Macia como neblina

28 de abril de 2011

Minha avó comprou um computador. Eu não faço ideia pra quê, mas não falei nada. Quando vou visita-la ficou na sala tomando Coca-Cola assistindo a TV com apenas cinco canais, enquanto ela brinca com as teclas e tenta acessar sites de receita ou coisas afins.

Mas o que me chama atenção é o jeito como ela trata o teclado. Digita cada letra com toda delicadeza que adquiriu por anos e anos, toca as teclas como se fossem diamantes se encaixando perfeitamente numa dança calculada. Não tem a rigidez bruta do seu tempo de datilografa. Tem medo de machucar. Tem medo de magoar.

Costumo tratar as mulheres com essa mesma delicadeza. Moderando os abraços apertados, as palavras afiadas e os dias de mau humor. Tem que trata-las como um mosquiteiro de renda que pensamos que qualquer rasgo irá inutiliza-lo para todo sempre. Tento despir de toda minha brutalidade para minha mulher.

Claro que na hora do sexo volto a ser o homem das cavernas porque senão seria tedioso demais, meloso demais. Mas no resto do dia tento ser suave. Tento me equilibrar lá do alto. Observando a velocidade do vento temendo não machucar.

Minha vó não é delicada com quase nada. Vejo o modo como ela trata o controle remoto. Parece que sempre a pilha está fraca e ela aperta com força tanta força que até eu temo pela vida do pobre aparelho.

Eu não costumo ser leve na vida, eu xingo, esbravejo e não ligo muito para o sentimento alheio. Da porta pra fora. Quando chego em casa e vejo as lágrimas nos olhos dela por causa de um dia de trabalho ruim. Eu me visto de ternura. Uma ternura tão macia como neblina. E a gente se ama como bichos em um zoológico.

Tem que ter ternura, porém sem perder a dureza. Não se pode amar em meio-termo, meio-mastro. Temos que hastear a bandeira e declarar guerra, mas sem torturar os prisioneiros.

Até nas brigas eu tento ser calmo e paciente. O que a irrita ainda mais. Quanto mais ela aumenta o tom de voz, mas eu abaixo o meu. Sigo argumentando a minha certeza, apesar de ter certeza que ela não me ouve. Quando ela se acalma, eu vou explicar tudo novamente e a briga se estende para uma prorrogação desnecessária.

No final, a gente se abraça e divide um pote de sorvete de doce de leite assistindo a um de nossos trezentos canais de TV. Eu sei que o amor está na escassez, na ausência e que é difícil transporta-lo para o dia-a-dia, mas eu estou tentando.

Vamos medir nosso amor?

26 de abril de 2011

Eu sempre pensei que amor não poderia ser medido. Não tinha nada a ver com matemática. A gente amava e pronto. Ponto Final. Não exigia complemento, não pedia explicação. Era uma grandeza indefinida. Não precisava ser quantificada.

Foi quando minha prima de quatro anos entrou em prantos pela sala e abraçou bem forte a mãe dela. Era um choro sincero que molhava a blusinha rosa dela. Eu fiquei assustado, não tenho muito tato com crianças.

“Eu não consigo amar você como eu amo o vovô e a vovó”. Entre os soluços e as lágrimas ela repetiu essa sentença três vezes. Eu arregalei meus olhos. Também amava o vovô e a vovó. Também amava minha mãe. Mas nunca tentei medir. Só amava.

– Giulia, não precisa chorar. Eu te amo, minha filha. Pode amar o vovô e a vovó em primeiro lugar. Pode amar quem você quiser. Eu te amo. Fique calma. Não é preciso esse desespero. – minha tia com uma voz que acalmaria até um leão em fúria foi amansando a tristeza da garotinha.

“Já sei, mamãe, eu amo vovó e vovô como se fosse o Universo e eu amo você daqui até a lua. Pode ser? O universo é infinito e a lua bem longe.”

Pronto, uma criança sabe medir e quantificar o amor. Coisa que nós adultos de alma perfurada não conseguimos fazer. Talvez para não magoar as pessoas que ficam em posições inferiores. Ou para não magoar a nós mesmo quando posicionamos alguém que parecia imprescindível lá embaixo.

