Feliz Ano Novo.

31 de dezembro de 2010

Começou com sorrisos, beijos e sentimentos felizes…era um castelo de areia desmorronando e eu nem sabia onde estava. Tentava a todo custo ajeitar os alicerces, mas já não tinha mais volta, não tinha mais saída, não tinha mais nada a fazer. Então eu acelerei a destruição. Fugi. Sumi. Saí correndo para que não caisse sobre minha cabeça. Esqueça. Por mais que você corra, sempre te alcança. Como aqueles lenhadores nos desenhos do pica-pau.

Larguei meus empregos, larguei minha cidade. Larguei o meu mundinho fechado. Agora eu só ando a pé, mas eu continuo a andar. Cansei da areia da praia e das ondas do mar sempre destruindo sonhos e planos e promessas. Agora eu quero concreto, arranha-ceus e viagens internacionais. Quero ouvir o barulho dos carros passando na avenida. Sem rumo. Sem vontade de parar.

E esse Dezembro veio com promessas de um ano novo bem melhor, beijando Janeiro com vontade de nunca mais largar. Abrindo caminho pra vida que sempre sonhamos em ter. Eu e vocÊ. Ou não.

Agora eu já não sei se visto branco, amarelo ou vermelho no reveillon. Mas dessa vez eu digo que não vou me guardar pra quando o carnaval chegar…

Deja vu

30 de dezembro de 2010

– Você sabia que eu sonhei com esse momento?

– Como assim?

– Sei lá, nosso primeiro encontro é como um Deja Vu. Nossa história teria que se encontrar exatamente nesse ponto. Eu já tinha visto isso…

– E como vai ser daqui pra frente?

– Não sei. Acordei quando a gente começou a comer sushi.

– Então vamos viver. Sabe usar os hashi?

– Não. Me ensina?

– Ensino tudo que você quiser.

– Oba. Serás minha professorinha.

– Se você quiser.

– Eu quero. Sempre!

 

 

30 de dezembro de 2010

Talvez Roberto Carlos tenha razão, os detalhes tão pequenos de nós dois fazem toda a diferença. Por mais que a gente tente disfarçar, não conseguimos mais viver longe um do outro. Eu penso em você a cada batida do meu coração, e você diz o mesmo. Palavras cheias de pedidos implicitos e pingos de compaixão. Amor. Meu grande amor. Que nunca chegou na hora marcada. Assim o gostinho de sua presença é melhor. Esperar.

Não tenho certeza de nada, ninguém pode ter. Queria apenas caminhar com você ao meu lado, em silêncio. Apreciando cada segundo da sua presença, do seu cheiro, da sua voz ao meu ouvido. Eu posso fazer você esquecer as luzes. Depois que tudo apagar. Só estaremos nós dois olhando pra frente, como crianças sorridentes.Eu te amo.

Estava nevando no meu coração quando você apareceu, derretendo tudo que estava travando as portas. Definitivamente, eu não sei mais o que pensar, fazer, escrever. Apenas olho pro teto vermelho do meu quarto, esperando você me ligar.

Perdi o seu número, perdi o seu endereço, mas lembro do seu nome. E olha que você é o amor da minha vida. Eu sabia que meu jeito desleixado ainda iria me cobrar pedágio. Cadê você?

Flores de Plástico

30 de dezembro de 2010

Ela abre a caixa vazia, ainda se iludiu que poderia vir alguma surpresa dentro. Ela se surpreendia com sua própria ingenuidade, queria poder fazer as coisas que sempre sonhou, largar o mundo, viajar. Encontrar o caminho certo mesmo que existam várias pedras a serem retiradas dele. Estava disposta a tudo, mas não tinha coragem. Uma contradição interna gigantesca.

