Espere que eu vou descer

25 de fevereiro de 2013

metro+vazio

Era uma tarde tranquila em um metrô semivazio. Nem parecia São Paulo. Nem parecia segunda-feira. Eu fingia ler meu jornal como se ainda existissem pessoas que leem jornal nos bancos do metrô, quem dera eu tivesse um chapéu e um bigode para viver nos anos 30. Existiam metrôs nos anos 30?

Eu era a última pessoa que parecia estar em outra época, vestia uma camisa do Alice In Chains e amarrava meu cabelo com elástico de dinheiro. Como se chama esse elástico aqui em São Paulo? Lá de onde eu venho se chama liga. Liga. Engraçado que ela não me ligue mais.

Eu não tenho destino. Só quero ler o meu jornal em paz. Indo e vindo na linha verde do Metrô. Entre as Vilas, Madalena e Prudente. Talvez faltasse um pouco de qualquer coisa na minha vida. Ter tempo livre para ir e vir debaixo da terra não é coisa de gente normal.

Eu não queria que ela me ligasse. Não queria que dissesse que ia buscar o resto das coisas lá em casa. O sinal do celular quase não existe no metrô. Não consigo ler direito o jornal com todo esse balanço, mas eu finjo. Não olho nos olhos da menina de vestido vermelho em pé defronte a porta. Não quero ligações remotas.

Estou de férias. Não quero viajar. Apenas descobrir o que acontece no mundo fora do meu quarto semivazio de uma segunda-feira a tarde. Quem lê o jornal pela tarde? Talvez alguém que escreva uma história de amor sem saber que existe alguém roteirizando a nossa vida. Quero um cigarro. Não fumo. Quero um chapéu e um bigode bem fino para viver nos anos 30.

O amor sempre vence. Sempre ultrapassa na última curva. Sempre marca aos 48 do segundo tempo. Uma cesta de três do meio da quadra. É uma aposta muito difícil. Talvez eu ande até o jóquei e aposte no cavalo azarão. Sinto que estou voltando no tempo. Mas o meu jornal não permite mudar. A data está lá sorrindo e acenando para mim.

Meu time venceu. O dólar subiu. Alguém morreu atingido por um rojão na Bolívia ou foi no Peru? Não quero segredos, quero um chá gelado para me matar de frio. Tomara que ela não tenha jogado a chave de casa fora. Tomara que já tenha levado tudo. Não quero olhar nos olhos de ninguém. Nem nos das fotos do meu jornal.

A casa semivazia ecoando meus discos de grunge que há tempos eu esqueci. Não quero guardar mais segredos. Não quero ter medo de trovões e relâmpagos. Vou deixar ela ir embora mesmo querendo que fique um pouco mais. Mais uma dose. Um cigarro talvez. Não fumo. Nem leio jornal.

O amor sempre ganha. Oscar de melhor filme estrangeiro. Quem liga pra isso? Quem liga para qualquer coisa que não espante a solidão. Minha mente semivazia espera que o mundo comece a lotar o vagão. Eu não quero mais ler o jornal. Não quero esperar o dia passar. A vida fechar a porta sem a sirene avisar. Espere que eu vou descer.

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