Em cartaz

5 de junho de 2011

A vida prega cada peça na gente que às vezes tenho vontade de cutucar o narrador dessa história.

– Ô, mano, dá uma folga aí, vai! Ah, caramba, facilita as coisas! Até parece que tem prazer em colocar dificuldade nas minhas melhores opções, pô!

Então, com uma voz garbosa de radialista da década de 1950, anúncia o próximo figurante ou ator coadjuvante. Nenhum prêmio sequer de Figurino ou Trilha Sonora que justificasse a insistência da Protagonista em chorar de verdade em cima do tablado.

Mas cansada desse sentir sem sentido, dá um tapa no colega de cena, atravessa a platéia, segura a mão do carinha de óculos engraçados e juntos vão embora recitando Drummond ou cantarolando Cartola, ninguém sabe com exatidão. Aplausos em pé e a partir daí o espetáculo passou a ter seus finais improvisados e diariamente lotava com expectadores ansiosos pelo nonsense ora trágico, ora mágico, mas sempre diferente.

Em um desses dias que, francamente, o absurdo fugiu ao descontrole! Dessa vez ela atendia uma ligação desconhecida e corria atrás desse anônimo para viver uns poucos dias autotelicamente, fugia com o seu penúltimo mais sincero amor deixando para trás compêndios e teses inacabadas sobre a cura da Paixão.

Anúncios

Refrões, amores e strikes

10 de abril de 2011

Eu estava em casa ouvindo as músicas que me faziam lembrar de várias outras horas e uma cantora afirmava que eu falava quase tudo da boca pra fora, outra banda dizia que eu era uma garota 70%, mas continuava tudo como estava, eu dedilhando as mesmas músicas no sofá sem me importar.

Ah, meu sorriso não era cínico, era só o riso passageiro de quem ora era toda sim, ora era recheada de não. Não precisava cantar tudo isso pra mim, eu nunca escondi a delicadeza e a frieza de um sorvete de morango em 168 centímetros puros de insatisfação, oras!

E 30% em juros é mais do que suficiente para levar qualquer um a falência, sabia?! As mesmas voltas em torno de números, daqui a pouco uma equação que encontrasse um X milagroso que fosse meu strike e te derrubasse, desculpa pela verdade.

Veja bem que não é por maldade, justo o contrário: por amar demais eu sou assim, só preciso parar de jogar bolas nas canaletas.

Grid de largada

3 de abril de 2011

Eu comecei a escrever isto que pretende ser um texto com uma frase aleatória que envolvia hienas, o Lanterna Verde e teu abraço. Apaguei, mas digo que tenho pena de quem não encontrar uma relação entre essas palavras, será que nunca se apaixonaram?!

Na verdade, esse pensamento começou porque estou com cãimbra na perna e a parada brusca de movimento me fez pensar que foi assim também conosco: de repente parei com a insistência em relacionamentos que eu queria maquiar os problemas, amenizar… Mais velhos, mais descompromissados, mais neuróticos, mais incompreensíveis, mais infantis, mais, sempre mais! Então veio você com um copo na mão e um sorriso que não me convenceu. Fugi.

Uma sessão de músicas last year e não sei a que devemos nossa sorte, se à desinibição alcóolica da tua verdade insistente ou da minha jurisprudência, só sei que começamos torto e mais desengonçadamente impossível.

Então eu estava em teus braços e meus pés literalmente estavam fora do chão. As promessas que são esquecidas após a tríade banho-café-sono dessa vez estavam mais certas que muita procuração registrada em cartório por aí…

Falo ou não falo?! Digo ou não digo?! Fizemos melhor, chega de impossible Germanys, dessa vez é face to face e, desde o primeiro momento, não mais alone.

Sem diálogos ensaiados, sem medo de quem quer que seja, tudo é sentido de um jeito novo, nosso rodopio no meio da praça ou nosso beijo escondido por um caderno e este texto pára aqui, sem freio, sem fim propositalmente já que botafoguense é uma espécie supersticiosa que só vendo!