Regava as flores de plástico apenas pela ilusão de cuidar de alguma coisa, sua vida há muito fora jogada pra escanteio. Não queria mais saber de salão e roupas da moda. Criara o seu próprio estilo semi-desleixado para chamar atenção do mundo. Sorria constantemente pra manter as aparências, negando as evidências em um sertanejo qualquer. E desde quando se pode enganar o próprio coração?

Buscava em horoscopos frases de auto-ajuda ou explicações para tudo que pensava, passava, sonhava. Adora fingir uma vida que não era dela, adorava esconder os segredos da sua própria vida. Doses cavalares de autocomiseração. Entre as tantas fórmulas que usava ferver ao sol atrás de um bronzeado era a preferida. Sorria. Sempre. Nem sempre verdadeiramente.

Foi assim que a conheci, perdendo tempo em frente a uma vitrine de lingeries. Foi assim que me apaixonei, ouvindo Chico Buarque num barzinho ali na esquina.

Contradição ou não. Let’s play.

 

Convite ébrio

29 de dezembro de 2010

Olha, eu estou ouvindo Gal Costa, estou lendo Vinícius de Moraes e estou bebendo vinho. Precisa explicar mais ou tu estás vendo bem o monstrinho que me tornei por tua causa? Tens noção de tamanha mudança?! É bom que tenha, porque alguém que ouve Gal, lê Vinícius e bebe fermentados só pode amar, entendes? Eu bem queria que não fosse, já havia prometido procurar alguém que merecesse de verdade, que mereça minha futura quietude que guardo para o meu mais sincero amor e blá blá blá. Mas não, tu apareces no meu caminho, cruza minha esquina, viola meu sinal vermelho e atropela meu coração, tudo com a rapidez de quem só me dá uma alternativa: amar. Gal está cantando aqui que amanhã ela queria que o cara a esquecesse, mas que hoje é toda “sim”. Está vendo bem que até Gal já previa nossa história? Olha, rapaz, os tipógrafos estão te esperando, estão esperando o parágrafo da nossa história para escrever no folhetim da minha vida, então sem buzinas, vem logo me amar porque não sei até quando agüento ler as rimas de Vinícius, não nasci pra versos alexandrinos ou sonetos metrificados, eu sou toda verso branco, ai de mim se alguém descobre que estou lendo “Como viver um grande amor”, ai de mim! Minha salvação será porque o livro tem crônicas e usarei a desculpa que prosa e verso são variáveis da poesia, mãe de todos. Anotei aqui n’um cantinho e o primeiro que vier acusando-me de piegas toma essa na cara sem mais nem menos. Olha, fico com essas coisas ao lado do telefone e já estou no último gole da terceira taça de vinho. Se eu passar mal amanhã, tu tens que vir cuidar de mim, sou dessas mulheres que conseguem o que querem, ouviu? E nem adianta fugir, ninguém irá nos proteger de nós mesmos! Nosso amor por hoje é tudo aquilo que precisamos, mas só por hoje. Amanhã não te levarei café na cama nem quero nada disso das convenções do dia seguinte, mas hoje tu tens que estar aqui comigo, hoje nós seremos almas gêmeas e, sabe de uma coisa?!, quando tu vieres verá o bom tom dessa paixão alheia, dessa paixão que quer ser eufemizada de amor, como se essas pinceladas caíssem mais bonitas nos causos da vida… Como se paixão avassaladora fosse algo sujo ou feio… Amor é mais Gal, mais Vinícius, mais vinho, não é?! Estou aqui atropelando as frases com toda essa persuasão e desse jeito, com essa distância, não purifico meus pensamentos, não repouso minha cabeça em teu peito e só sei que quero você comigo. Será uma maldade tremenda teus olhos medrosos longe de mim esta noite. Tu és um bichinho arredio, animal que não foi bem domesticado, não é?! Então faz o seguinte: segura minha mão e vem comigo por hoje, minha criancinha insegura.

À Espera.

