I saw her standing there…

25 de setembro de 2010

Festinhas dançantes sempre foram um pesadelo pra mim. Nunca fui muito de dança. Ou ficava parecendo um robô com ferrugem nas articulações ou parecia uma caricatura bem mal feita do John Travolta. Era tudo muito exagerado. Então, no meu 3º ano o pessoal organizava muitas dessas festas regadas à alcool, música eletrônica e paixões adolescentes. Eu quase nunca me dava bem porque não sabia dançar. Mas eu ia mesmo pela cerveja grátis, pelo papo animado com a galera e, também porque nunca se sabe se aquele pode ser seu dia de sorte.

Naquele dia eu tinha uma desculpa e uma tática perfeita. Pela manhã tinha torcido o tornozelo no torneio interclasses do colégio. Pé enfaixado. Não precisaria ter que dançar e as curiosas sempre perguntam o que aconteceu. Acho que o instinto materno faz elas se aproximarem dos “necessitados”.

Eu sempre fui ruim de mentir. Contar histórias. Inventar um faz de conta pra garota se sentir uma princesa. Resumindo: sou péssimo de papo.

A noite estava perfeita. Eu lá sentado na bancada quase sempre sozinho vendo o povo se divertir. Até que olhei ela lá parada. Era ela. Só podia ser. Era irmã mais nova de um carinha da minha turma, estava deslocada com um copo daqueles drinks coloridos na mão. Levantei, mancado e com muita dor me aproximei. No caminho, um amigo mais solicito me deu uma cerveja nova. 40 segundos pra pensar em algo inteligente e engraçado pra falar.

Uma mentira, lógico.

Tava rolando um reggaezinho maneiro. Se eu pudesse dançaria com você a noite inteira e te faria ser a garota mais feliz daqui. Afinal, a mais bonita com certeza você é. Só precisa sorrir mais, seu sorriso é lindo. (Que idiota, falei o que não era pra ser dito, sabia que daria errado. Com esse clichê todo. Burro).

Ela sorriu. Disse que se chamava Adriana. Disse que bebia coquetel de frutas, mas não sabia quais. Disse que meu cabelo era engraçado. Que meu sorriso era torto. E que meus óculos eram de velho.

Conversamos um bom tempo. Contei mais histórias que Forrest Gump. Quase todas inventadas. Estava me sentindo o maior mentiroso da região. Ficamos juntos um bom tempo naquele ano. Minha lesão foi pior que o esperado, minhas mentiras foram dificeis de sustentar. As festinhas foram ficando mais hardcore.

Mas a maior mentira que ela me contou tinha apenas três palavras: Eu te amo. E pior, era verdade.

(Nessa época eu ainda fugia do amor. Só queria saber de sexo, drogas e rock’n roll. )

DNA é inevitável

1 de setembro de 2010

Era sempre assim, não se tinha idéia do que poderia acontecer. Ele estava morto. Inconscientemente as lágrimas rolavam dos meus olhos. Não o veria mais, mas será que realmente eu sentia tanta falta assim dele?
Acho que sim. Ele era meu avô. Ele que me ensinou a ser assim, me fez crescer, sempre exalando suas sábias palavras, encontrando uma explicação lógica para tudo nessa vida.

Certamente, herdei dele a paixão por histórias fantásticas ou não, e a paixão por livros, o hábito da leitura. Acho que por isso, após o enterro, no auge do luto, eu vim me refugiar no melhor lugar da casa – em minha opinião – a sua grande biblioteca.

Eu nunca sabia exatamente onde estava cada título, pois o Seu Arnaldo tinha uma bela mania de reorganizar livro por livro de acordo com o seu humor. Na última vez que nos falamos ele disse que iria organizar por aquilo que estava sentindo quando leu aquele determinado livro. Eu, realmente, não sei se seria capaz de uma organização tão pessoal, tão sentimental. Mas esse era o meu avô. Fazendo tudo do seu jeito. Que é o jeito diferente de todos.

De uma passada rápida pude ver coisas distintas lado a lado, como “Crime e Castigo” de Dostoievski e “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Caroll. “Cem Anos de Solidão” de Garcia Marquez se apoiando em “Os Miseraveis” de Victor Hugo. Alguns eu lembro que li por obrigação escolar ou vestibular como “Senhora” de José de Alencar ou “Perto do Jardim Selvagem” de Clarice Lispector. Os meus favoritos também estavam lá, apesar de ter ouvido várias vezes ele dizer que eram apenas ‘razoáveis’: “O Lobo Atrás do Espelho” de Fausto Wolff e “O Apanhador no Campo de Centeio” de J.D.Salinger. Deixo escapar algumas risadas ao ver no mesmo canto os sete volumes de Harry Potter e a trilogia Senhor dos Aneis em seu volume único. Presentes dado por mim de uma só vez, acredito que ele nunca chegou a ler as histórias do pequeno mágico.