Cada amor é diferente. E muda. O amor não é estático. Também não se apaga. Segue uma chama lá no fundo. Como um fio de cabelo descoberto no baú de família. Não se pode acabar um amor. Pode diminuir ou aumentar.

– E o primo, Giulia? O quanto você o ama?

– Eu amo ele daqui até em casa.

Giulia costuma medir o amor como distância. A casa da vó para a casa dela é atravessar a cidade. Já é muita coisa. Meu amor está no outro lado do país. E eu a amo sem medir, sem quantificar. Não aprendi nada com as crianças.

* essa é a minha versão de um dialogo da minha amiga Lya com sua filha Catarina. Prometo que faço uma versão para homenagea-la. Estou trabalhando nisso *

Não reciclarei você.

25 de abril de 2011

Eu não consigo descartar você. Em um deck cheio de cartas melhores eu sempre escolherei você e ficarei apegado ao que tenho em minhas mãos. Não consigo largar. Não sou bom em jogar certas coisas foras. Minha casa é um cemitério de memórias que machucam e mesmo assim não tenho vontade alguma de me desfazer delas.Tenho sempre a esperança de transformá-las em coisas boas e então não quero a sensação de estar perdendo algo. Guardo tudo.

Minha geladeira cheia de restos de comida parece o meu coração. Pedaços que não servem pra nada, alguns estragados e cheirando mal. Eu apodreço com meu passado. Queria poder jogar tudo que tem seu cheiro pela janela. Separar o lixo em reciclavel e aquilo que não serve nem pra ser consertado. Problemas. Você.

Ninguém imagina o quanto é torturante fazer faxina na minha casa, arrumar meu quarto, ter que me desfazer das coisas que semrpe me acompanharam por toda essa longa caminhada. Desista do silêncio e grite. Enquanto eu passo a vassoura nos seus cabelos largados pelo corredor. Invejo as pessoas que trocam de amores a cada semana. Conseguem jogar tudo fora e começar de novo. Eu insisto em castelos em ruínas. Quero seu sorriso mesmo sem dentes.

Por que tudo tem que acabar um dia? Por que não posso dar meu coração e minha mão pra você, apenas uma vez? Isso não tem que acabar, não dessa vez. E você de lá pergunta se ainda vou precisar de você quando tiver 64. Eu não me imagino não precisando do seu amor e de você de forma alguma.

Sim, amor, eu vou te amar mesmo quando não puderes andar sozinha. Quando as rugas tomarem conta de seu rosto angelical. Seus cabelos estiverem ralos e grisalhos. Quando você insistir em assistir aquele filme que não tem mais na locadora por lembrar o nosso amor. Talvez eu tenha que contar a nossa história todos os dias pra você. Lembrar dos seus remédios. Regar todo o seu jardim. Farei com um sorriso. Por que eu não gosto de largar nada. Eu insisto que tem um lado bom. E hoje, eu amo você. Vai ser sempre assim.

Sobre nada especial.

22 de abril de 2011

Não para de falar. Continua. Gosto de ouvir tua voz pelo telefone preenchendo minha madrugada tal um livro de colorir. Você é a música que espero ouvir quando ligo o rádio. É a certeza de que não estou sozinho nessa cidade cinza. É arriscar que ainda tenho um futuro apesar de tudo que passei. Quero seu abraço depois da meia-noite. Dormir pelados ouvindo os raios gritarem com o mundo lá fora.

Não quero ir embora. Não quero ter que acordar cedo, mastigar meus pesadelos e me despedir dos seus olhos que pedem mais uma chance. Outra vida. Uma vida inteira.PAra com isso. Mas não pare de falar.

Repetir infinitamente que gosta de mim, com medo de dizer que ama. Dar um passo maior que as pernas. Abraça forte o meu corpo fraco apenas para não deixar o mundo girar. O tempo para sim, amor. Enquanto você estiver do meu lado. Nunca pensei que existisse essas baboseiras, mas existem. Como existe coelhinho da Pascoa e lobisomem.

Não pude gritar gol. Eu não estava ali. Você falava com alguém pelo telefone. Sua mãe, talvez. E eu não poderia estar ali. Não deveria estar em nenhum lugar. Não pare de falar. Mesmo que não seja comigo. Mesmo que eu não seja amigo. Só você e a televisão muda em minha frente.

