No meio de tudo: um sorriso

27 de outubro de 2011

No meio de tudo um sorriso, assim, quase roubado, tirado a força ou extirpado. Na verdade, extirpado é a palavra certa, mas achei muito dura pra começar a contar como me apaixonei por você. Na verdade, qualquer palavra é estranha demais pra iniciar uma história de amor. Talvez por isso antigamente se começava com “Era um vez…”, mas não era uma vez. Eram todas as vezes. Eu te amei todos os segundos, e ainda amo com o pulsar do meu coração gelado.

Voltando ao sorriso. Era seu. Era o sorriso com que me acostumei a acordar todo sábado pela manhã, mesmo tendo que levantar parecia pedir pra ficar mais um pouco, contemplar mais um pouco. Abrir a janela e deixar o sol entrar pra observar o quanto que te amo. O quanto oa azulejos da tua pele são projetados o quanto a gente pode ser feliz entre lençóis. Eu queria o fim do mundo no meio do café da manhã.

Aprendi a falar inglês com perfeição, deixando os erros de pronuncia para as letras da música do u2, mas você sempre me corrigia quando eu fazia o som de F em With or Without You. Mas com ou sem você tudo o que eu queria era o sorriso e o sol entrando pela janela numa manhã qualquer. Era disso que o mundo poderia ser feito, além de sorvete de doce de leite e bolinhos de tapioca.

Quantas vezes nos perdemos na cozinha em apostas sobre quem deveria lavar a louça, jogar o lixo fora e pedir para o cachorro não morder mais os pés do sofá. Sempre esqueciamos de regar os vasos de planta comprados no supermercado no mês anterior. Veja se pagamos a conta do gás, que a água não está mais esquentando, amor. Se faltar calor a gente esquenta, você responde da sala com as palavras cruzadas na mão e emenda perguntando quem é o técnico do Santos em 2011. Respondo Muricy e você resolve que temos que ir ao Mercado Municipal comprar murici para um doce que sua vó ensinou em um dia chuvoso em uma fazenda em Santa Inês.

Então a gente atravessa várias avenidas de mãos dadas contando quantos carros vermelhos cruzam a cidade atrás de um pouco mais de atneção. Peço um beijo, mas beijos pedidos são como cliques formatados em links indesejados e você não dá. Roubo então e começamos a nos amar novamente em uma segunda-feira no meio da Avenida Paulista. Mantemos o costume de simular dancinhas nas faixas de pedestres. Um simulacro.

E você sente ciúmes das palavras que eu uso, onde encontrei, onde as conheci. Será que foi alguma loira vinda de outro estado que te disse tais coisas. Suspeita da minha cultura e desdenha do meu vocabulário. Então eu conto alguma estória libidinosa que faz você repensar as críticas e me chama de idiota. Eu sempre concordo que sou. Mas o amor nos deixa idiota e isso é que nos faz temer os apaixonados.

Mas eu não tenho medo de você, apenas te amo. Observando o seu sorriso novamente, de longe, no meio da multidão. Contemplo o jeito que você se afasta e ruma ao metrô enquanto eu tomo mais uma xícara de chã em algum café frances do centro de São Paulo. E sussurro um Te amo quase soletrado.

 

 

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Doce, salgado e guarda-chuva

24 de outubro de 2011

Devo ter perdido alguma coisa ao atravessar a faixa de pedestre que liga a infância a fase adulta. Algum ponto que não consegui ligar, sabe quando falta aquela letra fundamental da sua palavra cruzada? Assim eu tenho andado, procurando pelos becos da cidade achar alguém ou alguma coisa que me diga o que foi que aconteceu, onde foi o erro, de onde devo começar para que tudo possa se acertar.

Ela não dormiu essa noite, novamente se perdeu entre copos de tequila e cigarros baratos na Rua Augusta. Toma sustos a cada esquina como quem deve muito na praça e não quer ser achado, ela só quer saber de rebolar sua saia roxa por onde não existe ninguém que possa julgar o seu certo e o errado do resto do mundo. E eu nessa estória como fico?

Fico em casa seguindo os passos dela da minha janela, como um perseguidor psicopata de pijamas litrados e olhos vermelhos de tanto perder tempo procurando no vazio do seu retrato alguma explicação. Eu não amo o mar, nem as escolas de samba com suas mulatas bundudas me fazem pensar em você. Nem quando gritam na sala de aula perguntando onde foi parar o amor, eu pisco. Pisquei nos momentos mais engraçados, perdi as piadas deixei ela ficar na minha frente na foto da formatura. Mas quando estás com ela, você é minha doce menina.