28 de dezembro de 2010

Acelero os passos, pulo etapas, quebro regras. Apresso os dias pra viver intensamente. Sem paixão, sem coração. Sem silêncio por entre os dedos, sem você. Que me pede pra esperar só mais um pouco, mas não tenho tempo a perder. E sei que esperarei. Contando as horas, dias, segundo, minutos. Sem gradação. Sem sentido. Apenas sendo eu mesmo. Um autista hiperativo.

Sei que pareço idiota, ou maluco, mas eu sei o que eu faço e não quero fazer sentido pra ninguém. Só você me entende ou pelo menos sabe fingir muito bem. Olhando nos meus olhos antes do beijo você parece brilhar, como uma estrela cadente sem ninguém pra fazer um desejo. Meu poço. Sem fundo. Amor da minha vida. À primeira vista. Ao segundo encontro. Ao terceiro beijo.

Agora já não tenho dúvidas, apenas dívidas. Promessas que eu nem sei se poderei cumprir. A gente olhando pra lua imaginando como vai ser quando eu precisar ir embora. Quando chegar a hora. É melhor nem pensar nisso tudo. Eu juro que poderia te levar comigo, escondida no meu coração. Na parte mais nobre da minha carne. Você está impressa na minha pele.

Traço alguns planos de fuga, mas mesmo assim não terá jeito. Sempre sairei com arranhões, feridas e lágrimas. Tomara que você saia ilesa, cansei de me preocupar com o egoísmo. Não tem mais jeito.Não mudarei mais. Clausulas petreas da minha personalidade. Não existem emendas pra isso. Não adianta nem tentar. Ame ou deixe. Mas ame mesmo se deixar.

Obrigado por me ligar naquela tarde vazia, não é uma música, mas fez sucesso no meu peito. Estou em sua teia tentando em vão me libertar, mas quanto mais eu me movo, mas eu me enrolo. Rezando pra você ser uma aranha vegetariana, quem sabe? Vou apenas ficar aqui parado, esperando. Como você me pediu. Mas será que posso pelo menos ouvir uma música bem alta, amor?

 

Trapezista em queda livre.

27 de dezembro de 2010

Não, meu amor, você não é a mulher mais inteligente do mundo. Não, amor, você não é a mulher mais bonita do mundo. Não, você não é o meu sonho de consumo. Na verdade, eu sempre deixei você sobressair, fazendo perguntas que sabia que você saberia a resposta. Pedir explicações que eu já sabia só pra ver você se sentindo útil. Sou um grande manipulador. Crápula. Canalha. E todos os xingamentos com a letra C que você quiser. Afinal, a vida é um jogo de Stop.

E tudo que eu sempre falei era exatamente tudo aquilo que eu sabia que você queria ouvir. Esse é o jogo. As regras não foram decididas previamente logo, não há regras. Só eu e você fazendo o que der na telha. E seu telhado, garota, é de vidro. Não brinque com fogo se tem medo da chuva. Ouça o que eu digo, não ouça ninguém. Talvez isso faça algum sentido quando se sentires só pelas ruas da cidade contando os carros vermelhos que passam e não sou eu a dirigir.

Nunca gostei de sertanejo, nem de forró, mas eu fingia por você. Sou um bom ator, poderias dizer. Mas até misturo as pessoas do singular com teu nome se você quiser. Mas agora eu cansei, eu sei, e deixei a porta aberta pra você sair, por livre e espontanea pressão. Adeus!

E não, seus quadros não tem nada de parecidos com Salvador Dali, dali não saíra nenhuma obra que alguém teria na sala de estar, muito menos em exposições no Louvre. Você não é mais nada sem mim. Sou o compositor principal dos seus parcos sucessos. Seu nexo, pierrot, retrocesso. Tudo. E todos aqueles filmes europeus são chato, viu? Eu cochilava de vez em quando porque sabia que você estava concentrada demais neles pra prestar atenção pra mim.

