Plumas de um cisne cinza

4 de março de 2011

Saíra enfeitiçada pela dança, hipnotizada pelo movimento dos braços que a tomavam e em um piscar de olhos faziam sentir-se de alguma forma especial. A trilha sonora por vezes confundia-se consigo mesma e não sabia delimitar realidade e sonho.

Então a cena esvaía-se, sua mente utilizava de forma singela o recurso tão citado em “Paris when it sizzles” para transportá-la às épocas de olhos semi-cerrados, ombros desamparados, sonhos longínquos, quietude e todas as reticências que podem haver em uma menina que pensava apenas como menina.

Não houve nenhum acontecimento apocalíptico que a mudasse. Não precisou de narrador ou neologismos para registrar essa transformação e, ao contrário de teorias psicanalíticas sobre contos de fadas, foi somente na quarta gota de sangue que virou mulher: a lágrima. As três primeiras do nascimento, infância e adolescência não foram suficientes, somente quando sua dor confundia-se com o choro soube finalmente pensar como mulher.

Agora estava ali atropelando cumprimentos e mais uma vez abandonava os mapas para seguir um atalho mais conveniente. Perdia-se entre a mata fechada e o perigo tinha sabor de chocolate, tinha um abraço gélido.

Cada vez mais sobre a penumbra, lembrava do que poderia ter sido diferente se não seguisse os impulsos de um ser que era parte de si, mas que se comportava com a teimosia e selvageria da dança improvisada. Ainda assim sabia que por muito mais estava por vir, era uma transição demorada e necessária.

Sentou, cruzou as pernas, riu, pensou, voltou para casa estampando na cara um sorriso de quem sabia que estava no caminho certo apesar da censura de cenas. Deitou, levantou, rodopiou, voou. Voltou e no espelho era animal singelo, mas intempestivo, era princesa e bruxa, era cisne cinza nadando no lago congelado.

The Strokes e o rascunho do amor

26 de fevereiro de 2011

Some people think they’re always right. Você está. Others are quiet and uptight. Eu sou os dois contigo… Others they seem so very nice. Igual eu ao teu lado. Inside they might feel sad and wrong. Talvez porque você é plural, por quê isso?

Twenty-nine different attributes, only seven that you like: eu e você multiplicado por sete, não é? E vinte e duas vezes nós sozinhos e com os outros que ao mesmo tempo são nossas segundas pessoas do singular.

I’ll be waiting for you baby, ‘cause I’m through. Minha mentira é a mais verdadeira possível, tu és sempre o melhor do mundo naquele meu metro quadrado. Sit me down, shut me up. E mereça eu dizer que te amo. I’ll calm down and I’ll get along with you. Quem quer que você seja…

I was afraid that you would not insist. Mas você sabe quando quero um abraço, você sabe ser inteiro esse braço. I said please don’t slow me dow, e pegamos carona na estrela cadente seguinte!

Sometimes say, “Fate my friend, you say the strangest things, I find, sometimes”… Destino, o senhor é uma roda gigante na minha vida, mas pode parar quando minha cadeirinha estiver lá no topo? Eu quero somente sentir o vento ao lado dele, com sua respiração quente no meu pescoço.

Two can be complete without the rest of the world. Isso que importa agora! Can’t you see the sky is not the limit no more? Então vamos sem demora, vamos logo!

