À Madrugada, Valentina

26 de abril de 2010

Lá estava ela, sentada olhando os pingos de chuva cairem pela janela.  Entrara na depressão pós-êxtase. Há tempos não sabia o que era depressão, muito menos êxtase. Mas agora sentia dor, uma pontada profunda no peito. Talvez saudade, mas não sabia o que era saudade. Falta de alguém que não poderia ser alguém pra ela.

Se pegou desenhando um coração com o ar quente de seu sopro no vidro. Será que iria chorar? Não acreditava em si mesma. Não conseguia dormir cedo há tempos…era a dona da madrugada. Andando pelo quarto. À meia-luz…

Sentado no sofá no canto do quarto um vulto, ela nem parece ligar. Já estava acostumada com ele. Seu pequeno anjo protetor. Fruto da imaginação? Ela já nem sabia mais…sempre esteve lá.

Volta à seus pensamentos, sofrimentos, momentos

Acende outro cigarro, bebe mais um gole do seu cowboy. Procura um bom livro ou a TV.

Vira para o anjo que propõe um brinde:

À Madrugada, Valentina.

…e daí em diante viu que não teria mais paz em sua vida…

* texto decidado à uma nova amiga tão talentosa que qualquer elogio será muito pouco*

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A Última Saída

25 de março de 2010

Caminhando a passos lentos na rua escura sem ao menos ter aonde ir, ele continua. Olhando apenas para os seus sapatos, mantém as mãos nos bolsos e masca o seu chiclete fazendo o máximo de barulho possível. Naquele silêncio ele percebe o quanto aquilo é realmente irritante. Disfarça um sorriso e continua do mesmo jeito.

Na sua cabeça, sangue e destruição. Dor. E mesmo assim não demonstra nenhuma emoção. Sabia que nada mais poderia ser feito e a coisa certa tinha acontecido. Já não tinha mais medo de nada. Talvez de alturas, mas essas poderiam ser evitadas.

Reconheceu aquele som, levantou a cabeça pra olhar. Era o mar. A última saída. Dessa vez sorriu de verdade, teve uma idéia. Agora sim, poderia apagar tudo, mesmo o que não queria que fosse apagado. Estava decidido. Talvez alguém nossa a partida, ou talvez passem três dias e nada.

Sentou no calçadão, perto das pedras. Recordações de como adorava sentar ali e ver a briga do reflexo da lua com o mar. O horizonte que sempre buscou… e então lembrou:

“A fúria cega que tivera, a faca rasgando a carne como churrasco. O sangue jorrando, os gritos se esvaindo aos poucos. Dor. Antes era um beijo, o gosto da boca, a língua áspera na sua. Ela era linda. Mas era. Não é mais. Lágrimas e chuva. Muita chuva.”

Era chegada a hora. Deixe o mar dissolver tudo. Apodrecer o peito, o corpo, tudo. Dor. Ou nem tanto. Tomar um banho, se jogar. Deixar o sol depois derreter tudo. Estava confuso, mas determinado. Era a última saída. Era. Tinha que ser. Por que nada restou? Cadê os sorrisos?

O chiclete não tinha mais gosto, mesmo assim não o jogava fora, assim era sua vida. Manter as coisas. Ficar com elas e não largá-las. Sabia o que deveria ser feito. Era a última saída.

Já estava quase afundando. Seria rápido. Quatro dias ou mais. Tudo estaria parado. Em paz. Dor. Engasgue-se logo, pensava. A última saída. Adeus. Deixe meu espírito passar.

*Conto inspirado na música Last Exit – Pearl Jam.

*Escrito por George Raposo

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