Nunca li aquele livro que você me emprestou. Na verdade, só achei um resumo na internet pra comentar com você. Sorte que você nunca faz perguntas profundas e superficialmente eu sou um gênio. Como as garrafas de coca-cola espalhadas no chão do seu carro, ou as pontas de cigarro que apagaram sem querer na chuva forte, eu sou o seu trapézio.

Agora assisto você caindo em queda livre. Rumo ao chão. Sem escalas ou salvação.

 

Viagem ao centro do (meu) mundo

27 de dezembro de 2010

Para com isso, por favor. Não quero mais ouvir esse blablabla interminável do mundo. Não quero. Só um minuto de paz, é pedir demais? Vamos trancar a porta e deixar que o resto pense que a gente morreu, pode ser? Mudei de idéia, fica aqui. Um abraço e eternamente. Não quero mais silêncio.

Aumenta o volume. Dos gritos e sussurros. Sim, sou um cara estranho. Envolto na solidão, faço manha quando você está longe. Mando sms melosas, ligo pra dizer que estou com saudades. Quero você. Aqui. Agora. Sempre.

Mas São Paulo é assim mesmo, e já me acostumei a dormir todo coberto ouvindo os pingos de chuva batendo no vidro da janela. Por que você não me abraça? Eu juro que seria qualquer coisa só pra te ver sorrir. Só por você. Todos os dias.

Eu cresci, não sou mais o menino, mas continuo genioso e impulsivo. Mas até que estou bem. Escrevendo seu nome com o giz na calçada. Esperando a chuva apagar. Uso as mesmas camisas, não escondo meus defeitos. Meu maior defeito é estar longe de você. Agora. Sempre. Hoje te liguei e você nem atendeu.

Meu pedido pra hoje seria você, um filme na TV e um café gelado pra aplacar esse calor infernal. E então traçamos nossos planos mesmo sabendo que nunca serão realizados. Anotaí na sua lista de desejos. Quero você. Aqui. Agora. Sempre.

Afinal, esse texto me diz tanto que nem sei porque não tem meu nome. Que raiva do avião que te levou daqui.

Olha, eu pensei, pensei, pensei e nada de saber algo realmente bonito pra te dizer, com todas aquelas palavras pomposas que tu usas, com todo o garbo de advérbios e conjunções que tu sabes empregar tão bem. Ah, benzinho, não sei dessas coisas, não… Meu negócio é mais direto e simples, só que eu pensei que se eu falasse assim na lata, tu poderias achar que era papo furado de quem acordou com a pá virada… Então já sabe, é de verdade o que vou dizer aqui, não é pra rir de mim, tá? Promete? Eu sei que vai rir, não sei por que ainda peço que tu prometas isso! Tá, o que eu tenho pra falar é que eu te amo e que tu és o homem da minha vida. Pronto, agora pelo menos para de rir, para de rir senão eu vou fazer algo que ainda não sei o que é, mas faço, ouviu bem?!

Nem sei mesmo porque to dizendo isso tudo, no fundo não te amo, para de rir! Não amo e pronto. O que eu amo é essa tua cara amassada quando acorda e não consegue dizer nem uma frase completa, amo mesmo é teu assobio no elevador, amo teu “bom dia” quando é tarde, teu “boa tarde” quando é noite… Amo também tua teimosia dizendo que o carro ficou estacionado de um lado, fazendo-me andar desnecessariamente, um castigo pelo salto alto, só pode, hunf! Amo tua cara de bêbado. Ah, a de sóbrio também, confesso. Amo tuas torradas queimadas, teu estrogonofe com leite condensado quando tu insistes que a lata é de creme de leite, amo teu cabelo desgrenhado e tua gravata folgada. Amo teu despertador atrasado, tua cara de birra quando temos que visitar teus parentes distantes, teus óculos embaçados, teu celular perdido e quando tu te perdes e leva-me contigo.

