Biblioteca nova

24 de novembro de 2011

Cá estou com a poeira que irrita e me faz espirrar, sozinho à meia luz. Eu e meus melhores amigos dos últimos tempos. Os livros. Alguns eu confesso que nem sei mais do que se trata, outros tive que reler as últimas páginas para me lembrar do final, nem sempre feliz. Mais ou menos como a vida.

Nem sei por que desenvolvi essa amizade, nem sei por que gosto tanto dessas páginas escritas com sentimentos alheios que nada tem a ver comigo. Mas eu sou teimoso e acrescento algumas linhas próprias em páginas selecionadas. Cheguei até a alterar clássicos por minha conta. Gosto de mudar as coisas.

Estive pensando em você. Como você ficaria feliz em me ajudar a organizar os livros na minha biblioteca nova. Sugeriria várias formas de organização e todas seriam rechaçadas por mim. Mesmo assim você continuaria com esse sorriso lindo de criança mimada e arteira. Discretamente colocaria alguns livros fora da ordem só pra me chamar a atenção.

Eu me lembro de você dizendo que os meus livros eram tristes, quase nunca terminavam como você queria/imaginava. E eu sempre dizia que era por isso que eu gostava tanto deles, talvez a tristeza combine comigo. E finais surpreendentes também.

Você sempre me surpreendia, trazendo café na cama ou resolvendo que hoje era o dia de acordar às cinco horas da manhã para uma corridinha no parque, mesmo com tanto frio lá fora. A loucura era parte do seu dia-a-dia. Talvez fosse mais surpreendente esperar que você gostasse do papai-mamãe das noites de sábado, e você gostava.

Cá estou perdido numa ilha que eu mesmo criei. Não sei por onde você anda. Tenho andado meio estranho ultimamente. Tenho vontade de dizer eu te amo a cada nove frases que falo pra você ao telefone. Quero fugir contigo pra uma ilha deserta e viver de água de coco, peixe frito e uma rede pra balançar.

Então você me liga dizendo que comprou dois ingressos para o próximo show de um DJ famoso, ou melhor, disse um nome qualquer e teve que explicar quem ele era. Vamos nessa. Logo eu que não gosto de músicas eletrônicas, baladas noturnas e multidão. Mais uma página com um rabisco de outra pessoa qualquer.

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dividindo o amor.

15 de novembro de 2011

Um fim de tarde, algumas frases gastas e o Jardim Botânico à nossa frente. Eu escancarando o meu medo de altura enquanto você recitava poemas de escritores canadenses que conheceste em algumas férias tempos atrás. O amor perfeito anunciado na placa de identificação das plantas coloridas aos nossos pés. A gente não teve piedade de pisá-las com toda a força.

Não precisamos dos clichês de filmes americanos, europeus ou brasileiros para que o amor esteja conosco. Para que flores espalhadas pelo chão da casa se um aperto de mão na hora que o avião precisa arremeter parece mais apaixonante? Posso te dizer que és a mulher mais bonita do universo sem nem olhar para seu vestido novo, mas também posso dizer que até que tá legalzinha olhando nos seus olhos apenas para chamar sua atenção.

O amor não tem regras preestabelecidas nem cheques pre-datados, apesar de muitas mulheres – e homens também – estarem atrás apenas de dinheiro. Sim, a gente pode viajar na classe econômica escutando os choros das crianças sentadas perto da janela, mas também podemos dividir o mesmo lençol de seda por toda eternidade ou até quando a gente quiser.

Volte, eu guardei mais um chiclete para você mascar. Vamos dividir as palavras cruzadas e as rosquinhas que distribuíram no avião de São Paulo a Curitiba. O nosso amor não é soma ou multiplicação. É divisão. Dividir nosso mundo em dois. Nem sempre o resultado precisa ser negativo ou menor. Somos maiores quando estamos juntos.

Poderia agora começar a declarar o meu amor por você, gastar todas as linhas que tenho direito escancarando tudo que penso, sinto e sou, mas isso seria renegar tudo que escrevi até aqui. Então, vem, abra a porta da sua geladeira e pegue aquela coca-cola que compraste semana passada para o nosso almoço e pense em mim.

