Eu te amo, celular

26 de novembro de 2012

Não se importava com a porta aberta nem com o silêncio que se alongava no corredor vazio do seu apartamento. Apenas imaginava as curvas que daria com seu carro para chegar onde estava o seu grande amor, se é que ela ainda estava lá o esperando como uma estátua plantada na porta do ginásio da cidade.

Não tinha planos para o fim do ano. Na verdade, não tinha plano nenhum para nada. Era apenas um “deixe a vida levar” e só. Com seu cigarro totalmente amassado repousando no canto da boca e um bloco de anotações quadriculado onde com o cotoco do lápis ele escrevia pensamentos idiotas.

Era sexta-feira, não uma sexta-feira qualquer. Era o seu aniversário. Não tinha recebido nenhuma ligação, nem um telegrama, muito menos um sinal de fumaça. Fumaça, aliás, era a única coisa que se movia em seu apartamento. Até usa respiração era mais lenta. Queria apenas sentir o abraço dela outra vez.

Não sentia falta dos abraços de mais ninguém. Não queria presentes nem tapinha nas costas. Queria apenas ver o nome dela na tela do seu celular. Só. Ainda guardava as cartas que por anos e anos ela mandou quando esteve viajando mundo a fora. Até o fora que ela lhe deu foi escrito com papel cheirando a morango.

Odiava morango. E flores. As últimas que ele comprara foram jogadas do décimo quarto andar e sabe se lá em quem elas bateram lá embaixo. Não deu em nenhum jornal do bairro que alguém tinha sido assassinado por um buquê de flores suicida.

Não que eles brigassem muito. Não que gostassem de ver um ao outro com a expressão de raiva no rosto, mas ambos eram competitivos. Não queria perder. Não queriam amar menos que o outro. Não queriam botar o lixo fora nem lavar os pratos.

Ela observava o calendário com filhotes de cachorro em cima da mesa do seu escritório. Às vezes se perguntava porque aquela mesa tão grande se pouco trabalhava sobre ela. Queria mesmo era um salão imenso e muitos clientes. Mas aquela não era uma sexta-feira qualquer.

Queria falar com ele de qualquer jeito. Era o dia especial. Queria contar tudo que sofreu estando a tantas curvas de distância. Queria pegar o carro e aparecer de repente no apartamento que os dois passaram tanto tempo pagando para quitar. Queria dizer que o ama.

Poderia mandar um cartão postal. Um telegrama. Quem sabe algum sinal de fumaça. Mas tinha parado de fumar. Queria gritar a plenos pulmões da janela do vigésimo terceiro andar e a cidade inteira parasse para ouví-la. Queria ser a mocinha da história novamente.

O celular repousava como um peso de papel. Queria um abraço. Queria que ela tivesse coragem para ligar e pedir tudo de volta. Aquela mesma vida que largou para buscar a felicidade em notas verdes e jantares de gala.

Agora ela queria um abraço quente e cafuné antes de dormir. Alguém que pudesse massagear seus pés e tentar massagear suas costas e ele mesmo com suas mãos trêmulas e ideias pecaminosas era o que ela queria.

Resolveu ligar. Era a reconciliação. Passava todo o filme em sua cabeça. Ele com seu cabelo eternamente desarrumado tentando esconder as lágrimas e fingindo estar zangado e ela com as lágrimas caindo escandalosamente pedindo perdão. Uma humilhação que só o amor pode proporcionar.

“Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa de mensagens…”

E mais uma vez um descuido e um celular desligado fizeram todo um amor ou uma reconciliação irem por água abaixo. Malditas operadoras!

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