Enquanto tira a toalha de cima da cama, ela esbraveja toda sua raiva contra ele que apenas erge os olhos por sobre o ombro enquanto assiste a um seriado na TV. De relance ele sorri pensando na quantidade de louça na pia. Indiota. Ela sempre enfiava um n. Sempre que podia ou até quando não.

Estou gorda? Ela desfilava sua bunda perfeita num shortinho apertado, mas sempre indagava aquilo. Não, amor, nunca. Ele simplesmente respondia como um robô programado. Mal sabe ele que essa resposta tem que ser dada num conluio de olhares talvez seguido de um beijo na nuca que deixe arrepiados todos os poros da parte anterior da coxa.

Aquele relacionamento estava por um fio.

Então, ela me liga. Começa com um argumento falho. “Você que entende de relacionamentos me dá uma ajuda”. Como se eu realmente entendesse algo. Só escrevo besteiras que gosto.

Recitei alguns poemas de separação. Ela me contou tim-tim por tim-tim. Detalhes até meio desnecessários. Como os barulhos nojentos que ele fazia quando gozava. Eram tantas reclamações que dei um xeque. Ele tem algo de bom? Por que você ainda está com ele? O silêncio no outro lado do telefone foi constrangedor. Xeque-mate.

Com um “preciso desligar” arrastado. Quase soletrado. A conversa acabou. Horas depois, enquanto eu preparava meu almoço, ela tocou a campainha e aos prantos gritou em meu ouvido: ACABOU! E contou novamente toda sua história acrescentando os últimos capítulos inéditos pra mim. Esqueci o arroz no fogo. Cheiro de fumaça exalou pela sala. MAs ela era mais importante.

Posso passar o dia aqui. Até a vida inteira. Você é demais, sabia? Obrigado. Fiquei sem almoço e sem minha garrafa de vinho que comprara pra espantar o tédio do Domingo. Agora ela está ali deitada em minha cama. Seu sono desesperado de quem tirou um peso das costas. Ela sorri nos meus lençóis, abraçando meus travesseiros. Como um anjo. Mal sabe ela que o sofrimento só começou. A saudade dói. Mesmo aquela saudade dos defeitos. Dos problemas. Das brigas. Da injustiça.

Amanhã tudo vai estar rodando em seu mundo. E não será culpa do vinho.

noites de terça

11 de setembro de 2010

Enquanto pronunciava palavras filosóficas na sala de estar ela parecia uma princesa. Todos olhos focavam seus brilhos nela. Mas meus foscos farois apontavam para o outro lado. Divagando sobre a crise financeira da Malásia, a reprodução dos pandas, o jeito certo de beber vinho, de construir um prédio, onde eu estava no 11 de setembro, onde estarei em 2012. Coisas triviais. Eu só conseguia pensar nos olhos e sorrisos da outra que permanecia em silêncio. Beijando o seu cigarro.

Inebriado, já não me importava se ela ouvia Dave Matthews Band todos os dias antes de dormir. Na minha cabeça só importava o porquê dela está longe. Do outro lado da sala. E eu tenho que ter hora marcada pra sentar ao lado dela.

A tal da fila. Temos que esperar. Mas dizem que a fila anda ou alguma coisa parecida.

Vôo JJ3382

16 de julho de 2010

– Não acredito como você pode ouvir Jeff Buckley e não ficar triste. – ela retrucou, pegando o Ipod da minha mão. – Muda isso. – aumentando o volume na tentativa de passar a música.

Continuei calado, rindo dessa espontaneidade. Mal a conhecia. Trocamos algumas palavras naquele mesmo vôo. Ela ia pra São Paulo também. Tinha recebido uma proposta de emprego num grande escritório de Publicidade. Eu ia apenas estudar. Não entendi esse interesse dela por mim. Acho que só queria fazer o tempo passar.

– Tu vai mesmo me ligar na quinta-feira pra gente tomar um café, ou uma cerveja, ou qualquer outra coisa. – sempre gostei de mulheres que falam demais, poupa-nos saliva e também me faz manter minha aura de misterioso e inteligente.

– Aham. Pronto, não tô mais ouvindo Jeff Buckley. NoFX agora. Conhece?

– Claro. Punk Rock. Você não tem cara de quem gosta de punk. Com esse cabelinho engraçado, essa cara de bom menino. Esse sorriso bobo. Diria que você era um cara mais The Killers ou Franz Ferdinand. – parou a comparação quando percebeu meu olhar de reprovação. – Que bom que estava errada.

ATENÇÃO, TRIPULAÇÃO, PREPARAR PARA POUSO.

– Poxa, já vamos nos despedir. Me liga mesmo. Ou então eu vou ligar. Qual melhor pra você?

– Tanto faz. – já tava achando ela um pé no saco. Tudo tem limites.

POUSO AUTORIZADO

– Tchau. Até qualquer dia.
– Tchau. Prazer em conhecê-la.
– O prazer foi todo meu.

QUINTA-FEIRA

– Alô? – nem sei porque eu liguei. Ela era interessante, e talvez a solidão da cidade grande ainda me assombrasse.
– Sabia que você ia ligar, já estava esperando. – aquela felicidade na voz dela parecia realmente verdadeira, conseguiu arrancar um sorrisinho tímido meu.
– Eu prometi. E aí? Pensou em algo legal pra gente fazer?
– Tava pensando em você vir pro meu apartamento. A gente poderia ouvir uns DvD do Pearl Jam. Tomando um vinho. Pedir uma pizza ou uma comida chinesa. O que você acha?
– Pearl Jam? – fiz a pergunta achando bom de mais pra ser verdade. Não podia ser.
– Isso? Não gosta? É minha banda preferida. – senti uma ponta de temor na voz.
– A minha também…
– Então pode vir as 19hrs, ok?
– Ok!

Ah. Por que não? Oportunidades não batem à sua porta assim tão fácil. Eu só queria viajar tranquilo madrugada a fora. Ela sentou do meu lado e falou, falou, falou. Não custa nada dar uma chance a ela, não? Além do mais, conhece Folk, Punk e adora Pearl Jam. O que mais posso pedir, por enquanto.

PS –> 3 meses depois mudei pra casa dela. Foi um tempo bom. 5 meses depois de morar com ela não aguentei mais e voltei pro meu apartamento. Não nos falamos há 13 meses. Mas semana que vem tem show do Pearl Jam e ela me ligou pra ir com ela. E agora? Como faz?

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