Meu amor não existe

5 de fevereiro de 2013

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Eu tentei te dizer. Eu tentei. Não adianta você dizer o contrário. Eu confesso que o mundo não parece ser tão frio enquanto eu não sei dizer adeus. Não sei amar. Mas eu te amo.

Talvez eu ouça Moptop demais, talvez eu ame a utopia do nosso abraço. Eu tentei voltar. Eu te contei. Contei até 10 antes de sair por essa porta. Eu confesso que o silencio é barulhento demais enquanto eu não sei dizer adeus. Não sei ficar. Mas eu te amo.

Eu tentei me convencer que era você. Não era ninguém. O vazio da nossa cama na madrugada de segunda-feira. Talvez o dia seja comprido demais para minhas lembranças e as memórias pesadas demais pra poder ficar.

Eu tentei te dizer. Escrever uma carta com rolos de papel higiênico ou soltar bombas de gás lacrimogênio apenas para chamar a sua atenção, mas você fingia me ignorar. Eu confesso que perdi a conta de quantas vezes eu quis dizer adeus, mas por enquanto eu não sei.

Eu te conheci do jeito mais amargo, com o cheiro do cigarro espalhando fumaça por aí. Mesmo assim eu te quis, eu sempre quero. Mudei minha vida para encaixar você, e não recebi nada em troca.

Quero dizer adeus, e posso dizer que eu tentei. Você nem tentou mudar, nem tentou me amar, nem tentou dizer o que pensa, sente e quer. Foi assim de repente e eu perdi tudo que tinha. Nada mais é meu, e aposto que nunca será.

Passei a amar por pura convenção, fingindo me entregar. Você estragou o meu amor que parecia ser tão promissor. Inteligente, carinhoso e vulgar. Eu tentei te dizer. Eu tentei. Mas não adianta. Você nunca me ouve. Parece ser apenas uma personagem de uma série que eu acompanho. Será que estou tão sozinho assim?

Afogamento

20 de março de 2011

Acordou. Aquela sensação de que não quer levantar, aquele friozinho, mas a preguiça de desligar o ventilador é mais forte. O lençol por um momento tem um toque tão gostoso quanto o dele, macio, macio! Pega o terceiro travesseiro e abraça como se sua vida dependesse daquilo, é! Rola pra um lado, pro outro… Pensa na bronca que vai levar e organiza os argumentos de defesa ainda não usados em outras conversas com os pais. Mas aí pensa nele e o dia deixa de ser ressaca e volta a ser ondinhas salgadas, com direito a conchinhas diversas! E toda semana a mesma repetição, até morrer afogada em amor.

Acontece que eu continuava perto, tentei dormir e consegui, mas em meus sonhos nossos diálogos só me traziam uma estranha paz e por alguns momentos éramos aquilo que nem sabemos querer.

Acordei, abri a porta e fui descalça para a varanda olhar o movimento da rua lá em baixo na madrugada daquela cidade tão cheia de nós e, outrora, de eus. Vários daqueles paralelepípedos eram um parágrafo da minha história, vários foram onde tropecei ou me apoiei para levantar.

Minha camisola branca queria te abraçar, queria brincar com o vento ou queria apenas dançar sob aquele céu bastante escuro. Em algum momento percebi ao longe um bêbado com passos trépidos, mas seria inútil trançar meus cabelos e carregá-lo ali pra dentro, não eras tu.

Então senti uma primeira gota de chuvisco no rosto, sentei de qualquer jeito e fiquei olhando longe por entre as colunas da meia parede. Sem pensar, ignorei as gotas cada vez mais fortes de chuva, não fui pra algum canto coberto e aos poucos eu pingava, lavei logo ali os pratos daquele carnaval.

Enfim voltei para a cama e pulei em teus braços que em algum lugar esperavam por mim, mesmo que tu não soubesses.