Eu já tentei organizar minha biblioteca de diversas maneiras, mas a que ficava sempre melhor era pelo tamanho dos livros. Ficava mais organizada. Tá, eu sei, que não é nada romântico ou criativo. Prefiro organizar por sentimentos coisas que tem o mesmo tamanho, como CD’s ou Dvd’s. Sei que não é vintage nem old school, mas são as coisas que prefiro organizar.

Meus filmes são divididos por época, não de quando foram feitos, mas de quando os assisti pela primeira vez. É o único motivo de A Lista de Schindler estar entre Cavaleiro das Trevas e Homem de Ferro. Todos eu lembro quando assisti, com quem e um pouco do que senti ao ver. São todos, os que eu escolhi e comprei, parte da minha personalidade. Dos meus dias. Minha história.

Os cd’s eu nem gosto de falar. Não, não consigo organizá-los por artista. GLM (Engenheiros) tem que estar abraçado com o Frogstomp (Silverchair) olhando de soslaio pro Angel’s Cry (Angra) e por assim, eles fazem sua roda gigante de sentimentos. Sorrisos, memórias boas e outras nem tanto. Nostalgia total no meu mundinho fechado.

Aprendi isso com meu avô. A jogar sentimentos nas minhas coisas. No desarrumado do meu quarto. Meu mundinho agora distante. Mas eu volto!

[UPDATE: Tenho tantos traumas com Perto do Coração Selvagem que até erro o nome da Clarice. Lispector. Pronto, corrigido]

Cadê o sentimento?

31 de agosto de 2010

Eu adorava passar minhas férias na fazenda. Ainda mais quando na cidade mais próxima tinha uns “festejos”. Nessa época, vinha gente de tudo quanto era lugar. Todo mundo tinha um parente naquela maldita cidade. E portanto, tinham muitas meninas interessantes. E o carinha da capital sempre se dava bem.

Quando eu ainda era moleque, tinha uns 17 anos conheci uma menina. Loirinha. Muito gatinha. Daquelas que são lindas, mas não sabem. O alvo ideal. Ficamos no último dia dessas férias. Não nos despedimos direito porque o meu “parceiro” de caça bebeu demais e tava passando mal. Hora de partir.

Nos 6 anos seguintes nada dela aparecer pela cidade. Nos dois primeiros anos perguntei pra Mariazinha, filha da Santinha, que era amiga dela. Mariazinha respondeu que ela tinha ido morar em Imperatriz e tinha férias em outros meses que não coincidiam com o festejo de junho/julho. Fiquei triste, mas havia outros peixes no mar.

Quando eu estava na seca, sabia que chegaria a época das férias. Sexo fácil e bem apaixonado. Por parte delas, lógico. Era muito bom enganar as pobres menininhas do interior. Tiro Certo. Eu sempre levava uns amigos pra completar a equipe de tiro. Só sniper. Head Shot.

Acontece que em um ano desses, quase sem querer, a encontrei. Primeiro dia. No pique. Quase sóbrio. Ocorre que eu já tinha ficado com outra doida lá. Que por acaso tinha ido em casa trocar de roupa. Era hora de usar de toda habilidade ninja naquele dia e sumir. Consegui ir com a loirinha pra beira do rio, que era mais deserto a noite. Conversamos a noite toda, ficamos, namorandinhos. Ela contou que estava morando em São Luís, fazendo medicina. Não consegui passar dos beijos ardentes.

Segundo dia. Ela não pôde sair de casa a noite porque era aniversário da vó ou algo do tipo. Então só ficamos nas caricias diurnas, nada mais.

Terceiro e último dia. Eu já tava louco. Ainda não tinha comido ninguém. Era agora. Beijos ardentes, carícias maliciosas dentro do meu carro. Mão naquilo. Aquilo na mão. Que legal, nós dois pelados aqui. Não é que ela chupa que é uma beleza?

– Tira a calça, benzinho.
– A não, amor, só faço amor se tive sentimento. Só se namorar comigo!
– Eu namoro, prometo.
– Não acredito em ti. – ela se recompos e já foi saindo do carro.
– Mas…
– Me procura em São Luís, ou então até o ano que vem

É, amigos. Ela continuava linda e agora era perigosa porque descobriu que era linda. E eu fiquei na mão, literalmente. Muita confiança dá nisso. E o pior são os amigos contando suas façanhas sexuais. E rindo da minha cara. Bonito. Bem feito. Cadê o sentimento? Sinto muito.