Vejo você apreciando a vista. Prédios e tédios em volta do hotel. Você olha pra mim pedindo perdão. Pedindo tudo que eu já dei de bandeja. Nâo sei se me deseja ou precisa de mim. Eu esqueço o silencio, os incendios e a chuva lá fora.

Não demora. Vem pra cá. De braços abertos e corpo nu. Numa canção desafinada que só você sabe cantar. MAs não pare de falar. Mesmo com meus olhos fechados eu sei que você está aqui. Ali. Em qualquer lugar. Volte a me amar. Sei que aqui não tem vista para o mar. Mas o mundo é grande o bastante pra você me encontrar. Venha.

E eu fico aqui olhando as nuvens de chuva se formando no céu e lembro de você. Que a chuva traga você. E Alivio. E qualquer coisa que me faça sorrir outra vez. Mais um vez.

apenas crianças perdidas

21 de abril de 2011

Ah! Brincar de correr ao redor do quarteirão era tão legal. Esquecer que a chuva poderia nos resfriar e mesmo assim não ligar pra nada mais que correr. Com o vento molhado lambendo meus cabelos e os grudando na testa. Sem problemas. Hoje o único quarteirão que cruzo é o do meu apartamento para o seu. Num vento frio paulistano cuspindo poeira nos meus cabelos ralos e me fazendo tossir.

Ver os seus olhos verdes pedindo pra que eu não volte. Que meu lugar é ao seu lado, mas eu sei que vou espirrar se você continuar a pedir coisas que não posso doar. Meu coração já bate em outra estação, por outra morena dos lábios de mel. E eu insisto em te visitar por costume, como uma abelha que repete as flores preferidas mesmo sabendo que o mel acabou. Um velho cão guia aposentado que late pela janela só pra fingir que é cão de guarda.

Já não corro, ando devagar, contando os passos entre nós. Contando os nós que insisti em dar nas cordas que seguram o meu passado a você. Não tenho pressa, não tenho medo. Cabisbaixo eu sigo cantarolando Silverchair e você da janela do oitavo andar grita meu nome. Eu finjo que não ouço, finjo soluço e sigo mexendo nas moedas no meu bolso.

É triste dizer adeus, mesmo quando não se diz nada. Apenas se vai. Apoia as mãos na mesa, se levanta, vira as costas e vai. Não olho mais pra trás. Não trago comigo nenhum sentimento. Só o cimento é meu companheiro. Atravessando as calçadas da vida de volta ao meu mundo. Ao meu castelo em ruínas.

Deixo com você os meus segredos, se quiser pode jogá-los na internet. Pode esculhambar minha imagem, eu já não me importo. Minha morena está esperando de braços abertos e calcinha fio-dental. Você, loirinha, só sabe me cobrar e perguntar onde eu estava, de onde é esse bafo de cachaça, cachorro.

Alguns se importam com o crescimento outros com talento. Eu acredito no amor. Mas o amor tem mentido demais pra mim. E toda vez que atravesso o quarteirão pra te encontrar eu sinto o cheiro do mar. Em São Paulo. Tens noção de quão grave isso é?

Como quando criança, não me protejo da chuva. Sinto vontade de correr ao redor do quarteirão. Mas meus joelhos doem. Meu peito bate desacelerado, como um piano desafinado. Acho que não vou pra casa essa noite. Quem sabe um bar na Augusta. Afrouxar a gravata, tirar o terno molhado e deixar alguma mulher da vida viver por mim.

Talvez eu seja assim. Fácil. Um cão guia perdido, que não sabe pra onde ir nem porque vamos chegar. A rosa sem nectar. Me dê seu mel e vamos nos lambuzar. Vejo as crianças no predio jogando bola. Dá vontade de largar tudo. E voltar. Pra casa. Abraçar minha mãe e pedir que não me largue. Durma comigo. De luz acesa.

No fundo todos somos crianças perdidas.