Ai, se não for demais, amo tuas ligações quando estou na casa da costureira fofoqueira, amo tua implicância com meus amigos homens, teus ciúmes bobos e infantis. Amo quando tu censuras minhas saias e vestidos, minhas maquiagens e meus esmaltes, quando tu me queres só pra ti, quando tu me tens só pra ti. Amo tua toalha molhada em cima da pia. Ah, pausa para esse item: acho que eu amo muito tua toalha molhada em cima da pia! Tu não tens noção de como amo isso, de como amo te ter e ter tua toalha molhada em cima da pia! Meu Deus, eu tenho um homem que três vezes ao dia me faz lembrar que ele existe em minha vida, que existe e está aqui comigo, um homem que deixa a toalha molhada em cima da minha pia, não na pia da vizinha ou na tela do cinema ou nas páginas do livro ou na conversa do lavabo do cabeleireiro… A toalha em cima da pia está aqui, na minha frente, com aquele teu cheiro e quase sempre com o nosso cheiro. Acho que um dia escreverei só sobre essa toalha, porque tu não tens noção da felicidade que tenho quando a olho e brigo contigo pra não perder o costume, quando jogo-a no chão é o momento de mais puro amor que pode existir, se não fosse a toalha molhada em cima da pia, acho que eu não te amaria tanto, essa é a verdade. O meu homem e sua toalha molhada em cima da pia… É, sou uma mulher verdadeiramente feliz.

Agora para de rir mesmo, para que to avisando e é sério! Se tu não parar, eu… Eu… Eu… Eu vou racionar meus sorrisos de manteiga pelas tuas torradas queimadas, meus sorrisos incoercíveis de teus estrogonofes doces, até mesmo os sorrisos que te fazem acordar também sorrindo, que são teu Sol em plena noite e tua Lua em pleno dia. Se não parar, inclusive os meus sorrisos que são tua bússola entrarão no castigo, além daqueles que te embriagam e te despertam, que te penteiam para depois te despentear, os meus sorrisos de quem te ama sem nem te conhecer, afinal, esses são os mais sinceros: os meus risos de quem não te conheces, mas tem a certeza que um dia tudo isso irá acontecer e nós dois iremos rir lendo isto e tu saberás do caso da toalha molhada e vai aproveitar-se disso e eu brigarei tentando esconder esse sorriso, o sorriso que tu não podes ver, mas que de todos é o que mais gosto de ter.

É, acho que eu te amo mesmo. Eu amo todos os defeitos e sem eles não viverei, benzinho. Então vem logo porque minha pia e eu estamos ansiosas.

