Barquinho de papel

12 de dezembro de 2010

Sabe, é engraçado: lembrei agora do meu sonho da noite passada e aquela minha amiga que te falei estava nele com o ex-namorado dela. Tu estavas também e mais uns três conhecidos meus. Ora estávamos n’uma praia, ora caminhando n’uma avenida deserta… E eu pensei que às vezes é justamente assim que me sinto diante de ti, tuas ondas e tuas placas de sinalização.

Tal qual Boa Viagem, tu estás cercado de placas que indicam que a qualquer momento um tubarão nos atacará. E teu mar é tão azul e nos leva a mergulhar mesmo sabendo que podemos ficar com um braço a menos. Mas o que é um braço perto de um sorriso?

Sou um barquinho a vela. Tu és todo o mar. Sou movida a brisa. Tu tens relação com a própria Lua. Navego em ti e tu me matas afogada. E agora, o que fazer? Ainda assim, prefiro ir sem colete salva-vidas e me arriscar.

Mas agora já não estamos mais em alto-mar, estamos em casa. O plic-ploc lá fora me alegra pois aquela gota já esteve no oceano, já evaporou, já choveu, já te molhou, foi responsável por aquela tua gripe, evaporou de novo e agora tá aqui molhando a ponta do meu nariz e ameaçando a garantia do meu computador. Tudo culpa sua, como sempre desde que te conheci.

Ah, o moço da TV me avisa que tu estás muito triste! Saiu no noticiário, não viu?! Olha, se eu pudesse, daria um pulo maior que o teu goleiro e salvaria o teu time. Mas depois tu terias que passar merthiolate e assoprar meu joelho porque esse negócio de merthiolate incolor e indolor não é pra espartanas como eu!

Mas aí eu penso que o guri aqui não sou eu e acho que está na hora de preparar teu mingau. No fundo tu és um marzão quase sem fim, quase sem ondas, quase sem perigos… Com tuas lendas e naufrágios, com teu mistério e brisa. Estórias que quase não passam de fábulas infantis, que quase têm um ponto final.

Melhor não contrariar, né?

15 de agosto de 2010

Fatos reais de vidas imaginárias.

[AVISO: CONTÉM SPOILERS SOBRE O FILME “A ORIGEM” ]

TERÇA-FEIRA

– Assisti “A Origem” e me lembrei de ti. Consegui descobrir o final do filme antes do fim.
– Sentiu como é ser eu por poucos instantes, não é?
– Um pouco, bocó.
– Ainda não vi. Devo assistir no sábado. Te ligo pra dizer se adivinhei.

SÁBADO

– Assisti ao filme. O que tinha pra ser descoberto?
– Era um sonho. Eu sabia.
– Eu não achei isso. O negócio ia parar de girar. Acho que era pra todo mundo ficar na dúvida.
– Era nada. Era viciado, ele não poderia rodar a não ser nos sonhos.
– Continuo achando que ficou dúbio. Boa sacada do Nolan.
– Repara que tem uma cena que o negócio não gira nem por decreto.
– Ah! Tá bom. Acho que os ares de São Paulo me deixaram meio burro. Continuo achando que era pra ficar a dúvida.
– Deixa de ser chato e estragar meu prazer.
– Tá. Beijo.
– Beijo.

Melhor não contrariar, né?

Ana

9 de julho de 2010

O tédio era seu melhor amigo, na verdade não costumava chamá-lo assim, gostava de passar um tempo só, pensar, refletir. Sentada em seu banco preferido nos amplos jardins de sua casa, a madrugada não parecia assustá-la. Era fã do silêncio, mas mesmo assim resolveu dedilhar algo em seu violão. Aquele clima soturno era propício.

But I’m in so deep. You know I’m such a fool for you.
You got me wrapped around your finger, ah, ha, ha.
Do you have to let it linger? Do you have to, do you have to,
Do you have to let it linger?

Sua voz ecoava nas paredes brancas e dava a impressão de ser a melhor cantora da face da terra. Mas a emoção contida naquelas palavras era tanta que até era crível. Lá do alto do muro, sentado, tomando um copo de vinho alguém a observava, mas estava oculto pelas lágrimas que escorriam do rosto dela.

Ao fim da música, Ana notou que algo estava diferente. Uma leve brisa batia nas folhas, sentiu medo pela primeira vez na vida. Olhou para o seu redor buscando o que a inquietava. Bateu os olhos numa figura estranha, um homem estava observando. Era uma figura estranha, mas não sentiu mais medo. Estava todo vestido de branco e emitia paz, muita paz. Teve a impressão de ver uma nuvem pairando ao redor dele, mas supôs que era apenas imaginação vinda das taças de vinho que tinha tomado.

– Olá, minha linda, não pare de tocar. Tens a voz mais bela que já ouvi. Tens o dom de trazer paz a este meu coração já tão destroçado que nem sabe mais.

Ficou alguns segundos sem ter o que dizer. Aquele rosto estranho era familiar, um sorriso intrigante. Não chegava a ser bonito, mas atraia ela de modo assustador. Não sabia o que responder. Não sabia o que pensar. Não ousou falar. Apenas começou outra canção:

I’ve been roaming around
Always looking down at all I see
Painted faces, fill the places I can’t reach
You know that I could use somebody
You know that I could use somebody
Someone like you, and all you know, and how you speak
Countless lovers under cover of the street

– Gosta dessa? – inquiriu ao terminar. Mas ele não estava mais lá.

Resolveu que já era hora de voltar para o seu quarto. Não sem antes olhar para todos os lados, o medo voltou. Mas agora era uma sensação mais estranha ainda. Queria saber tudo sobre aquele homem. Se realmente existia ou se era apenas fruto de sua imaginação. A tristeza profunda já não era sua amiga, agora a curiosidade e uma fome tremenda tomaram conta do seu corpo.

De onde viera aquele homem? Não tinha vizinhos. Não tinha ninguém por perto. Não.

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