Resolução.

22 de fevereiro de 2011

“Não dá mais. Não quero mais namorar”, assim ele começou a conversa com a namorada na mesa do jantar numa quinta-feira cinza de Maio. Ela ficou catatônica, prestes a começar um chororô e acusações baratas de novela mexicana. Recuperou a consciência e quando recuperou o folego para indagar, ele emendou sua palestra.

Isso mesmo, amor. Não dá pra ser alegre o dia inteiro ao seu lado. Eu pensei que viver com você numa versão adaptada à vida real de “Cotidiano” do Chico Buarque fosse tudo que eu precisava. O seu beijo em quatro sabores distribuídos igualitariamente pelo curso do dia. Hortelã. Café. Paixão. Pavor. Mas você mudou.

Cansei de tudo. De ser pressionado por todos os lados, dar resultados pra tudo, ter filhos, escrever um livro. Quero acordar ao meio-dia novamente, escrever crônicas sobre amores sabotados, trabalhar de casa vestindo meu pijama.

Não aguento mais esse seu jeito de reclamar de tudo que eu faço e depois pedir desculpas, não quero mais imaginar no que você está pensando se você nunca me conta o que está acontecendo realmente. Cansei de você me pedindo pra parar de beber. De você cuidando de mim.

Enchi o saco desse seu jeito atencioso de me perguntar como foi o dia. Do jeito que você divide todos os seus sonhos e planos comigo. Do jeito que sorri pra todo mundo que passa na rua. Do seu olhar pedinte quando diz te amo. Quer saber. Te amo. Casa comigo?

Então ele tira o anel do saco de pão intacto sobre a mesa. Aquele mesmo anel que ela paquerava na vitrine todos os dias quando almoçavam no shopping e ele aparentemente nunca demonstrou interesse. Ela não sabia o que pensar. As lágrimas brincavam de rapel pelo seu rosto a baixo e desembocavam no seu sorriso escancarado.

Pra ele, aqueles segundos antes do sim ou não eram como o andar do condenado rumo à cadeira elétrica. O coração desacelerou, a mão esquerda começou a tremer sem parar a direita a suar. Tudo estava parado. As três letras saíram da boca dela em câmera lenta. E o ‘sim’ entrou pelo ouvido dele com um som distorcido que parecia ‘não’. E ele baixou a cabeça e num quase suspiro final perguntou “por quê?”. Ela sem saber o que tinha acontecido repete incessantemente o sim. Umas 8 vezes pra ser preciso.

…e então se acalmaram com um beijo com sabor de amor…

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2 Respostas to “Resolução.”


  1. PUTA QUE PARIU, SENHOR GEORGE RAPOSO! ❤

  2. Du Prado Says:

    Parabens, cara. Seus textos sõ ótimos.

    Abraço.


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