Data venia

19 de abril de 2011

Um envelope pardo embaixo da minha porta. Dentro havia uma revista do Thor e uma carta escrito por você. Não era uma carta propriamente dita, era mais um desabafo, “que a essa hora da manhã já não importa o nosso bafo” . Dizia mais ou menos assim:

“Vou começar com aquilo você quer esquecer. Os termos juridicos. Então, meu amor, data venia, você é um idiota. Sim. Eu quero te xingar até a última geração de georges que possa existir. Caso você cometa esse crime que seria se reproduzir. Você conseguiu o que queria, o título mundial de idiota do século. Quase um Pelé da idiotice. Isso mesmo, com aquela maldita camisa branca numero 10 nas fotos. Eu não consigo te esquecer, maldito. Penso em você toda noite antes de dormir. Já escrevi e re-escrevi milhões de versões dessa carta, ou melhor, desse desabafo. (Agora você deve tá rimando com aquele pedaço de “Amigo Punk” que diz que já não importa o nosso bafo. Eu te conheço o bastante pra saber que você não presta. Sim, está escrito em tua testa e nesses seus olhos pedintes. Escuta essa. Estou mais feliz longe de ti. E tem outra coisa. Não dá pra conversar com homens que tem mentalmente a metade de sua idade real. Eu escrevo isso tudo porque meu gravador acabou a pilha e não quero ser moderna pra misturar você com internet. PS. Achei a porra da revista que faltava pra tua coleção. Sim, eu pensei em ti. Não sei porque, mas pensei.”

Não assinou, mas eu reconheci a sua letra. Apesar de todas as outras antes de ti poderiam ter escrito também. Obrigado pela revista. Mas como sempre não era essa. Eu repeti 9238492384923 vezes que era o número 54 que faltava e você comprou o número 45. Como sempre não me houve. Mas tudo bem. Eu não ligo mais. Não quero mais saber de best sellers autografados. E nada vai pagar o exemplar assinado pelo Stan Lee que rasgaste. Posso ter 14 anos ou 5. Sou idiota mesmo. E sempre disse isso antes de você se apaixonar.

E se não resolveste o problema de insônia. Pense em mim. Sim, pense com tanta raiva, tantos termos em latim que aparecei em forma de cachorro e começarei a latir. Quem sabe eu uive pra você na janela. Talvez faça uma serenata com alguma música do Zeca Baleiro. Eu te amo, mas data venia, você é maluca.

Sweetest Thing

18 de abril de 2011

Pedir licença pra poder entrar no seu coração. Que coisa mais antiquada, que coisa mais idiota. Eu quero mesmo é arrombar com pé de cabras, usando toda a fúria louca como se fosse Jack Nicholson em “O Iluminado”. Arrebentar todas as suas chances de defesa, efeito-surpresa. Presa fácil pro meu olhar 43.

Estragar os dentes com palha de aço, eu acho que não queria fazer sentido. Falo coisas que não tem liga pra ver se você me liga e pede explicação. Quero ouvir sua voz numa madrugada chuvosa de Abril. Enquanto saboreio coxinhas de frango numa bacia com algum nome engraçado. Você me faz um favor?

Eu não digo essas palavras mágicas, como minha mãe as chamava. “Com licença” – “Por favor” – “Obrigado”. Era praxe familiar de toda boa sociedade usa-las. Eu sempre fui um rebelde das palavras. Arrotava alto na mesa com a o sorriso complacente do meu pai interiorano. Que palitava o dente e fazia aqueles barulhos irritantes.

Obrigado por me amar. Por me deixar entrar na sua humilde residência coronaria. E quando eu quiser sair de algum modo, até defenestrado pelos seus poros eu pedirei licença. Era assim que você me queria, não era? Com o cabelo arrumado, gravata listrada, bons modos e falando francês.

Pode procurar outra porta. Talvez não seja dos desesperados, nem pegadinha do malandro. Continuarei aqui sem pentar o cabelo ou fazer a barba, andando de havaianas e calça jeans, arrotando alto e limpando os dentes com barulhos que incomodando e, meu bem, seguirei falando meus improperios em italiano, ok?

Eu já cansei de repetir texto após texto que eu não sou o cara pra você. Deixe-me em paz. Eu não vou mudar. Não quero. Quero seguir com meus erros e defeitos até o fim. Se eu fosse começar tudo de um modo diferente, aposto que faria tudo igual. Não adianta, porra!

Você diz: “I still haven’t found what I’m looking for”. E eu repito com adaptações: “You can’t live with or without me”,

E a gente segue nesse papo u2 meio nonsense. Eu lutando contra todas as suas campanhas beneficentes. Você querendo incluir uma pitada de social no meu wild side. No meio do show no Morumbi com uma quase-desconhecida.

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