A essa altura, nossos caminhos já estão bem distantes. Ela fala quatro ou cinco linguas e conhece pelo menos 200 autores de clássicos da literatura enquanto eu aprendo inglês e não faço a mínima ideia de quem seja Machado de Assis. Já ganha milhões por ano enquanto minha mãe paga minhas contas via sedex. E eu na janela observando ela conversar com a tia do cachorro-quente. Quem dera ela me visse mais uma vez.

Subisse as escadas devagar enquanto assobiava aquela canção do Guns n’ Roses que você tanto gostava. Nós três daríamos um bom casal. E poderiamos até sair por aí no carro conversivel que ela deixa estacionado na minha garagem. Enquanto você faz a menina doce e sincera, ela seria o toque salgado e excitante da nossa trilogia. E eu? Eu seria apenas aqueles enfeites, tipo um guarda-chuva num drink qualquer. Descartavel, desnecessario, totalmente inutil.

E agora vocês duas descem a rua para um lugar qualquer, dividirão beijos, queijos e baseados. Serão felizes como no dia em que conheci você, ou o dia em que ela resolveu me dar uma lição que nunca esquecerei. Mas qual era mesmo a lição? o mundo às vezes parece tão pesado.E essa modernidade é muito veloz para mim.

 

Sempre os melhores sapatos…

19 de outubro de 2011

Enquanto observava a imensa coleção de sapatos dentro do armário desenhado e sonhado por tantos e tantos anos, ela viajava no tempo, nas lembranças das ocasiões em que foi feliz usando cada um daqueles pares. Os amores perdidos, os dias de chuva em que tenou em vão não estragá-los. Os primeiros e últimos beijos, as lágrimas, tropeços e pedidos de casamento. Sim, no plural.

Queria jogar fora, queimar, doar para mulheres que ainda podiam ser felizes, mais idiotas por acreditar que existe amor, que dura para sempre. Ela era o retrato máximo da desilusão, onde já se viu uma mulher querer se desfazer de sesu sapatos sem a intenção de substitui-los? Queria agora viver de havaianas ou pantufas, passar o dia deitada tomando sorvete e assistindo Bridget Jones, mas odiava esse filme.

Cortou seu cabelo com a faca de pão, na verdade, nem sabia que isso era possível. Decidiu começar a beber coisas mais fortes que cerveja. Desistira de comprar um cachorro para fazer companhia. Resolvera que agora iria trabalhar em casa. Home office ou algo do tipo. Prisão domiciliar por contra própria. Depressão voluntária. Luto.

Ligava para a sua mãe três vezes ao dia. Só pra ter alguém com quem conversar. Entrava em salas de bate-papo na Internet só pra contar seus problemas a estranhos tão estranhos quanto ela. Passava o dia inteiro ouvindo Julio Iglesias no volume mais alto, sem dar ouvidos aos avisos do síndico. Sei lá. Acumulava multas, sonhos e caixas de Rivotril. Escrevia poemas, sempre os mesmos temas, sempre dizendo: “É por você que eu fecho os olhos quando penso em amor”.

Por que a vida é tão cruel? Por que a morte é uma visita que abre a geladeira e põe os pés na mesinha de centro. Até se perdia usando clichês banais como “os bons morrem jovens” e canções do Renato Russo numa terça-feira fria qualquer.

Estava sempre com a camiseta do Pearl Jam, aquela com o bonequinho que ele sempre sonhara em tatuar, mas que nunca tivera tempo. Deixando o cheiro gasto e manchado com a enxurrada de lágrimas despejadas enquanto assistia ao filme do Thor pela enésima vez. Sempre com mais um pote de sorvete de doce de leite ao pé da cama. Esperava que de repente ele abriria a porta do quarto com flores e um sorrindo bobo, de sempre, dizendo que era só brincadeira.

E por fim, escolheu virar uma Julieta. Não ir à missa de sétimo dia e pegar carona na viagem rumo ás escadarias do paraíso junto do seu amor. Se encheu de comprimidos dos mais variados como boa hipocondriaca. Sabia que casais assim não entram nos livros de estória ou romance. Mas memso assim resolveu morrer com o seu melhor par de sapatos.

 

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