A receita do amor

30 de novembro de 2012

Há uma receita para ser feliz no amor. Não acredite em ninguém que diga o contrário, também não acredite em quem diz saber exatamente como é essa receita. Todos querem vender uma certeza que não lhes pertence, quase um criminoso. Como aqueles que a gente vê vendendo mercadorias roubadas.

Se ninguém sabe qual é a sua receita como se pode afirmar que a receita existe? Como um escritor espanhol escreveu certa vez: “yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay”. É uma questão de fé. Todos nós nascemos com uma receita da felicidade amorosa dentro de nós. Cada um tem a sua, diferente de todas as outras.

Por muito tempo vendeu-se a ideia que para sermos felizes devemos procurar alguém que tenha uma receita igual a nossa. Que seja o mais parecido com a gente. Ledo engano. Outra teoria é que os opostos se atraem. Que devemos buscar a pessoa mais diferente possível da gente. Outro erro crasso.

O que devemos procurar é uma pessoa que tenha os ingredientes que faltam em nós mesmos para completar a receita. Outra analogia a ser feita é um quebra-cabeça, mas aí vira um clichê hollywoodiano e depois vamos começar a falar de tampas de panela e coisas afins.

E como se faz o que a receita dita? Quais são as coisas mais importantes de uma receita? Temos que ir à feira e comprar boas verduras, legumes, temperos, carnes e etc. Com bons ingredientes a nossa receita tem tudo para dar certo. Basta saber procurar e ter paciência para juntá-los.

Ninguém disse que tudo é assim tão fácil. Todo mundo sabe que a vida é jogada no modo very hard e não temos continue infinito para gastar. A tarefa de encontrar a pessoa com os ingredientes certos é árdua e mesmo depois de encontrá-la não se tem nenhuma garantia de que dará certo.

Como eu, existem milhares de pessoas que são fracassos na cozinha. Eu sempre achei que fazia tudo certo. Tinha escolhido os melhores ingredientes, procurado no Google o passo a passo detalhado da receita e mesmo assim o resultado era um desastre. Talvez eu não tenha, simplesmente, o dom. Isso também pode ser transportado para a vida amorosa. Existem pessoas que não foram feitas para isso.

Essas pessoas costumam lamentar-se dizendo que não existem pessoas que possam “completá-las”. Isso não é verdade. Provavelmente já tenha passado por sua vida alguém que possua os ingredientes perfeitos para sua receita. Você apenas não soube extraí-los.

Mas o que diabos tem nessa receita? Essa receita contém uma explicação detalhada daquilo tudo que a gente precisa em outrem para sermos felizes. Quase um pequeno manual de convivência, quase uma bula de remédio. Aquelas baboseiras de “mulher ideal” advém dessa receita. Pessoas que têm pequenas epifânias e visualizam brevemente as receitas passam a deturpar o conteúdo delas. Quase como as visões religiosas.

Não quero aqui ensinar ninguém a fazer a sua receita. Nem quero que vocês sejam felizes. Não tenho a mínima vontade de mudar o mundo nem ao menos o meu bairro. Quero que tudo continue o seu curso e que as águas continuem em direção ao mar.

O que eu quero dizer é que todo mundo pode ser feliz. Não existem infelizes crônicos, por mais que você queira alardear aos quatro cantos a sua miserabilidade. Todo tem uma receita para a felicidade e muitas vezes os ingredientes não estão em uma única pessoa. Estão divididos em várias. Em todos que o rodeiam, não apenas o amor da sua vida.

É possível extrair temperos das namoradas, dos pais, dos amigos, dos animais de estimação, das redes sociais, dos videogames, das séries de TV, dos filmes coreanos, das músicas ciganas. Enfim, de qualquer coisa. Você tem que procurar ao longo da sua vida esses “itens” escondidos. Como um jogo bem complicado que jogaste semana passada.

É possível ser feliz sozinho! É possível ser feliz solteiro! É possível ser feliz de qualquer jeito, você tem apenas que escolher as várias formas de felicidade que estão em sua receita. Além disso, é preciso confiar na sua receita. Ela é moldada com tudo aquilo que você tem vivido, às vezes ela é até mutante, muitas vezes é um compêndio. Um livro de receitas da Palmirinha.