Afogamento

20 de março de 2011

Acordou. Aquela sensação de que não quer levantar, aquele friozinho, mas a preguiça de desligar o ventilador é mais forte. O lençol por um momento tem um toque tão gostoso quanto o dele, macio, macio! Pega o terceiro travesseiro e abraça como se sua vida dependesse daquilo, é! Rola pra um lado, pro outro… Pensa na bronca que vai levar e organiza os argumentos de defesa ainda não usados em outras conversas com os pais. Mas aí pensa nele e o dia deixa de ser ressaca e volta a ser ondinhas salgadas, com direito a conchinhas diversas! E toda semana a mesma repetição, até morrer afogada em amor.

Conto de quase uma linha só

15 de março de 2011

Era uma vez uma bonequinha de porcelana que queria à força ser boneca de pano, mais viva e tenaz! Não respeitou sua natureza delicada e teve um olho remendado e uma perna costurada, até que um dia foi jogada da prateleira e virou cacos que iriam pro lixo sem dó nem piedade, mas que no último finalmente fizeram uma tentativa: um tubo de cola e tornou-se alegria verdadeira nas mãos da filha da vizinha, soube finalmente o que era brincar.

Acontece que eu continuava perto, tentei dormir e consegui, mas em meus sonhos nossos diálogos só me traziam uma estranha paz e por alguns momentos éramos aquilo que nem sabemos querer.

Acordei, abri a porta e fui descalça para a varanda olhar o movimento da rua lá em baixo na madrugada daquela cidade tão cheia de nós e, outrora, de eus. Vários daqueles paralelepípedos eram um parágrafo da minha história, vários foram onde tropecei ou me apoiei para levantar.

Minha camisola branca queria te abraçar, queria brincar com o vento ou queria apenas dançar sob aquele céu bastante escuro. Em algum momento percebi ao longe um bêbado com passos trépidos, mas seria inútil trançar meus cabelos e carregá-lo ali pra dentro, não eras tu.

Então senti uma primeira gota de chuvisco no rosto, sentei de qualquer jeito e fiquei olhando longe por entre as colunas da meia parede. Sem pensar, ignorei as gotas cada vez mais fortes de chuva, não fui pra algum canto coberto e aos poucos eu pingava, lavei logo ali os pratos daquele carnaval.

Enfim voltei para a cama e pulei em teus braços que em algum lugar esperavam por mim, mesmo que tu não soubesses.

Plumas de um cisne cinza

4 de março de 2011

Saíra enfeitiçada pela dança, hipnotizada pelo movimento dos braços que a tomavam e em um piscar de olhos faziam sentir-se de alguma forma especial. A trilha sonora por vezes confundia-se consigo mesma e não sabia delimitar realidade e sonho.

Então a cena esvaía-se, sua mente utilizava de forma singela o recurso tão citado em “Paris when it sizzles” para transportá-la às épocas de olhos semi-cerrados, ombros desamparados, sonhos longínquos, quietude e todas as reticências que podem haver em uma menina que pensava apenas como menina.

Não houve nenhum acontecimento apocalíptico que a mudasse. Não precisou de narrador ou neologismos para registrar essa transformação e, ao contrário de teorias psicanalíticas sobre contos de fadas, foi somente na quarta gota de sangue que virou mulher: a lágrima. As três primeiras do nascimento, infância e adolescência não foram suficientes, somente quando sua dor confundia-se com o choro soube finalmente pensar como mulher.

Agora estava ali atropelando cumprimentos e mais uma vez abandonava os mapas para seguir um atalho mais conveniente. Perdia-se entre a mata fechada e o perigo tinha sabor de chocolate, tinha um abraço gélido.

Cada vez mais sobre a penumbra, lembrava do que poderia ter sido diferente se não seguisse os impulsos de um ser que era parte de si, mas que se comportava com a teimosia e selvageria da dança improvisada. Ainda assim sabia que por muito mais estava por vir, era uma transição demorada e necessária.

Sentou, cruzou as pernas, riu, pensou, voltou para casa estampando na cara um sorriso de quem sabia que estava no caminho certo apesar da censura de cenas. Deitou, levantou, rodopiou, voou. Voltou e no espelho era animal singelo, mas intempestivo, era princesa e bruxa, era cisne cinza nadando no lago congelado.

%d blogueiros gostam disto: