A Liga das Amantes da Dor

20 de janeiro de 2012

Minha avó contava que na cidadezinha dela há tempos atrás existia uma mulher linda, daquelas que qualquer homem para pra dar uma olhada quando ela passa. Poderia ter quem quisesse, bastava querer, pedir, assobiar uma bela canção, mas ela queria ficar com o bêbado da cidade.

Todo interior tem um bêbado, não é engraçado. E toda vez que ele bebia (diariamente)  batia nela quando voltava pra casa. O povo todo se revoltou quando viram a agressão em público e o delegado prendeu o marido e ele foi pro presidio da capital. A mulher linda nunca mais saiu de casa, nunca perdoou a cidade por ter levado seu amor. A típica mulher de malandro.

Quando conheci Sandra, imediatamente me lembrei dessa história. Foi na terceira vez que ela venceu a eleição de garota mais bonita da Universidade. Desfilava com um ar despreocupado de jeans e camiseta. Simples. Mas era perfeita. E não por acaso namorava o cara mais feio de lá. Eleito pela quarta vez.

Conversando comigo na hora do almoço ela confessou que adorava sofrer. Adorava ter o seu coração partido, apunhalado como um ovo de codorna na ceia de Natal. Não gostava de sofrimento físico, mas o psicológico estava no cardápio principal da sua felicidade.

Ela sempre me falava brincando que fundaria a Liga das Amantes da Dor. Que seria quase com um clube do Livro. Onde as mulheres contariam suas experiências, seus sofrimentos e dores. Todas as angustias que faziam com que elas sorrissem antes de dormir. No fim de cada sessão haveria um happy hour com direito a chocolate e sorvete com uma exibição de Bridget Jones para as que pudessem ficar até mais tarde.

A carteira da Liga seria roxa e conteria uma foto da sócia chorando. E uma frase que o seu “amor” teria dito e doído de verdade no peito da portadora. Seria negociado uma parceria com cinemas e a tal carteirinha daria direito a meia-entrada nos filmes de amor que a mocinha ou o mocinho morrem no final.

Pensara em eleger a música “Ai Que Saudades da Amélia” como hino oficial da Liga, mas desistira e então a marchinha virou apenas a introdução extra-oficial das reuniões. O hino ficou para o próximo encontro da Assembleia Geral.

Eu ouvia seu discurso sempre com atenção, mas no fundo pensava que ela precisava encontrar um verdadeiro amor e não essa poesia sadomasoquista em que vivia. Como amigo eu sempre tentava aconselhar, mostrar que o caminho não era esse. Mas é difícil salvar alguém que não quer segurar a boia.

Mas por fim, discutindo com a minha avó por conta de algumas outras histórias, eu falei que tinha conhecido uma garota igual a mulher linda do interior dela. E falei que talvez ela fosse a fundadora da Liga das Amantes da Dor. E que era um absurdo que essas mulheres não conhecessem o que era o amor. Então ela deu um gole no seu chá de boldo e apenas sussurrou: “O amor é diferente pra cada pessoa, e para elas amar é sentir dor. Isso que as faz feliz, meu filho. Não adianta mudar, ninguém escolhe seu amor”.

O poema

16 de janeiro de 2012

Era um poema comum, escrito com paixão e desdém. Uma certa presunção comum aos poetas que além de sofredores são feitos de orgulho. Ela carregava no bolso aquele poema, escrito em uma folha de caderno com caneta Bic preta. As letras tremidas de quem fingia que chorava enquanto o copo de uisque repousava na mão. Provavelmente era canhoto e não gostava de azeitonas.

Ela não ganhou aquele poema. Não o recebeu junto com flores e uma caixa de bombons. Ela apenas encontrou o papel repousando na mesa da praça de alimentação do cruzeiro em que fazia. Enquanto degustava o seu Big Mac sem salada com um copo gigante de Coca-cola, criou uma história de amor com aquele poema.

Um homem cansado da vida, desiludido e apaixonado por uma mulher bem mais rica ou mais bonita ou mais inteligente, não sei. Um homem simples apesar de se auto-intitular poeta. Daqueles tipos que ainda usam uma camisa de algodão branca por baixo de uma social. Talvez use chapeu ou um bigode fino. Talvez tenha vivido no Império ou então componha sambas para a Mocidade. Seria gaúcho? Não. Sem expressões típicas ficaria dificil descobrir.

No ônibus, ela notara que passou os ultimos cinco dias criando aquele homem. Estava apaixonada por uma pessoa que nem conhecia. Largou o seu namorado, deixou de retornar as ligações da sua mãe que mora no Nordeste, desistiu de um mundo real para viver uma imagem que daria orgulho a Platão. E imaginava em cada homem daquele navio poderia ser o “seu” poeta. Com paranoia e coisas afins.

Mas no fim não encontrou ninguém escrevendo em um caderno, ou pelo menos um homem com vestes antigas ou coisas do tipo. Talvez o poema tivesse sido escrito há muito tempo. Talvez a destinatária que tenha se descuidado e perdido seu presente. Pensou em deixa-lo novamente no mesmo lugar. Mas o poema já pertencia a ela.

Transcreveu o poema com sua própria letra. Queria ser dona do poema. Feminilizou-o também. Queria um amor complicado, com lágrimas, partidas e sofrimento. Cansara de ser feliz com sua vidinha comum.  Passou mais tempo observando o mar revolto que qualquer coisa. Decidira viajar para esquecer os problemas que pensava ter, mas que não existiam. Queria flores com espinho.

Até que as luzes se apagaram e o barco começou a naufragar. Era o fim. Mais 0u menos como o poema dizia: “Se não for pra viver com você quero que minhas lágrimas lavem meu corpo até o fim dos meus poucos dias”.

Talvez não haja amor à beira-mar

10 de janeiro de 2012

Não alugue seus sentimentos. Não tente vender tudo o que sabe para qualquer revista sensacionalista, meu amor. Nós ainda podemos continuar atravessando a mesma ponte, no mesmo horário, eternamente.

Não diga que está perdida. Que perdeu a fé. Que não aguenta mais ouvir as músicas ruins do apartamento vizinho. Espere a aurora e quem sabe os bons ventos trarão novidades. Sempre prometo trazer boas notícias nas minhas malas. E se por acaso, as malas extraviarem você sempre terá o meu coração.

Era só isso. Um incêndio sem chamas clamando por dias melhores. Uma pista de pouso desativada no meio do sertão. E lá vem você me dizer todos os “nãos” que eu poderia ouvir seguidamente nessa encarnação.

Então, prometa nesse ano novo o que não prometeu em todos os passados. Esqueça os presentes. As vestes que a gente costumava usar. Venha para o meu recanto, com os olhos cheios de tesão e vamos nos amar. Uma vez. Uma semana. O mês inteiro, por toda a vida.

Se fosse tão fácil eu não estaria aqui nesse navio acenando para a praia vazia fingindo que você estava lá. Você nunca esteve em lugar nenhum. Talvez mais ao sul. Talvez mais feliz. E eu sigo aportando meu coração em portos desertos, sem ninguém por perto pra me indicar a direção correta.

Talvez não haja mesmo amor à beira-mar.

 

 

 

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