Agora é Tarde.

8 de setembro de 2010

Feriado chuvoso no Guarujá. Eu curtia uma Heineken gelada. Observando da sacada do prédio a praia deserta. A revolta barulhenta do mar com os deuses da chuva. Pensava em alguma música do Roberto Carlos. Ela veio silenciosamente e apoiou as mãos em meus ombros.

– É tão bonito. Mesmo sem o sol.
– Muito.
– Calma, primo, você ainda terá uma segunda chance.
– Duvido muito.
– Confie em mim. E na vida. O destino sorri pra vocês dois.
– Se arrependimento matasse.

Então o silêncio voltou, ela se levanta e acende o seu MArlboro light. Perde seu olhar no meio das pedras. Vira pra mim e diz:

“Os frutos do arrependimento são os frutos mais amargos que alguém pode colher”

Engasguei com a cerveja. Ou talvez tenha sido a fumaça. Até hoje espero a tal segunda chance, que aposto nunca virá. A timidez, insegurança e os quilos a mais são amigos/inimigos que insistem em acompanhar minha jornada. E eles trazem junto um visitante mais incoveniente que é o arrependimento.

Daquilo que não se fez, daquilo que se fez errado. Planos infaliveis que deram errado, mesmo dando tudo certo. Tudo que envolve os outros tem chances de erro. Falhar é humano. Deixar de falar também. E então, toda vez que isso acontece eu ouço aquela música do Ultraje a Rigor. “Agora é Tarde” e prometo. Mas promessas nem sempre são cumpridas.

Gelo Derretido

12 de abril de 2010

A pequena luz vermelha que piscava na escuridão incomodava bastante, mas ele não tinha coragem de se levantar e desligar a TV. Não conseguia dormir e também não estava totalmente desperto. Um torpor alerta constante. Assim era sua vida. Não tinha paixão por nada, não sorria pra quase ninguém. Apesar de tudo não era triste e todos gostavam de estar com ele. Ele trazia paz mesmo sendo cinza. Lembrava muito um basset hound. Todos achavam que poderiam ligá-lo. Por pena ou compaixão. Tentavam irritá-lo ou tentavam fazê-lo sorrir. E nunca ninguém obteve êxito. E ele parecia fazer tudo por obrigação, parecia um robô programado, sem emoções. Sem erros. Sem luta. Se você percorresse o caminho mais fácil, facilmente o encontraria pelo caminho. Passos lentos e despretensiosos. O Homem que não sentia nada. Além da luz agora um alarme baixo e irritante começava a vir de algum relógio jogado pelo quarto. Mas ele ainda não se importava o bastante pra levantar-se. No seu íntimo, gostava desse modo de ser “não me importo”. Não se apegava a ninguém. Não acumulava magoas. Não chorava derrotas. Não comemorava vitórias. Não sentia nada. Ao silêncio recém quebrado do seu quarto agora acrescentava um latido intermitente de um cachorro na vizinhança. Não sabia se queria dormir ou acordar. Não ligava. Nunca tinha se irritado com ninguém. Não conseguia gritar. Se descontrolar. Era um legitimo homem de gelo. Todos se perguntavam como alguém não podia se divertir. Não se emocionava com filme algum. Não sorria ao ouvir uma bela canção. Nem peitos e bundas o faziam tirar do sério. E assim seguia…até ligar o FODA-SE. Pegou um revolver que tinha guardado, deu 7 tiros no cachorro chato. Achou um martelo e quebrou o relógio em mil pedaços. Com um taco de baseball destruiu a TV. Depois desse dia nunca mais foi o mesmo…amou, chorou, sofreu, sorriu, vibrou, brigou, apanhou, perdeu, venceu…e paz nunca mais voltou.

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