Era uma vez um menino que ia pra escola, mas nunca tinha lanche no recreio. Sempre ficava com “fome”. Olhava os outros meninos com suas lancheiras de super-heróis enquanto ele não tinha nada.

Lancheiras nessa epoca nada tinham a ver com dinheiro. Um menino teria que lutar muito pra conseguir ter uma. Elas andavam nas ruas por aí, rebolando seus diversos formatos e tamanhos. Com mil e dois atrativos para os meninos “famintos”.

Um dia, ele encontrou a lancheira perfeita. Era do jeito que ele sempre sonhara. Passeava pela casa com ela. Não desgrudava dela nem por um segundo. Pena que estava de férias. Não poderia ir pro colégio, nem mostrar pros seus amigos a sua lancheira especial.

Logo passou o tempo e as aulas voltaram. Ele levou a sua lancheira, todo orgulhoso. Sabia que todos os outros sentiriam inveja dele e ele seria o rei do recreio.

Ocorre que a lancheira era sentimental. Tinha suas próprias escolhas. Afinal, ninguém tem uma lancheira especial impunemente. No primeiro descuido do menino, a lancheira fugiu e encontrou abrigo pra sua alça no pescoço de um garoto mais bonito.

E então, o menino foi motivo de chacota de todos seus amigos. E foi pra casa chorando. Sem lancheira, sem orgulho, sem dignidade. Que pena.

A vida escolar não é justa, nunca será.

Mais Uma Valsa

12 de julho de 2010

Busquei na memória uma música que lembrasse de você. Que representasse nós dois. Mas já faz tanto tempo. Não lembro do seu cheiro. Nem do gosto do seu beijo. Só lembro do último abraço. Nervoso, claudicante, eterno. Abraço de quem sabe que não terá outro tão cedo. Seguido por um beijo em lágrimas. Vou embora. Venha atrás de mim, se puder. Se quiser.

(Somos apenas adolescentes com paixões bobas.)

Esperei. Procurei notícias suas. Vasculhei redes sociais. Fotos em jornais. Sempre que ouvia Vitória na TV eu corria pra ver. Enlouqueci. Tenho um quadro de nós dois em minha mente. 1998. Valsa. “Minha par”. Você. Olhos verdes. Cabelos loiros. Poemas. E mais poemas.

E tudo seria melhor
Se não fosse como foi
Se o óbvio fosse irreal
Se a morte superasse o natural
Se o amor que senti superasse a dor
Se a ilusão que vivi fosse apenas do amor
Se a estrada da vida tivesse saída
Se o coração não escolhesse o mais difícil
Se a emoção que eu sinto fosse só isso
Tudo seria melhor
Se a noite não existisse
Se o dia fosse igual
A tudo que não existe
E se tudo não fosse assim tão mal
Tudo seria melhor

E então. 12 anos depois. Vou te encontrar. Ahá. 2 dias apenas. E daí? Tudo vai ser melhor. E quem sabe vamos dançar juntos. Outra valsa qualquer. Até lembrei do seu cheiro. Do seu jeito de falar. Do seu beijo. Se é que houve beijo. (Minha memória me trai).

o segundo primeiro beijo

12 de julho de 2010

Foi aí que comecei a reparar na Elys. E depois daquele episódio do pátio parece que começamos a ter mais contato. Como ambos chegávamos bem cedo no colégio, passávamos esse tempo conversando e também na hora da saída. Muitas vezes no recreio também, mas agora ela tinha a concorrência do futebol.

Um dia eu tive uma crise de asma e tive que ficar um tempo na coordenação descansando e esperando alguém ir me buscar. Como a crise já tinha passado me deixaram lá sozinho, então fiquei deitado num sofá que tinha lá.

De repente a porta abre e eu pensei que fosse uma das coordenadoras, nem me dei ao luxo de abrir os olhos, coisa que só fiz quando ouvi aquela voz familiar.

– Oi! Como você está? Fiquei preocupada quando soube que você estava passando mal!

– Elys! Já estou bem melhor! Estou esperando minha avó vir me buscar. Fui liberado do restante das aulas.

Ela sentou do meu lado, me abraçou e me deu um beijo no rosto. Eu já nervoso e “experiente” tentei não repetir a história. E a beijei na boca. No primeiro impulso, ela me empurrou e perguntou o que eu estava pensando.

– Me desculpe – falei todo constrangido.

– Não peça desculpas, apenas me beije de novo – respondeu quase me dando uma ordem.

Durante aquele segundo beijo eu constatei uma coisa que me acompanhou durante todos esses anos. Não dá pra entender as mulheres, por mais que você se esforce elas sempre vão te surpreender um dia.

