só mais um degrau

12 de abril de 2012

Pra quê ter tanto medo? Mas, eu tinha. Sim, o verbo no passado. Você passou e eu tinha medo de você. Do jeito confiante que você parecia ter, sem se importar com nada nem ninguém. E de quando você bêbada parecia tão frágil quando as asas de uma libélula.

Aparecendo de madrugada na minha porta, pedindo companhia e silêncio. Para poder ouvir uma música do Caetano ou um CD do Raimundos. Tanta contradição em uma pessoa só e eu ficava acuado, com medo. Medo de te ganhar. Como uma criança que sonha com um brinquedo, mas não sabe como usá-lo.

Encostado na pilastra da boate eu observo você dançar, as luzes ululantes misturam com o seu sorriso e o brilho que seu olhar encontra o meu, perdido entre as longe necks e a música eletrônica. Você me chamou e eu fugi. Você me pediu que a salvasse e eu apenas dei a você o telefone da emergência. Fui covarde, tive medo, você me assustou.

Agora estou a milhas de distância no tempo e ao olhar pra trás vejo que você ainda é tudo que eu poderia querer um dia, mas acredito que o fim chegou cedo demais para nós dois. Agora você deve estar se divertindo em meio aos livros de Direito enquanto eu procuro patrocínio para alguém que não precisa de dinheiro. E talvez a gente esteja ouvindo a mesma música dos Engenheiros do Hawaii pensando em como poderia ter sido.

Se é uma palavra meio confusa, ninguém gosta do jeito que ela é usada, com pesar, nostalgia e uma falsa esperança que nunca virará concreto, mas todos a usam sem o menor pudor para dizer que tudo poderia ser diferente, mas nunca é.

Eu ainda tenho o cheiro de seu carro vermelho em minha pele, suas mãos macias tocando a minha e o jeito ofegante de beijar. Queria perder o rumo ao seu lado, tentar aflorar o seu lado guia para me colocar de volta nos trilhos e eu, então, poder seguir em frente olhando para trás com um sorriso. Esperando você voltar.

Eu poderia pedir desculpas ou sua mão em casamento, mas não quero mais sentir medo e ao seu lado era o que eu sentia todos os dias. Apesar de você ser tudo que eu jamais teria sonhado, apesar de você me dizer coisas tão engraçadas, estranhas e bonitas. Você está em um degrau acima do meu. E eu tenho medo de altura e não consigo te alcançar.

Anúncios

Lado Negro da Força

9 de abril de 2012

Ela batia palmas para qualquer sorriso na rua fria em plena madrugada paulistana. Ela andava tropeçando nas próprias pernas, excitada de tanto misturar tequila com cerveja e guaraná. Queria um porto-seguro sem apólice de seguro e sua vida que fosse para longe das margens do Tietê.

 

Distribuía paixões como desfiles de Misses e sambava como um gari em plena Avenida Paulista, queria mandar flores e escrever cartões de Natal, mas só tinha tempo de dizer que o mundo era tão belo e vomitar mais uma vez no bueiro mais perto. Ela queria tudo ao mesmo tempo agora.

 

Estudava teologia, mas gostava mesmo do pôr-do-sol em uma praia deserta com o seu grande amor que ainda procurava em cada lata de lixo dessa cidade suja. Repetia bem alto que seu coração estava em frangalhos, mas cada macaco no seu galho era o lema mais audível no silêncio da madrugada que nunca para.

 

Tinha manchas de batom por todo rosto, deve ter sido algum beijo desconhecido que será esquecido com o raiar do dia. E o pôr-do-sol nunca chegava naquela madrugada fria. Suas roupas estavam cheias de sonhos e sua cabeça pesava mais que os dias em claro.

 

O vento buliçoso bagunça os seus cabelos e ela nem se importa que não haja mais perfume, prefere manter sua mania de conferir os postes e pedir que alguma luz possa iluminar suas ideias e seus dias tão banais.

 

Cansou de se vestir e pintar de preto, fingindo um lado negro que não existe mais, queria poder manter as unhas cor-de-rosa como na infância sentada no sofá da sala com a mãe dizendo como tudo deveria ser. Que um dia ia encontrar um homem pra ser só dela e então viveriam felizes para sempre.

 

E todo santo dia ela saia de casa em busca desse grande amor, pena que nunca se ligou no cara que esbarra com ela no elevador toda manhã quando levanta para buscar o seu jornal na portaria.

 

Sonho de valsa

3 de abril de 2012

Ela não disse nada, nem precisou, ele sabia exatamente o que ela pensava e sentia naquele momento. O mundo desabava em lágrimas de um deus qualquer e o dia parecia estar em câmera lenta. Ela fumava o seu cigarro eletrônico e ele bebia sua cerveja sem álcool. Eram uma fraude, sempre foram.

Mas eram uma dupla, no melhor sentido que a palavra pode nos levar. Talvez existisse uma palavra mais forte que cumplicidade, talvez uma simbiose ou algo dos filmes de super-heróis que eles viram na TV, para explicar a relação entre eles. Uma música de Wando talvez seja a metáfora correta.

Ela lia Clarice Lispector fingindo que não se importava com o barulho enquanto ele fingia ser Michael Jordan com o controle do Playstation na mão. Os raios pipocavam lá fora e ambos ignoravam os trovões e picos de claridade. A chuva era uma companheira leal para ambos.

Ontem à noite ela estava grávida e ele estava sorrindo contando os outdoors que levavam seu nome pelo caminho de volta para casa. Hoje, ninguém sabe qual dia da semana é e não importa mais que “três” não seja mais o número deles. Ela quer voltar no tempo, ele quer mudar de vida. Ambos querem continuar juntos pela eternidade.

Um filme de ficção cientifica passa pela cabeça dele, entre uma cesta e outra ele imagina seus cérebros e almas incrustados em corpos robóticos que podem enfrentar o passar do tempo. Enquanto ela nem sabe no que está pensando, já se perdeu do assunto do livro há pelos menos 20 páginas atrás. Queria aprender a voar de asa-delta ou fazer arborismo, mas ele tem medo de altura e ela não vive sem ele.

Ela sugere um cachorrinho, ele sugere uma coca-cola. Tal qual uma música de Caetano os dois bailam pela sala de estar mesmo em ritmos completamente diferentes. O mundo gira nas duas direções, mas eles não saem do mesmo lugar. Lado a Lado. De mãos dadas.

Enquanto o amor é um sonho de valsa em que ele come apenas o chocolate e ela a parte de dentro a gente tenta encontrar alguém que nos complete depois do jantar.

%d blogueiros gostam disto: