. Meu Deus, onde arrumei uma dessa?!

Vários quilômetros na sua hora

26 de dezembro de 2010

Três horas da manhã e todo o vento do mundo balançando sua franja preta. Pele branca e esmaltes vermelho-luxúria condizentes com sua mais adeqüada definição. Ombros desleixadamente jogados, cotovelos pra fora da janela do carro e o destino mais incerto que qualquer outro. Camisa branca desabotoada e maquiagem preta já derretida, sem resquícios do batom vermelho que a deixava parecida com personagem de cinema. Algum rock pesado que ela acompanhava de quando em vez a melodia com o balançar dos dedos no volante, principalmente nas curvas para aumentar a sensação de perigo. Era isso que ela buscava na madrugada, era isso que queria. Uísques, vodkas e pós não eram mais suficientes. Aventurava-se e sabia que tinha mais coragem que a maioria desses vagabundos baratos. Não sabia para onde ir e não queria encontrar aqueles que tanto jogavam na sua cara o que ela tornara-se. Sabia muito bem que no fundo continuava a mesma menina das bochechas roliças, de títulos acadêmicos que não a deixavam feliz verdadeiramente… Do que adiantavam os diplomas emoldurados na sala?! Talvez a maior vantagem fora meio mundo rodado atrás de pedras filosofais que ressuscitassem os que levaram uma vida tal qual ela leva agora. Há muito não acreditava em deuses e santos, mas pedia a quem quer que fosse que queria morrer antes de precisar de alguma espécie de tratamento médico que ela mesma não pudesse realizar. Talvez por esse mesmo medo nega-se a fumar: lembra da imagem do avô no caixão com doença de fumante, sendo que ele jamais fumou nenhum cigarro. Não, não agüentaria morrer tísica daquele jeito, sem o viço da juventude que ela se esforçava para manter. Inconscientemente procurava uma morte ali, naquelas madrugadas… Uma morte digna dos anais da história: “morre tragicamente Drª …, grande autoridade em cirurgia hepática do século XXI que antes dos 30 anos de idade revolucionou a Medicina moderna” ou “a Cirurgia Hepática está em luto pela perda de duas das mãos mais habilidosas que tivera” ou “33 anos de idade e um século de contribuições à Medicina: luto pela cirurgiã prodígio que conquistou o respeito das mais renomadas autoridades científicas”. Ela não queria isso, nem morrer podia em paz! Tudo o que fizera foi inventar a técnica cirúrgica mais óbvia que podiam ter pensado… Aliás, por que não pensaram nisso antes?! Desde então a cobrança de todos… E qualquer erro seria o fim. Nunca soube lidar muito bem com cobranças e tinha dificuldades com sua precocidade. Seus relacionamentos amorosos eram os que menos entendiam tudo aquilo… Qualquer pessoa com seus vinte-e-poucos-anos estaria bebendo despretensiosamente em algum bar, flertando com desconhecidos, indo para a cama com os melhores amigos! Mas ela não, ela era cobrada e seus tutores cobravam cada vez mais desde a publicação daquele artigo… Ela tinha que atingir o ápice. Atingiu. Foi aí que de um estrondo só o corredor do hospital ouviu seu berro e seus passos correndo, fugindo… Estava ali o que eles queriam, que agora a deixassem em paz! E dizem que até hoje aquele corredor vibra o eco daquele pedido de sossego. Tinha 30 anos e passou os últimos três rodando o mundo sem planos, apenas em busca de prazer. Hoje estava ali, às três horas da manhã em uma das maiores avenidas do Brasil, correndo, fugindo dos outros e de si. Nunca amou e que registrassem isso em sua biografia com todas as letras, sempre repetia isso aonde ia. E era mais uma forma de ferir qualquer um que fosse, mesmo que eles não se importassem… Depois das noites boemias, encostava a cabeça na parede do banheiro e chorava como a criança que nunca tinha deixado de ser, lembrava do desgosto da mãe em acompanhar tudo aquilo à distância, lembrava do olhar dele que há tantos anos não via, lembrava do olhar de quase todos eles… Podia esquecer os nomes, mas lembrava dos olhares. Tinha vontade de repetir o feito da adolescência, mas dessa vez queria repetir direito. Lágrimas misturadas com a água do chuveiro, olhos borrados e o café preto de sempre. Mas um dia, há muito tempo, previu que dali a cinco minutos seria o fim do que poderia ter sido e não foi, o auge daquela ópera burlesca, daquele drama. Dali a cinco minutos ela seria apenas mais uma matéria bruta sem crachá para os vermes, sem beijo de despedida, sem lágrimas ou afeto. Dali a cinco minutos ela era a beleza do desgosto poetizado, levando consigo os únicos rascunhos que tinha dos poemas de todos aqueles anos e agora, sim, poderiam dizer que ali havia sua essência: escreveu sua história e o ponto final não foi de nanquim, foi de sangue.

