o velho e o Big Mac

28 de setembro de 2011

Ontem eu resolvi comer no McDonald’s, coisa banal de se fazer, um fast food para a correria da vida moderna. A filial que fui, fica na Avenida Paulista, é cheia de mesas e pessoas solitárias. Eu, como bom solitário, fazia meu lanche tranquilo quando um senhor de terno perguntou se poderia dividir a mesa comigo, já que estavam todas ocupadas. Aceitei.

Enquanto eu devorava ferozmente o meu sanduiche, ele apenas contemplava a bandeja e a caixinha do Big Mac. Não pediu batata-frita ou refrigerante. E seguiu apenas observando a comida. Eu pensei que fosse algum tipo de oração, reza ou coisa parecida, mas então depois da segunda mordida, ele começou a chorar. Perguntei se ele estava passando mal, se queria alguma coisa, se precisava de ajuda. Então ele respondeu.

“Não tem nada que você possa fazer por mim, garoto. Acabei de receber os resultados dos meus exames. Não tenho muito tempo de vida. Meus filhos estão em Belém, não contarei nada a eles. Prefiro morrer só, sabe como é, né? Não quero ninguém preocupado comigo, nem me tratando feito um condenado à cadeira elétrica. Vim comer meu primeiro Big Mac na vida, afinal uma empresa desse porte deve ter algo de bom. Eu não poderia morrer sem conhecer essas coisas. Vou aproveitar o tempo que resta e fazer coisas que nunca fiz. Ah. Esse lanche é muito bom, não é?”

Certas atitudes não podem ser explicadas. E então caminhamos para toda aquela baboseira de carpe diem e aproveite cada dia como se fosse o último. Fiquei comovido, realmente, com aquele homem. Resolvi ligar pra pedir desculpas pra todo mundo que eu machuquei de verdade. Sei lá. Preciso do perdão. Liguei pra você só pra dizer que te amo. Sei que você sabe e já está cansada de ouvir minha voz replicante ao telefone repetindo incessantemente isso, mas é o que eu quero fazer antes da noite cair. Planos. Promessas. Tudo pode terminar em um segundo. Me dá outro abraço que é isso que quero lembrar do outro lado.

Ao mesmo tempo que os filhos dele ficaram do outro lado do país, não terão a oportunidade de dar um último abraço no seu velho, sei lá se eles se amam, na verdade temos que amar nossos pais. É algo fundamental. Não se ama ninguém de verdade sem amar a família. Por isso eu repito pra minha mãe que ela é a coisa mais importante da minha vida, e diria outras milhares de vezes se for possível. Antes que seja tarde demais. E comerei outro Big Mac da vida sempre que eu me sentir só.

1 contra 1 em Vladivostok

23 de setembro de 2011

Não quero mais brincar. Agora é sério. Eu te amo. Sim, poderia escrever isso com uma letra de cada como se fosse uma garotinha adolescente em seu diário de capa roxa. Mas é sério. Não é apenas pompa e circunstância, não tem borboletas no estomago nem luzinhas de Natal. Eu só te amo, sem explicação plausivel, sem contexto cultural e histórico. Como um filme ucraniano sem legendas.

Talvez você saiba, nenhuma frase de efeito ou palavra que eu possa usar te fará entender. Eu só quero gastar bem o que investi nesse novo dicionário que agora tem gírias e piadinhas sem graça. Você me lembra que aprendi religião numa bíblia em quadrinhos, coisa estranha. Como nosso amor.

Sim, eu te amo tanto que quando estou contigo quero ficar sozinho, quando estou sozinho não vejo a hora de te encontrar.

Não, mas é sério. Não vou brincar, não deixarei mais minha cueca suja em cima do seu computador, nem a toalha embolada no sofá. Nem ligarei para a sua completa flata de esmaltes quando existem milhões de cores em sua gaveta de esmaltes. Adoro o cheiro de esmalte e o barulhinho engraçado quando se bate um no outro. Amo você. Com cartões de aniversário que chegam completamente atrasados e cartas com nove metros de extensão dizendo como te amo em cada uma das infitas línguas que se fala nesse planeta.

Eu te amo brega. Assim mesmo, com um girassol na lapela e frases gritadas do chão para você ouvir no sétimo andar. Amo em cartazes coloridos carregados por aviões teco-teco que chamam mais atenção que a frase em si. Amo em dó, em la, em bemol. Amo desafinado, como quando canto no chuveiro aquela música do Wander Wildner que de tanto ouvir você já sabe de cor.