Vários quilômetros na sua hora

26 de dezembro de 2010

Três horas da manhã e todo o vento do mundo balançando sua franja preta. Pele branca e esmaltes vermelho-luxúria condizentes com sua mais adeqüada definição. Ombros desleixadamente jogados, cotovelos pra fora da janela do carro e o destino mais incerto que qualquer outro. Camisa branca desabotoada e maquiagem preta já derretida, sem resquícios do batom vermelho que a deixava parecida com personagem de cinema. Algum rock pesado que ela acompanhava de quando em vez a melodia com o balançar dos dedos no volante, principalmente nas curvas para aumentar a sensação de perigo. Era isso que ela buscava na madrugada, era isso que queria. Uísques, vodkas e pós não eram mais suficientes. Aventurava-se e sabia que tinha mais coragem que a maioria desses vagabundos baratos. Não sabia para onde ir e não queria encontrar aqueles que tanto jogavam na sua cara o que ela tornara-se. Sabia muito bem que no fundo continuava a mesma menina das bochechas roliças, de títulos acadêmicos que não a deixavam feliz verdadeiramente… Do que adiantavam os diplomas emoldurados na sala?! Talvez a maior vantagem fora meio mundo rodado atrás de pedras filosofais que ressuscitassem os que levaram uma vida tal qual ela leva agora. Há muito não acreditava em deuses e santos, mas pedia a quem quer que fosse que queria morrer antes de precisar de alguma espécie de tratamento médico que ela mesma não pudesse realizar. Talvez por esse mesmo medo nega-se a fumar: lembra da imagem do avô no caixão com doença de fumante, sendo que ele jamais fumou nenhum cigarro. Não, não agüentaria morrer tísica daquele jeito, sem o viço da juventude que ela se esforçava para manter. Inconscientemente procurava uma morte ali, naquelas madrugadas… Uma morte digna dos anais da história: “morre tragicamente Drª …, grande autoridade em cirurgia hepática do século XXI que antes dos 30 anos de idade revolucionou a Medicina moderna” ou “a Cirurgia Hepática está em luto pela perda de duas das mãos mais habilidosas que tivera” ou “33 anos de idade e um século de contribuições à Medicina: luto pela cirurgiã prodígio que conquistou o respeito das mais renomadas autoridades científicas”. Ela não queria isso, nem morrer podia em paz! Tudo o que fizera foi inventar a técnica cirúrgica mais óbvia que podiam ter pensado… Aliás, por que não pensaram nisso antes?! Desde então a cobrança de todos… E qualquer erro seria o fim. Nunca soube lidar muito bem com cobranças e tinha dificuldades com sua precocidade. Seus relacionamentos amorosos eram os que menos entendiam tudo aquilo… Qualquer pessoa com seus vinte-e-poucos-anos estaria bebendo despretensiosamente em algum bar, flertando com desconhecidos, indo para a cama com os melhores amigos! Mas ela não, ela era cobrada e seus tutores cobravam cada vez mais desde a publicação daquele artigo… Ela tinha que atingir o ápice. Atingiu. Foi aí que de um estrondo só o corredor do hospital ouviu seu berro e seus passos correndo, fugindo… Estava ali o que eles queriam, que agora a deixassem em paz! E dizem que até hoje aquele corredor vibra o eco daquele pedido de sossego. Tinha 30 anos e passou os últimos três rodando o mundo sem planos, apenas em busca de prazer. Hoje estava ali, às três horas da manhã em uma das maiores avenidas do Brasil, correndo, fugindo dos outros e de si. Nunca amou e que registrassem isso em sua biografia com todas as letras, sempre repetia isso aonde ia. E era mais uma forma de ferir qualquer um que fosse, mesmo que eles não se importassem… Depois das noites boemias, encostava a cabeça na parede do banheiro e chorava como a criança que nunca tinha deixado de ser, lembrava do desgosto da mãe em acompanhar tudo aquilo à distância, lembrava do olhar dele que há tantos anos não via, lembrava do olhar de quase todos eles… Podia esquecer os nomes, mas lembrava dos olhares. Tinha vontade de repetir o feito da adolescência, mas dessa vez queria repetir direito. Lágrimas misturadas com a água do chuveiro, olhos borrados e o café preto de sempre. Mas um dia, há muito tempo, previu que dali a cinco minutos seria o fim do que poderia ter sido e não foi, o auge daquela ópera burlesca, daquele drama. Dali a cinco minutos ela seria apenas mais uma matéria bruta sem crachá para os vermes, sem beijo de despedida, sem lágrimas ou afeto. Dali a cinco minutos ela era a beleza do desgosto poetizado, levando consigo os únicos rascunhos que tinha dos poemas de todos aqueles anos e agora, sim, poderiam dizer que ali havia sua essência: escreveu sua história e o ponto final não foi de nanquim, foi de sangue.

