Coleção Inverno-Primavera

25 de julho de 2013

solidaomulher

Já era primavera há algum tempo. As flores coloridas enfeitando as avenidas da cidade e os pássaros ensaiando suas músicas na volta para casa, mas o inverno ainda não tinha saído de dentro de mim. Não tinha porque tirar as camisas coloridas do guarda-roupa.

Minhas mãos ainda estavam geladas, a Coca-cola no suporte do meu carro quente demais para eu considerar bebê-la. Tudo estava meio cinza e sem gás ao redor da minha vida aparentemente inútil.

Até a rádio parecia sentir o que eu sinto tocando Radiohead e essas coisas meio depressivas em sequência para testar se eu teria coragem de tirar a minha própria vida. Mas nunca fui apreciador de atos corajosos nem de armas letais. Sou apenas mais um.

O calendário com a foto dela na minha geladeira insistia em lembrar a cada minuto a ausência que cavava fundo no meu peito e dava leves petelecos no meu coração. E quando se sente só e deprimido as viagens à cozinha aumentam consideravelmente. Que cruel!

Os pratos se acumulavam dentro da pia, se é que ainda se podia chamar aquilo de pia. As meias seguiam em meus pés junto as havaianas com desenhos do Pac Man que eu ganhei em algum aniversário.

A TV. Ah! A televisão é sempre um convite para o tédio. Principalmente em um domingo sem futebol. Odeio domingos em que o meu time não joga. Parece que tudo começa a rodar em câmera lenta. A caneca com Nescau que eu tomo vagarosamente sem vontade de enchê-la de novo. O saco de pipocas meio cheio transbordando no tapete da sala.

Um filme que já vi dezenas de vezes e já decorei as falas mesmo achando ele muito mais ou menos. Essa é a vida da moda inverno-primavera que os grandes estilistas ignoram nos desfiles na Europa.

O telefone começa a tocar, parece frenético. O toque aumenta junto aos meus batimentos cardíacos. E por desleixo, eu não sei exatamente onde ele está. Jogo as almofadas da poltrona para cima, sigo o som como um cão farejador em busca de drogas no aeroporto.

Depois de alguns longos nove toques eu o acho exatamente na hora que ela desiste. Que pena! Depois de tanto tempo eu queria apenas ouvir novamente a sua voz. Sentir o tom mudando com o passar do tempo se amaciando como um sapato apertado.

Vou ao banheiro e vejo como minha barba está grande. Sempre usei barba, mas parece que resolvi encarnar um ermitão e viver longe da civilização.

Então a tela do celular se acende e eu então posso ler. “Já cheguei em Guarulhos”. Depois de longos dois dias, ela está de volta para mim.

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Espere que eu vou descer

25 de fevereiro de 2013

metro+vazio

Era uma tarde tranquila em um metrô semivazio. Nem parecia São Paulo. Nem parecia segunda-feira. Eu fingia ler meu jornal como se ainda existissem pessoas que leem jornal nos bancos do metrô, quem dera eu tivesse um chapéu e um bigode para viver nos anos 30. Existiam metrôs nos anos 30?

Eu era a última pessoa que parecia estar em outra época, vestia uma camisa do Alice In Chains e amarrava meu cabelo com elástico de dinheiro. Como se chama esse elástico aqui em São Paulo? Lá de onde eu venho se chama liga. Liga. Engraçado que ela não me ligue mais.

Eu não tenho destino. Só quero ler o meu jornal em paz. Indo e vindo na linha verde do Metrô. Entre as Vilas, Madalena e Prudente. Talvez faltasse um pouco de qualquer coisa na minha vida. Ter tempo livre para ir e vir debaixo da terra não é coisa de gente normal.

Eu não queria que ela me ligasse. Não queria que dissesse que ia buscar o resto das coisas lá em casa. O sinal do celular quase não existe no metrô. Não consigo ler direito o jornal com todo esse balanço, mas eu finjo. Não olho nos olhos da menina de vestido vermelho em pé defronte a porta. Não quero ligações remotas.

Estou de férias. Não quero viajar. Apenas descobrir o que acontece no mundo fora do meu quarto semivazio de uma segunda-feira a tarde. Quem lê o jornal pela tarde? Talvez alguém que escreva uma história de amor sem saber que existe alguém roteirizando a nossa vida. Quero um cigarro. Não fumo. Quero um chapéu e um bigode bem fino para viver nos anos 30.

O amor sempre vence. Sempre ultrapassa na última curva. Sempre marca aos 48 do segundo tempo. Uma cesta de três do meio da quadra. É uma aposta muito difícil. Talvez eu ande até o jóquei e aposte no cavalo azarão. Sinto que estou voltando no tempo. Mas o meu jornal não permite mudar. A data está lá sorrindo e acenando para mim.

Meu time venceu. O dólar subiu. Alguém morreu atingido por um rojão na Bolívia ou foi no Peru? Não quero segredos, quero um chá gelado para me matar de frio. Tomara que ela não tenha jogado a chave de casa fora. Tomara que já tenha levado tudo. Não quero olhar nos olhos de ninguém. Nem nos das fotos do meu jornal.