Amo entre parenteses, com dígrafos e hiatos. Com pernas pro ar e peidos embaixo do edredon. Amo os seus abraços e risadas inoportuna Molhar os pés na água poluída do Rio Tietê com você. Seria o passeio mais inesquecivel do mundo, não existe Paris nem Vladivostock se o mapa não visar um ataque dos exércitos brancos sobre os amarelos. Pra te acordar antes da hora só pra dizer que no fundo te amo.

Na superficie também. Em todos os pontos do oceano de sentimentos e pessoas andando pra lá e pra cá na Avenida Paulista. Eu encontro você, sempre, de longe. Acho que deve ser por isso que te amo, mesmo. Sério.

 

Abrace seus erros.

14 de setembro de 2011

Costumam dizer que no amor não se pode errar, não se pode demonstrar os defeitos, não pode ficar nem um milímetro abaixo da perfeição. As exigências são gigantescas, devemos amar como robôs em uma linha de produção, sem desculpas, brigas e arroz caindo do prato.

Quando eu tinha 10 anos meu pai inventou que eu deveria ser piloto de kart. Devido a umas poucas voltas que eu dei na pista para amaciar o motor do kart dele próprio. Viu que eu tinha vocação. Começou então as sessões de treino, todos os sábados a tarde. 100, 200, 300 voltas com pé embaixo para que eu pudesse alcançar o tempo mínimo necessário para me inscrever no campeonato.

Logo no primeiro dia eu consegui alcançar o tempo. Meu pai era um sujeito zangado e perfeccionista, como eu tinha uma paixão, como ele dizia, por errar sempre na mesma curva. Ele se postou no lugar que eu não deveria passar nela e lá ficou enquanto eu continuava dirigindo. Com medo de não machucar meu pai eu comecei a acertar.

No último treino antes da data marcada para o “exame de admissão” eu rodei 200 voltas e em 180 eu fui pelo menos 1 segundo mais rápido que o tempo mínimo. Meu pai considerou essa taxa de 90% como satisfatória. Eu estava pronto, segundo ele. Mas no dia tinha que conseguir o tempo em apenas três voltas e falhei. Teria ainda duas chances.

Mais treinos, mais tempos baixos. Mais gritos e broncas. Com o papel impresso com meus tempos ele criticava porque a cada 50 voltas boas eu dava uma ruim. Sublinhava meus erros, minhas falhas e eu com o sorriso dizia que cansava. Não poderia cansar, não poderia ser menos que perfeito. Se ele conseguia então eu deveria conseguir, afinal eu era seu sangue e carne.

Segunda tentativa e falhei. Quinze dias depois. Mais duas sessões de treinos e completamente sem motivação comecei a fazer tempos piores e admitir que aquilo não era pra mim. Meu pai posicionava garrafas de dois litros de coca-cola onde eu deveria frear e o ponto exato da tangencia das curvas ele desenhava com giz. Parecia um professor maluco com os cabelos desgrenhados cujo aluno não conseguia aprender.

Quando das 300 voltas eu apenas conseguira atingir o tempo mínimo em 40, ele gritou que desistia. De mim. Como filho. Como qualquer coisa nessa vida. Virei um peso. Um problema. Um garoto que não conseguia fazer nada direito. Ele não percebia que eu tinha problema de visão que atrapalhava minha percepção de profundidade na hora de frear no fim das retas.

Ele disse que eu não testaria mais. Meu tio resolveu me levar escondido para fazer o teste “final”. Minha ultima chance de entrar para o automobilismo. De ser o novo Nelson Piquet. Consegui meus melhores tempos de sempre nesse dia. Licença concedida, eu poderia competir. Sorrisos. Agradecimentos ao meu tio rebelde. Cheguei em casa, com o documento nas mãos. A minha chance de mostrar ao meu pai que ainda poderia ser perfeito.

Mas ele não estava em casa. Nunca mais esteve.

E até hoje eu tento ser perfeito pra mim mesmo, não para alguém. Ninguém precisa de alguém dizendo como se deve ser. A felicidade está em nossas próprias mãos. Pequenas coisas. Admitir limites e falhas de caráter e físicos.

Nunca cheguei a correr qualquer campeonato de kart, mas esse documento está moldurado num pequeno quadro na minha biblioteca.

A mesma rua

13 de setembro de 2011

Era a mesma rua, com os mesmos cabelos cacheados das ondas do mar. Era o mesmo silêncio a ferir meus tímpanos com pontas afiadas. Não tinha ninguém capaz de me dizer pra onde ir, se deveria atravessar na faixa de pedestres ou esperar o sinal abrir. Não tinha razão alguma pra estar em qualquer lugar a essa hora da manhã.