P.s.: na hora de sua morte, tocava na rádio a música que por muito tempo fora sua predileta, quando ela ainda importava-se com isso. Seu nome era “Impossible Germany”, a música que em tempos de garotice ela planejara tocar em seu casamento. Como em “Vestido de noiva”, a marcha nupcial virou marcha fúnebre e não adiantou renegar a Literatura, ela morreu Poeta.

Pode tudo ser.

14 de setembro de 2010

Não consigo ser meia dúzia. Ou sou garrafa cheia ou sou copo vazio. Se for pra me fantasiar de Darth Vadder até imito sua voz robótica e sua respiração pesada. Se você quiser Yoda ficarei verde, pequeno e velho. Pode tudo ser.

Não entro em nada só pra participar. Fazer figuração. Nem que seja pra ser aquele cara engraçado que alguém vai lembrar um dia por aí. Aprendi a usar meus poderes, seja pro bem ou pro mal. Cansei de usar barba, cabelo comprido. Sorriso no rosto. Virarei punk. Um moicano. Quem sabe aquelas pulseiras com metais pontiagudos. Tatuagem na panturrilha, na virilha, no braço. Quem sabe comprar um pitbull.

Ou então poderia deixar o cabelo crescer, a barba, usar um lençol como vestido. Virar uma especie de Jesus do South Park. Povoar minha sala de jantar com velas e incensos. Fazer bacanais no seu banheiro com 7 virgens, 7 dançarinas exóticas e 7 estudantes de Medicina do Ceuma. Ou então encher minha banheira com espumas holandesas só pra nós dois.

Se você me ligar e pedir eu canto Zezé di Camargo. Teço mil elogios pro Fiuk. Até posso citar Paulo Coelho. Mas você gritará impropérios e terei que vocalizar Phil Anselmo. Colocar posteres do Motorhead na parede. E falar que Dostoiévski deveria ser um cara bem legal.

Tomar martinis com azeitonas. Todo vestido de branco. Costeletas e sobrancelhas feitas. Você extrapola meus limites assim meu bem. Tudo tem um preço. E isso tudo tá saindo caro demais.Você tem certeza de que vale a pena?

Não sei não.

Agora é Tarde.

8 de setembro de 2010

Feriado chuvoso no Guarujá. Eu curtia uma Heineken gelada. Observando da sacada do prédio a praia deserta. A revolta barulhenta do mar com os deuses da chuva. Pensava em alguma música do Roberto Carlos. Ela veio silenciosamente e apoiou as mãos em meus ombros.

– É tão bonito. Mesmo sem o sol.
– Muito.
– Calma, primo, você ainda terá uma segunda chance.
– Duvido muito.
– Confie em mim. E na vida. O destino sorri pra vocês dois.
– Se arrependimento matasse.

Então o silêncio voltou, ela se levanta e acende o seu MArlboro light. Perde seu olhar no meio das pedras. Vira pra mim e diz:

“Os frutos do arrependimento são os frutos mais amargos que alguém pode colher”

Engasguei com a cerveja. Ou talvez tenha sido a fumaça. Até hoje espero a tal segunda chance, que aposto nunca virá. A timidez, insegurança e os quilos a mais são amigos/inimigos que insistem em acompanhar minha jornada. E eles trazem junto um visitante mais incoveniente que é o arrependimento.