** Esse texto faz sentido se conhecer o primeiro beijo e o dia seguinte **

O libertador

12 de julho de 2010

Dizem que um homem faz muitas loucuras por uma mulher. E minha primeira loucura que posso lembrar foi quando eu tinha 9 anos e estava no recreio da escola. Elys Souto era a menina mais linda da 3ª série, tinha longos cabelos loiros encaracolados, uma voz doce e os olhos verdes mais encantadores que já conheci. Quando ela chegava perto de mim, eu não conseguia nem encará-la. Ela era da outra sala, portanto não tínhamos muito contato, quase não conversávamos.

Lá estava eu tranqüilo comendo o meu sanduíche de queijo com suco de maracujá, quando ela, Elys Souto, sentou ao meu lado e apontando para o meio do pátio perguntou:

– Porque você não joga futebol com os outros meninos?

– Porque eles são maiores e posso me machucar – respondi interpretando as palavras da minha mãe.

– Aposto que você pode jogar melhor que eles – retrucou com um ar confiante que me fez criar coragem.

Não sei onde eu estava com a cabeça quando me levantei e fui perguntar para o garoto que aparentemente liderava o jogo se tinha vaga pra eu jogar.

– Você sabe jogar no gol? – perguntou ele.

– Claro – respondi apesar de nunca ter jogado naquela posição em toda minha vida.

– Eu acho que não – duvidou o Pablo.

– Quer ver? Chuta um pênalti pra me testar. Se eu defender, deixa eu jogar. – não sei onde tirei toda aquela coragem para desafiar aquele menino de 12 anos que parecia um gigante perto de mim.

– Tudo bem, abusado, vou chutar cinco pênaltis. Quem ficar com a vantagem ao final, ganha.

Concordei e dei aquele sorriso maroto para Elys que acompanhava bem atenta aquela conversa e o que viria a acontecer depois.

Fui caminhando lento em direção ao gol. Pablo já estava posicionado. Eu só pensava em Elys, nem conseguia me concentrar na bola ou no Pablo. Um primeiro chute no ângulo sem defesas me fez voltar à realidade.

– 1×0, baixinho.

O rosto do Pablo agora estava em minha mente, lembrei que a tensão da primeira cobrança agora fora substituída por um sorrisinho sarcástico. Prometi a mim mesmo defender aquela cobrança a todo custo. Um segundo chute com toda potência no meio do gol direto na minha testa. Caí para trás e apaguei por um segundo com o pessoal perguntando se eu estava bem.

– 1×1 – gritei ainda me levantando.

Pude ver o semblante de preocupação na Elys e aquilo me fez dar um sorriso meio sem querer. Era o máximo pra mim, estar no pensamento dela, e ainda era mais importante ter a atenção dela. Um terceiro chute no canto esquerdo indefensável.

– 2×1.

Tudo bem que eu nem me mexi, mas aquele terceiro chute me fez aprender uma coisa. Que o goleiro deve observar o cobrador como um todo porque o mesmo dá algumas dicas de onde vai cobrar aquele pênalti. Comecei a sorrir.

– Porque tu estás rindo, idiota? Não vê que se eu fizer esse você perdeu e nunca mais vai jogar bola aqui no pátio?

– Eu sei disso. Eu to rindo é porque já ganhei essa disputa. Vou pegar esses dois próximos chutes teus e amanhã tu vai implorar pra eu jogar no teu time. – até hoje não acredito que eu tenha dito isso, fato que me foi confirmado por algumas testemunhas daquele dia.

Um quarto chute no canto esquerdo novamente e uma defesa digna de um goleiro profissional. Muitas vezes eu respondi que esse foi o meu melhor pênalti defendido.

– Não falei. 2×2.

Agora pude ver a raiva no rosto do Pablo. Tinha certeza aonde vinha aquele decisivo pênalti. Um quinto chute a meia altura no canto direito e lá fui eu voando pra conseguir segurar a bola.

Nem lembro mais do Pablo ou da Elys nesse dia. Sei que fui abraçado e carregado pelos meus amigos de sala. Parecia que eu seria um salvador, porque com aquelas defesas eu tinha libertado o pátio e dado a democracia de que a 3ª série podia também disputar os jogos. E a partir daí até disputar o inter-classes do colégio.

Naquele dia me apaixonei pela posição de goleiro e mais que isso, aquelas defesas me renderam no outro dia o meu segundo primeiro beijo. Talvez por causa desse beijo que eu tenha me tornado um goleiro. Hoje, agradeço a tudo de bom e ruim que aconteceu na minha vida a Elys.

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