Procuro um amor, qualquer tipo, que calce 35/36 e saiba conversar mais que vinte minutos numa fila do pão. Quero o sabor do seu sorriso puro em pensamentos impuros, esperando a hora de partir pra solidão a dois.

Mas ainda era a mesma rua, uma ladeira cansativa como o resto dessa vida sem você. O cartão de transporte batucando com as moedas no bolso do casaco, uma última chance de mudar o que ficou pra trás. Como um mendigo que revira o lixo eu procurava qualquer imagem sua na minha memória, mas você nunca estava lá.

Os momentos felizes, os meus sorrisos mais sinceros, abraços mais ternos e vitórias mais suadas foram sem sua ajuda. Sem seu perdão, sua gratidão, sem qualquer coisa que tivesse ligada a você. Deixo a chuva cair na minha cabeça, esqueço da febre da semana passada e da tosse que ainda incomoda um pouco. Tenho um quê de auto-destruição que devo ter herdado de um lado distante da família. Ou não.

É então que ouço o telefone tocar, você, sim, ficou de ligar e o coração acelera.A esperança de um mundo melhor, a paz mundial e o combate à fome e a pobreza começam a bombear o sangue pelo meu corpo. Com sua voz o dia nem se parece com uma segunda-feira. Ou qualquer feira livre em algum ponto do país.

Você marca um almoço naquele nosso restaurante preferido, com cerveja alemã e chucrutes e coisas do tipo.

O sol volta a aprecer, a chuva já era. A rua, mesma rua, parece mnos inclinada e sombria. A tosse foi embora com a tristeza e os passsos começam a acelerar. Quero chegar antes de você, pedir uma música lenta, ou talvez aquela que você costumva dançar enquanto escovava os dentes. A gente sente que o sorriso não consegue fugir da boca, quero voltar a ser eu mesmo, ou ser qualquer coisa.

…mas você não apareceu.

Antes de dormir

8 de setembro de 2011

Confesso que acordei mais cedo, olhei para o lado procurando o seu corpo que obviamente não estava lá. Você nunca esteve lá, sempre foi apenas fruto do meu pensamento, da minha completa falta de imaginação. Minha companheira de esquizofrenia, uma forma de fazer a solidão ser só mais uma palavra inútil no dicionário, como amor.

Eu que imaginava para nós, uma história perfeita, daquelas que daqui a alguns bons anos algum cineasta maluco contará e arrebatará suspiros de casais apaixonados nas salas de cinema ao redor do mundo. Sempre fui megalomaníaco, querendo ser o melhor do mundo em qualquer coisa que pudesse ser ranqueada.

Hoje eu quero o seu abraço invisível, algumas palavras antes de dormir e só.

Enquanto os outros andam com pressa por aí, eu tenho andado de mãos dadas com você nos meus sonhos, dividindo as parcas emoções que a vida atual tem proporcionado. Será que existe alguma coisa que ainda te emocione?

Por muito tempo, mas muito tempo mesmo você foi tudo aquilo que eu queria para a minha vida, para uma vida qualquer. Como uma criança eu sabia o que queria ser quando crescesse, eu sabia quem eu queria ser e com quem deveria estar.

Hoje eu quero o seu abraço com cheiro de maracujá, cafuné para dormir melhor e só.

Confesso que me assustei quando percebi que você não existia, que era uma utopia, a mulher nota 1000 dos filmes da sessão da tarde. Passei a andar cabisbaixo, maldizendo a minha sorte, mais ou menos como foi quando descobri que Papai Noel não existia, ou que a Vovó Mafalda era um homem. Vi minhas esperanças despetalando pelo chão.

E então eu acordo, vejo você dormindo ao meu lado. Feito criança com uma pano apoiado no rosto, lembrando quando sua mãe enchia o berço de lençóis para que você não se machucasse.

Espero você acordar para dizer que te amo. Como sempre espero você dormir primeiro para eu poder então dormir. Você é melhor do que os meus sonhos, do que qualquer mulher inventada em qualquer espécie de literatura. Você é o silêncio que ninguém ouve quando está falando.

Nessas horas eu vejo que não existem palavras inúteis no dicionário, nem aquelas que nunca são usadas. Tudo faz sentido alguma hora. Todo mistério será resolvido. Toda equação tem uma solução. Todo esquizofrênico terá uma alma gêmea. Fictícia ou não.

Hoje eu quero só repetir incansavelmente que amo você até cansar e dormir. Só.

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