A casa semivazia ecoando meus discos de grunge que há tempos eu esqueci. Não quero guardar mais segredos. Não quero ter medo de trovões e relâmpagos. Vou deixar ela ir embora mesmo querendo que fique um pouco mais. Mais uma dose. Um cigarro talvez. Não fumo. Nem leio jornal.

O amor sempre ganha. Oscar de melhor filme estrangeiro. Quem liga pra isso? Quem liga para qualquer coisa que não espante a solidão. Minha mente semivazia espera que o mundo comece a lotar o vagão. Eu não quero mais ler o jornal. Não quero esperar o dia passar. A vida fechar a porta sem a sirene avisar. Espere que eu vou descer.

Relacionamentos – Arnaldo Jabor

24 de março de 2010

Hoje vou colocar um texto de Arnaldo Jabor que li em algum lugar. Acho que pode até ser que o texto nem seja dele, mas é legal!

RELACIONAMENTOS…

Sempre acho que namoro, casamento, romance, tem começo, meio e fim.
Como tudo na vida.
Detesto quando escuto aquela conversa:
– Ah,terminei o namoro…
– Nossa, estavam juntos há tanto tempo…
– Cinco anos… que pena… acabou…
– É… não deu certo…
Claro que deu!
Deu certo durante cinco anos, só que acabou.
E o bom da vida, é que você pode ter vários amores.
Não acredito em pessoas que se complementam. Acredito em pessoas que se somam.
Às vezes você não consegue nem dar cem por cento de você para você mesmo, como cobrar cem por cento do outro?
E não temos essa coisa completa.
Às vezes ela é fiel, mas é devagar na cama.
Às vezes ele é carinhoso, mas não é fiel.
Às vezes ele é atencioso, mas não é trabalhador.
Às vezes ela é muito bonita, mas não é sensível.
Tudo junto, não vamos encontrar.
Perceba qual o aspecto mais importante para você e invista nele.
Pele é um bicho traiçoeiro.
Quando você tem pele com alguém, pode ser o papai com mamãe mais básico que é uma delícia.
E às vezes você tem aquele sexo acrobata, mas que não te impressiona…
Acho que o beijo é importante… e se o beijo bate… se joga… se não bate… mais um Martini, por favor… e vá dar uma volta.
Se ele ou ela não te quer mais, não force a barra.
O outro tem o direito de não te querer.
Não brigue, não ligue, não dê pití.
Se a pessoa tá com dúvidas, problema dela, cabe a você esperar… ou não.
Existe gente que precisa da ausência para querer a presença.
O ser humano não é absoluto. Ele titubeia, tem dúvidas e medos, mas se a pessoa REALMENTE gostar, ela volta.
Nada de drama.
Que graça tem alguém do seu lado sob pressão?
O legal é alguém que está com você, só por você.
E vice-versa.
Não fique com alguém por pena.
Ou por medo da solidão.
Nascemos sós. Morremos sós. Nosso pensamento é nosso, não é compartilhado.
E quando você acorda, a primeira impressão é sempre sua, seu olhar, seu pensamento.
Tem gente que pula de um romance para o outro.
Que medo é este de se ver só, na sua própria companhia?
Gostar dói.
Muitas vezes você vai sentir raiva, ciúmes, ódio, frustração…
Faz parte. Você convive com outro ser, um outro mundo, um outro universo.
E nem sempre as coisas são como você gostaria que fosse…
A pior coisa é gente que tem medo de se envolver.
Se alguém vier com este papo, corra, afinal você não é terapeuta.
Se não quer se envolver, namore uma planta. É mais previsível.
Na vida e no amor, não temos garantias..
Nem toda pessoa que te convida para sair é para casar.
Nem todo beijo é para romancear.
E nem todo sexo bom é para descartar… Ou se apaixonar… Ou se culpar….
Enfim…. quem disse que ser adulto é fácil?

(Arnaldo Jabor)

e depois o silêncio…

11 de setembro de 2009

É tão bom passar as tarde sozinho nessa sala. Silêncio. Nem parece a antigo escritório onde tudo era muito barulhento. Pessoas falando, construção no prédio ao lado. De vez em quando um forró muito alto. Aqui não silêncio. Só o som dos meus dedos no teclado. De vez em quando toca o telefone…muito raramente. Confesso que até gosto de companhia, de ter alguém pra conversar, mas têm aqueles dias em que você quer ficar só… E só!

O Silêncio

antes de existir computador existia tevê
antes de existir tevê existia luz elétrica
antes de existir luz elétrica existia bicicleta
antes de existir bicicleta existia enciclopédia
antes de existir enciclopédia existia alfabeto
antes de existir alfabeto existia a voz
antes de existir a voz existia o silêncio
o silêncio
foi a primeira coisa que existiu
um silêncio que ninguém ouviu

astro pelo céu em movimento
e o som do gelo derretendo
o barulho do cabelo em crescimento
e a música do vento
e a matéria em decomposição
a barriga digerindo o pão
explosão de semente sob o chão
diamante nascendo do carvão
homem pedra planta bicho flor
luz elétrica tevê computador
batedeira, liquidificador
vamos ouvir esse silêncio meu amor
amplificado no amplificador
do estetoscópio do doutor
no lado esquerdo do peito, esse tambor

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