P.s.: na hora de sua morte, tocava na rádio a música que por muito tempo fora sua predileta, quando ela ainda importava-se com isso. Seu nome era “Impossible Germany”, a música que em tempos de garotice ela planejara tocar em seu casamento. Como em “Vestido de noiva”, a marcha nupcial virou marcha fúnebre e não adiantou renegar a Literatura, ela morreu Poeta.

Trilha Sonora da Vida

5 de abril de 2010

às vezes penso em músicas que eu ouvia há 10 anos. Como tudo fazia sentido. Como era legal ser quem eu era. (Hoje também acho legal ser eu). Mas as músicas eram importantes, tipo uma trilha sonora. O primeiro porre ao som de Nirvana, namorar no Bolichopp ouvindo Silverchair. Conversas pelo telefone madrugada a dentro ouvindo Pink Floyd. Alguém cantando “Last Kiss” do outro lado da linha.E Metallica? Unforgiven, realmente imperdoavel.

Pearl Jam. Devo créditos a uma ex-namorada que virou amiga por me apresentar essa banda. (Mas isso é outra história).

Lembrar como era Cantar “Don’t Look Back In Anger” nas aulas de Física no 3º ano ainda me fazem entristecer.  Lembro do dia que comprei “Fireworks” do Angra, ainda hoje sinto o cheiro de nuggets que mamãe fazia nessa epoca quando escuto. Alice In Chains unpplugged era tão bom que eu rodava a cidade toda dirigindo sem direção só pra ouvi-lo todo. E quando começava a tocar “Fear Of The Dark” 14okm/h era devagar. Sensacional.

Sentir o coração bater mais rápido. Ou então as lágrimas que escorriam quando ouvia R.E.M. de “It’s the End…” a “Everybody Hurts”…”Punk Rock Song” emendada de “American Jesus” faziam o meu quarto parecer um mundo intocável. Minha vida, meu filme.

E aí vinha Green Day. “When I Came Around”, “Basket Case”, “She” espancando meu cerebro. Caras e air guitars. Gritando até o pulmão cansar e a voz falhar. Porra, Dave Grohl, porra! Quantas vezes tu me fez melhor. Enquanto eu brigava com namorada, mãe, cachorro, papagaio e esmurrava as paredes e portas. (Era melhor que chutá-las, garanto)

Era uma época boa.

Que não volta mais…

Mas eu ainda posso lembrar!

Trilha Sonora – 1

24 de julho de 2009

Enquanto aguardamos o novo Cd do Pearl Jam que vai ser lançado em Setembro de 2009. Resolvi postar pra vocês o bom album de 2006.avocado

Faixas

  1. “Life Wasted” (Stone Gossard, Eddie Vedder) – 3:54
  2. “World Wide Suicide” (Vedder) – 3:29
  3. “Comatose” (Mike McCready, Gossard, Vedder) – 2:19
  4. “Severed Hand” (Vedder) – 4:30
  5. “Marker in the Sand” (McCready, Vedder) – 4:23
  6. “Parachutes” (Gossard, Vedder) – 3:36
  7. “Unemployable” (Matt Cameron, McCready, Vedder) – 3:04
  8. “Big Wave” (Jeff Ament, Vedder) – 2:58
  9. “Gone” (Vedder) – 4:09
  10. “Wasted Reprise” (Gossard, Vedder) – 0:53
  11. “Army Reserve” (Ament, Vedder, Damien Echols) – 3:45
  12. “Come Back” (McCready, Vedder) – 5:29
  13. “Inside Job” (McCready, Vedder) – 7:08

Pearl Jam – 2006 – Clique Aqui Pra Baixar

Destaque pras sensacionais “Life Wasted” – “World Wide Suicide” – “Come Back” e “Gone”

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