Daquilo que não se fez, daquilo que se fez errado. Planos infaliveis que deram errado, mesmo dando tudo certo. Tudo que envolve os outros tem chances de erro. Falhar é humano. Deixar de falar também. E então, toda vez que isso acontece eu ouço aquela música do Ultraje a Rigor. “Agora é Tarde” e prometo. Mas promessas nem sempre são cumpridas.

Labrador.

23 de julho de 2010

Duas da tarde de uma terça feira qualquer o telefone toca:

– EU TE ODEIO. – ele, que atendera sem nem verificar quem era, facilmente reconheceu a voz dela do outro lado.
– Por que? O que eu fiz?
– Agora toda vez que eu olho um Labrador lembro de ti! Tu sabe quantos Labradores eu olho nessa merda de cidade por dia? TE ODEIO.
– O que eu posso fazer? Quer que eu mate todos labradores?
– Não. Só queria que tu me amasse de novo.
– Não posso.
– Então tá. Boa tarde.
– Pra ti também.

Maldito coração!

19 de julho de 2010

Eu arrastava meu coração atrás de mim, como um animal de estimação. (Na verdade, era como aquele livro que você gostava que virou filme. A Bússola de Ouro.). Ele estava pesado, cheios de mulheres sem consideração. Além disso, parecia entediado. Coberto por feridas. Desanimado. Cansado de todo uma vida.

Eu, meio a contragosto, aceitei o convite de alguns amigos de ir pra um bar. Calourada de Arquitetura. Aquele curso maldito, aquela profissão que eu sonhei um dia. Protagonistas de várias das feridas do meu coração. Ele, assustado, pediu, quase implorou pra eu não ir. Sabia que poderia se ferir ainda mais. Tinha medo. Eu também.

Muitos conhecidos. Vários amigos. Ela, ela e ela. Como assim? As 3? Como assim? Porra. Meu coração pedia a cada instante pra ir embora. Já previa o que aconteceria. Mais ou menos. Rock’n Roll. Cervejas. Vodka. Combinação não muito boa. Nessa hora eu e meu coração já estavámos abraçados cantando.

HELLO, I’VE WAITED HERE FOR YOU … EVERRRRRRRRRRRRRLOOOOOOOOOOOOOOONG.

Movimentos bruscos. E tudo parou. Pude olhar olhares perplexos. Sorrisos. Comentários inacabados. Eu beijando ela. Meu coração sem entender. What The Fuck?!

Depois foi tudo mais acelerado. De repente já estava na minha cama. Sozinho. Procurei meu coração. Lá veio ele, feliz, sorridente. Novinho em folha. Cantando:

I LOVE YOU BABY, AND IF IT’S QUITE ALL RIGHT, I NEED YOU BABY TO WARM A LONELY NIGHT.

Ele me contou tudo da noite passada. Como tinha jogado todo o peso extra fora. Curado as cicatrizes. E agora estava apaixonado. Como assim? Me sentia um burro, por não entender meu próprio coração. Parecia que tinha pulado um capítulo inteiro, mas confiei nele. LEDO ENGANO.

Tenho pena dele. Se trancou num jaula e agora inventou uma moda de ficar se espetando com agulhas. Pelo menos desistiu das chicotadas que dava. Já parou também de me acusar de ter feito ele sofrer. Porra, coração, eu sofro junto. E foi tu que veio todo feliz me contar sobre ela. Como era perfeita pra gente. E agora? ELA FOI EMBORA, NÃO DÁ MAIS. LEVANTE E ANDE.

Nesse dia, ele começou a se perder. E eu me perdi com ele. Agora não tem mais jeito, amigo. Eu já estou me sentindo melhor, mas ele ainda não. Vamos sair. Buscar outras festas onde se perder.

E hoje depois de meses em coma, trancado. Ele apareceu e me acordou. Disse que estava pronto pra outra. Então, vamos lá.

Vamos à caça?

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