Pense em tudo que você gostaria que eu falasse e que nunca falei. Sei lá. Não sou muito bom com as palavras ou com a culinária russa, mas posso te explicar direitinho as curiosidades sobre o mundo animal ou esportes populares.

Era só isso que eu queria dizer. Até breve.

O caranguejo e o dirigivel

7 de novembro de 2011

Eu sempre imaginei que o protótipo do casal feliz fosse aquele em que duas pessoas estão sempre felizes, rindo, conversando… sintonizados, sabe? Não haveria brigas, silencio durante as refeições num restaurante legal, lembranças desagradáveis ou ciúmes exagerados.

Um dia na praia, sentada sozinha em uma barraquinha na areia, observei um casal. Tinham já seus 50 anos. Era fim de tarde, maré subindo e eu pensando, ela comendo caranguejo, ele todo modernoso ouvindo músicas num Ipod e lendo jornal.

Ah, eles eram casados. Provavelmente há muito tempo. Nem precisava perguntar, isso pairava sobre eles como se fosse um dirigível da Goodyear que flutua sobre um estádio em dia de jogo.

Uma coisa me fazia ter essa certeza, o silencio. Nenhuma palavra. Nem um carinho. Um olhar sequer. Nada! Quando um dos dois queria pedir algo chamava o garçom, pedia e só. Não tinha aquele “quer mais alguma coisa, amor?”. Obviamente aquele casamento estava no fim. É triste ver o fim de um amor. É como ver uma criança morrer.

Pensei em como eu sempre abominei o silêncio em uma relação. Falar é mais que necessário, exagerando, é quase uma obrigação! Gosto de saber se a cerveja está boa, quais as novidades no jornal, a última vez em que mergulhou no mar, qualquer coisa. Tudo. Menos a falta de dialogo.

Cansada daquela cena torturante que predizia o futuro de qualquer relacionamento, chamei o garçom e pedi a minha conta. Enquanto ele anotava no bloquinho o meu consumo acabei soltando um “que pena…”.

O garçom levantou a cabeça e com uma cara de psicólogo me perguntou se estava tudo bem. Pedi desculpa e disse que sim, que estava apenas refletindo sobre o casal da mesa da frente. Ele não entendeu o motivo do meu comentário, então acabei explicando.

Sorrindo, ele me disse que também pensava a mesma coisa. Mas que hoje ele vê aquele casal como a forma mais explicita de amar. Logicamente, eu achei que ele só podia estar brincando, primeiro pelo sorrisinho e segundo pela “forma mais explicita de amar”. Puxei minha conta e disse que ele não deve saber o que é amor.

Na mesma hora ele retrucou: “E quem é que sabe? Você?!”. Olhei pra ele com a certeza de que nunca voltaria naquele bar. Imediatamente ele se desculpou, puxou uma cadeira e começou a contar a história do casal.

“Eles sempre estão por aqui. Nem que seja uma vez por mês. Sempre desse mesmo jeito. Ela comendo caranguejo e ele ouvindo música e lendo jornal.” Interrompi o Sebá (sim, eu já era intima do garçom a esta altura) e perguntei por que ele não comia junto com ela.

“É o prato favorito dela, mas ele não pode. Uma vez ele tentou acompanha-la e ficou à beira da morte por causa de uma grave alergia até então desconhecida. Um simples beijo ‘sabor caranguejo’ desencadearia uma crise. Ela então jurou que nunca mais comeria o crustáceo, que o mais importante era a vida dele. Ele disse que não iria priva-la de fazer uma das coisas que ela mais gostava. E juntos encontraram uma solução: ele ficaria sentado afastado, ouvindo as músicas preferidas deles e lendo o caderno de esporte e a sessão de novelas, assim, na hora que ela acabasse de comer e se limpar ele contaria pra ela todo o resumo da semana. Seguindo depois as suas vidas normalmente, até o próximo caranguejo.”

Agradeci ao Sebá por me contar tudo aquilo, paguei a conta e fui embora.  Pensativa. Reformulando toda a minha ideia de relacionamento perfeito.  Aquilo era amor. E não estava no fim. Muito menos no começo. Ele simplesmente estava lá. Sem precisar falar nada. Aparentar nada. Os dois sabiam o quão grande era o amor deles, e isso era o bastante.

* texto escrito por Anna Priscilla.

* Te Amo!

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