Vários quilômetros na sua hora

26 de dezembro de 2010

Três horas da manhã e todo o vento do mundo balançando sua franja preta. Pele branca e esmaltes vermelho-luxúria condizentes com sua mais adeqüada definição. Ombros desleixadamente jogados, cotovelos pra fora da janela do carro e o destino mais incerto que qualquer outro. Camisa branca desabotoada e maquiagem preta já derretida, sem resquícios do batom vermelho que a deixava parecida com personagem de cinema. Algum rock pesado que ela acompanhava de quando em vez a melodia com o balançar dos dedos no volante, principalmente nas curvas para aumentar a sensação de perigo. Era isso que ela buscava na madrugada, era isso que queria. Uísques, vodkas e pós não eram mais suficientes. Aventurava-se e sabia que tinha mais coragem que a maioria desses vagabundos baratos. Não sabia para onde ir e não queria encontrar aqueles que tanto jogavam na sua cara o que ela tornara-se. Sabia muito bem que no fundo continuava a mesma menina das bochechas roliças, de títulos acadêmicos que não a deixavam feliz verdadeiramente… Do que adiantavam os diplomas emoldurados na sala?! Talvez a maior vantagem fora meio mundo rodado atrás de pedras filosofais que ressuscitassem os que levaram uma vida tal qual ela leva agora. Há muito não acreditava em deuses e santos, mas pedia a quem quer que fosse que queria morrer antes de precisar de alguma espécie de tratamento médico que ela mesma não pudesse realizar. Talvez por esse mesmo medo nega-se a fumar: lembra da imagem do avô no caixão com doença de fumante, sendo que ele jamais fumou nenhum cigarro. Não, não agüentaria morrer tísica daquele jeito, sem o viço da juventude que ela se esforçava para manter. Inconscientemente procurava uma morte ali, naquelas madrugadas… Uma morte digna dos anais da história: “morre tragicamente Drª …, grande autoridade em cirurgia hepática do século XXI que antes dos 30 anos de idade revolucionou a Medicina moderna” ou “a Cirurgia Hepática está em luto pela perda de duas das mãos mais habilidosas que tivera” ou “33 anos de idade e um século de contribuições à Medicina: luto pela cirurgiã prodígio que conquistou o respeito das mais renomadas autoridades científicas”. Ela não queria isso, nem morrer podia em paz! Tudo o que fizera foi inventar a técnica cirúrgica mais óbvia que podiam ter pensado… Aliás, por que não pensaram nisso antes?! Desde então a cobrança de todos… E qualquer erro seria o fim. Nunca soube lidar muito bem com cobranças e tinha dificuldades com sua precocidade. Seus relacionamentos amorosos eram os que menos entendiam tudo aquilo… Qualquer pessoa com seus vinte-e-poucos-anos estaria bebendo despretensiosamente em algum bar, flertando com desconhecidos, indo para a cama com os melhores amigos! Mas ela não, ela era cobrada e seus tutores cobravam cada vez mais desde a publicação daquele artigo… Ela tinha que atingir o ápice. Atingiu. Foi aí que de um estrondo só o corredor do hospital ouviu seu berro e seus passos correndo, fugindo… Estava ali o que eles queriam, que agora a deixassem em paz! E dizem que até hoje aquele corredor vibra o eco daquele pedido de sossego. Tinha 30 anos e passou os últimos três rodando o mundo sem planos, apenas em busca de prazer. Hoje estava ali, às três horas da manhã em uma das maiores avenidas do Brasil, correndo, fugindo dos outros e de si. Nunca amou e que registrassem isso em sua biografia com todas as letras, sempre repetia isso aonde ia. E era mais uma forma de ferir qualquer um que fosse, mesmo que eles não se importassem… Depois das noites boemias, encostava a cabeça na parede do banheiro e chorava como a criança que nunca tinha deixado de ser, lembrava do desgosto da mãe em acompanhar tudo aquilo à distância, lembrava do olhar dele que há tantos anos não via, lembrava do olhar de quase todos eles… Podia esquecer os nomes, mas lembrava dos olhares. Tinha vontade de repetir o feito da adolescência, mas dessa vez queria repetir direito. Lágrimas misturadas com a água do chuveiro, olhos borrados e o café preto de sempre. Mas um dia, há muito tempo, previu que dali a cinco minutos seria o fim do que poderia ter sido e não foi, o auge daquela ópera burlesca, daquele drama. Dali a cinco minutos ela seria apenas mais uma matéria bruta sem crachá para os vermes, sem beijo de despedida, sem lágrimas ou afeto. Dali a cinco minutos ela era a beleza do desgosto poetizado, levando consigo os únicos rascunhos que tinha dos poemas de todos aqueles anos e agora, sim, poderiam dizer que ali havia sua essência: escreveu sua história e o ponto final não foi de nanquim, foi de sangue.

P.s.: na hora de sua morte, tocava na rádio a música que por muito tempo fora sua predileta, quando ela ainda importava-se com isso. Seu nome era “Impossible Germany”, a música que em tempos de garotice ela planejara tocar em seu casamento. Como em “Vestido de noiva”, a marcha nupcial virou marcha fúnebre e não adiantou renegar a Literatura, ela morreu Poeta.

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