Temos apenas que casar nossas loucuras gastronômicas amorosas com outra pessoa que seja igualmente louca. Temos que descobrir se o nosso banquete é realmente pleno ou não passa de um café com pão num barzinho da esquina. Falar de receitas é complicado, das fórmulas é impossível e ser feliz é mais que necessário.

Eu te amo, celular

26 de novembro de 2012

Não se importava com a porta aberta nem com o silêncio que se alongava no corredor vazio do seu apartamento. Apenas imaginava as curvas que daria com seu carro para chegar onde estava o seu grande amor, se é que ela ainda estava lá o esperando como uma estátua plantada na porta do ginásio da cidade.

Não tinha planos para o fim do ano. Na verdade, não tinha plano nenhum para nada. Era apenas um “deixe a vida levar” e só. Com seu cigarro totalmente amassado repousando no canto da boca e um bloco de anotações quadriculado onde com o cotoco do lápis ele escrevia pensamentos idiotas.

Era sexta-feira, não uma sexta-feira qualquer. Era o seu aniversário. Não tinha recebido nenhuma ligação, nem um telegrama, muito menos um sinal de fumaça. Fumaça, aliás, era a única coisa que se movia em seu apartamento. Até usa respiração era mais lenta. Queria apenas sentir o abraço dela outra vez.

Não sentia falta dos abraços de mais ninguém. Não queria presentes nem tapinha nas costas. Queria apenas ver o nome dela na tela do seu celular. Só. Ainda guardava as cartas que por anos e anos ela mandou quando esteve viajando mundo a fora. Até o fora que ela lhe deu foi escrito com papel cheirando a morango.

Odiava morango. E flores. As últimas que ele comprara foram jogadas do décimo quarto andar e sabe se lá em quem elas bateram lá embaixo. Não deu em nenhum jornal do bairro que alguém tinha sido assassinado por um buquê de flores suicida.

Não que eles brigassem muito. Não que gostassem de ver um ao outro com a expressão de raiva no rosto, mas ambos eram competitivos. Não queria perder. Não queriam amar menos que o outro. Não queriam botar o lixo fora nem lavar os pratos.

Ela observava o calendário com filhotes de cachorro em cima da mesa do seu escritório. Às vezes se perguntava porque aquela mesa tão grande se pouco trabalhava sobre ela. Queria mesmo era um salão imenso e muitos clientes. Mas aquela não era uma sexta-feira qualquer.

Queria falar com ele de qualquer jeito. Era o dia especial. Queria contar tudo que sofreu estando a tantas curvas de distância. Queria pegar o carro e aparecer de repente no apartamento que os dois passaram tanto tempo pagando para quitar. Queria dizer que o ama.

Poderia mandar um cartão postal. Um telegrama. Quem sabe algum sinal de fumaça. Mas tinha parado de fumar. Queria gritar a plenos pulmões da janela do vigésimo terceiro andar e a cidade inteira parasse para ouví-la. Queria ser a mocinha da história novamente.

O celular repousava como um peso de papel. Queria um abraço. Queria que ela tivesse coragem para ligar e pedir tudo de volta. Aquela mesma vida que largou para buscar a felicidade em notas verdes e jantares de gala.

Agora ela queria um abraço quente e cafuné antes de dormir. Alguém que pudesse massagear seus pés e tentar massagear suas costas e ele mesmo com suas mãos trêmulas e ideias pecaminosas era o que ela queria.

Resolveu ligar. Era a reconciliação. Passava todo o filme em sua cabeça. Ele com seu cabelo eternamente desarrumado tentando esconder as lágrimas e fingindo estar zangado e ela com as lágrimas caindo escandalosamente pedindo perdão. Uma humilhação que só o amor pode proporcionar.

“Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa de mensagens…”

E mais uma vez um descuido e um celular desligado fizeram todo um amor ou uma reconciliação irem por água abaixo. Malditas operadoras!

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