Polvilhados de açúcar

26 de fevereiro de 2011

Não adiantou colocar The Killers, o som que sobressaía era o barulho da batedeira. Manteiga e açúcar teriam que formar um creme claro… Parei com as cascas de ovos e medições de farinha, fiquei olhando o girar do eletrodoméstico, o granulado do açúcar, a leveza, a brancura, a delicadeza, e tudo aquilo era você. O mundo acabaria e eu com os braços alvos sobre o mármore negro, n’um constrate só não maior que nós dois juntos.

Aos poucos o amarelado do creme esvaiu-se, era uma espécie de prova que no final tudo ajeita-se. Esqueci o forno ligado pra não fugir da rotina de busca pelo perigo, ignorei a porta da geladeira aberta… Ignorei até mesmo os outros ingredientes e tudo podia parar ali no creme de manteiga e açúcar, seria suficiente. Pra quê bolo quente sem você para uma xícara de café? Era algo sem lógica em minha cabeça.

Poderia correr com um pedaço de bolo até aí. Sim, eu poderia. Na verdade, poderia correr até aí só pra polvilhar açúcar na gente, o mais belo buffet.

Quando seria estranho?

4 de janeiro de 2011

Ela – Eu acho que tô apaixonada, e agora? É grave? Passa? Tem cura? Preciso de quarentena?
Amigo – Não, apenas deixe-se levar.
Ela – E não dói? Preciso de gesso ou algo assim?
Amigo – Dói nada!
Ela – Então tá.

Então tudo bem, ela o desarma mesmo, ela o desarma e ela tem a boca pequena e ele prefere a cara séria. E ele é um bobo. E ela é tão boba. E a narradora aqui é mais boba ainda. Você, leitor, também é bobo. Somos todos bobos, mas não mais que a chuva lá fora. Opa, a chuva passou! “Posso ir vê-lo?”, ela pergunta. Não, menina boba, não pode! Então ela engole o choro e a narradora continua cantarolando uma canção qualquer de Jobim, torturando a pobrezinha que continua sentada em um canto, não sabendo que ele lá longe assobia a mesma canção, igual aquela noite em que somente o uísque fazia companhia a eles.

Estranho seria se ela não se apaixonasse por ele tantas vezes, todo dia.

Spoiler da vida real

14 de dezembro de 2010

esse sou eu...@gdinamite, prazer!

Encostado em um sofá qualquer dessa paulicéia que me venderam como desvairada, a capital por direito do país está sob meus pés. Aqui não tenho a areia branca das bandas de lá, não tenho medo, fome, juízo: vou vivendo com abraços Nissin Miojo que após 3 minutos de fervura são suficientes para matar minha fome de algo que nem sei o que é.

Às vezes o telefone agarra-me de sobressalto e fico na dúvida se atendo com essa voz trêmula ou  fico ouvindo a melodia do toque polifônico. Quando decido atender, a ligação cai. Então passo o resto do dia lamentando o que podia ter sido e não foi. Aprendi uma palavra nova e acho que ela encaixa-se aí: UCRONIA. Pensei que fosse pornografia, mas é apenas isso de algo que podia ter sido diferente… Maluquice essas coisas!

Ah, pronto, agora que comecei a pensar, desatino n’um sem fim de mistura de todos os personagens que vi e li nos últimos tempos. Nos antigos também. Quem sabe entrei em um labirinto sem novelo de lã e todo o problema está porque não sei quem é meu minotauro. Talvez eu mesmo, talvez você…

Mas não preciso mais da linearidade. Quem precisa de linearidade nos dias de hoje? Nem de bondade eu preciso, quanto mais… Com um papel e caneta eu sou capaz de te reconstruir de forma que nem Pitanguy conseguiria. Aposte suas fichas em mim e o que acontece em Vegas , fica em Vegas, baby.

Pena que meus cassinos interiores nem sempre têm mil lâmpadas de neon. Por isso encolho-me e fico esperando eu acordar com capa queratinizada, antenas e asas. Um dia algum autor perceberá que sou uma barata gigante na tua vida. Poxa, por que não pode ser logo? Se quer me amar, ame agora!

O texto que seria e não foi

12 de dezembro de 2010

Olá, leitores. Tudo bem com vocês? Espero que sim, todos sempre esperamos. Esperamos. Esperamos… De braços cruzados na maioria das vezes, de braços cruzados, pernas inquietas, olhar de soslaio pr’aquele canto que está a alguns passos da gente e guarda nossa felicidade dita clandestina. Às vezes a alguns quilômetros. Ou muitos quilômetros. Ou nem guarda felicidade. Ou é miragem. Ou caverna de Ali Baba. Mas nem tenho 40 ladrões.

Em compensação, tenho 40 sonhos. E eu te espero pra realizá-los junto de ti. Porém nem sei quem tu és, mas saberei um dia e terei certeza que esse era quem eu esperava. Talvez eu só saiba disso após ter estragado tudo com esse meu jeito que todos sabemos como é, mas de antemão peço que não te zangues, te mostrarei este texto e tu saberás que é pra me perdoar por algo que nem sei. Então vai me perdoar e realizaremos 40 sonhos que talvez sejam os mesmos 40 que tu tens e está pensando justamente agora, nesta madrugada de pensamentos n’um caleidoscópio.

Eu tinha um caleidoscópio quando era criança, sabia? Tinha um caleidoscópio e tinha sonhos diferentes destes. Acho que fui mimeografá-los e o carbono não repassou pra outra página exatamente o que havia. Não quero citações de tábulas rasas, mas às vezes é só isso mesmo, não é?! Um nada… Meu nada sempre tão cheio de tudo e que precisa que tu passes uma borracha e assopre a poeirinha pro lado de lá.

Do lado daqui estou eu, continuo esperando. Estou imprensada em um canto da sala, sem brisa que me afague, sem mão que me acarinhe. Eu tenho andado assim por um longo tempo, mesmo quando tenho outras mãos que são calejadas demais pra acarinhar meu rosto, que não me ensinaram como ser feliz.

Eu acho que já fui feliz de verdade. Lembro que meu aniversário de 10 anos foi do fundo do mar e vovô mandou pintar ondinhas por todo quintal. Um quintal com ondinhas e a mesa de docinhos em uma parte com rampa que eu não podia pegar porque estava de cadeira de rodas. Eu era triste e feliz. Mas eu fui feliz.

Por isso que penso que vocês, estranho futuro leitor e semi-conhecidos atuais leitores, devem pensar que às vezes o paradoxo está nos olhos de quem vê. Felicidade pode, sim, coexistir com tristeza. Quando a gente chora de felicidade e ri aquele riso sincero e nem sempre é melhor ser alegre do que ser triste, pra fazer um samba é preciso um bocado de tristeza.

E você, futuro estranho ou conhecido leitor, me ensina a sambar? Se não souber, pode me ensinar a fazer origami, sapatear, tocar flauta, interpretar eletrocardiogramas ou assobiar. Ou simplesmente me ensina a ser feliz de novo? Só não conta pra todos pois tenho que estar feliz desde agora. Ah, mas estou, porque sei que tu estás aí e eu estou aqui e um dia nós realizaremos 40 sonhos e teremos vários outros e realizaremos e sonharemos e tudo isso cada vez mais, n’um loop sem fim de quem sabe que pode colocar a culpa nas palavras, mas também pode usá-las para sonhar juntamente contigo o primeiro dos nossos sonhos: nós.

P.s.: o texto seria e não foi por várias vezes durante esta semana e já foi felicidade, tristeza, raiva, abraço, ressaca, medo, expectativa, ansiedade, indiferença, vontade e tudo mais o quanto um coração pode querer escrever.

P.s. 2: eu não sei qual o limite entre a Jéssica e a tal Antitética. Assim como não sei o limite entre realidade e ficção.

P.s. 3: neste exato momento estou sendo testemunha ocular de uma discussão internética na minha caixa de entrada de e-mails, mas não agüento mais esperar para te dizer que eu preciso, quero e posso ser feliz. Ser feliz e triste, daquele jeito poético pintado pelos impressionistas com aquelas pinceladas pontilhadas que me deixam igual as bailarinas de Degas.

P.s. 4: tô esperando alguém me calar. Consegue?

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