Não sei falar amor em francês

21 de janeiro de 2013

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Ninguém gosta de falar de amor. Nos bares da cidade só querem falar de sexo, futebol e rock’n roll. Os homens estão perdendo o romantismo a cada diluição genética de seus pais. O amor está escorrendo pelo DNA até não ter mais nada para amar.

O dia todo ele para em frente a TV trocando os canais esperando achar alguma coisa interessante, mas ele não tem achado nada que chame a sua atenção. Queria viajar e conhecer os Países Baixos. Experimentar novas drogas e parar de ouvir músicas que falam em jogar a mulher na Fiorino.

Sua Fiorino segue estacionada no mesmo lugar desde a semana passada. Não quer mais nada. Parece um peixe fora d’água tendo que sofrer por amor enquanto todo mundo não está nem aí. Ele queria se desligar. Esquecer-se de tudo até dos olhos negros da sua morena.

Ela foi morar na França, fazer mestrado ou especialização. Ela não dera muitos detalhes e ele não queria mais nem saber. Parecia o Gregório Duvivier naquele filme cult que assistiram no verão passado. Talvez ele um dia descubra qual Pokémon ela preferiria.

Era um nerd de cabelos desgrenhados e óculos de fundo de garrafa. Não sabia correr direito, por isso fingia um problema no joelho. Não era um cara normal. Já cansara dos programas culinários na televisão. Desistira de aprender a cozinhar quando quase colocou fogo no apartamento.

Morar só é a melhor coisa para aqueles que amam a solidão. Ele amava muita coisa. Todas as suas coisas. Suas palavras. Amava até as frases dos filmes que ainda nem tinha assistido, mas ele não queria amar. Queria que o amor tivesse sido diluído em sua árvore genealógica. O amor devia ter parado no bisavô Astrogildo.

Fazia tempo que não checava as correspondências, nada correspondia as suas esperanças, apenas contas e contas e um cartão postal da Torre Eiffel. Ele odiava o sotaque francês, o arco do triunfo e Zinedine Zidane.

Poderia facilmente parar de comer croissant se não fosse seu vício matinal com geleia de morango. Já nem lia o jornal. Daqui por diante não faço mais nada pelo amor. Que o amor exploda junto com a embaixada francesa no Afeganistão.

– Encomenda para o senhor.

Uma passagem só de ida para Amsterdam.

“Pode ser nossas férias mais felizes juntos. Venha logo, não traga muita bagagem e pelo amor de Deus nada daquele sua camisa do Pearl Jam. Eu te amo. Morena”.

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Aeroportos sempre são chatos. Horas e horas esperando o vôo. Resolvi comprar um livro. Entre todos fui seduzido por um de tirinhas do Snoopy. Na minha infância sempre gostei do desenho do Charlie Brown que passava na TV. Queria ter a minha própria garotinha ruiva. Na verdade, tive várias. Namoradas “imaginárias”.

quem dera eu a ter beijado

Rio de Janeiro. Cidade maravilhosa, my eggs. Chuva e frio. Só. Sentei e começei a folhear o livreto. Dei algumas risadas. Achei tudo engraçado, imaginando que se lêsse aquilo em casa, daria apenas um sorriso amarelo, sozinho no meio de pessoas estranhas o sorrisinho já virava uma leve risada. Se tivesse com alguém conhecido certamente gargalharia.

Logo, me entendiei com as tiras. Resolvi passear pelo saguão. Apenas com o livreto em minha mão esquerda, sim, sou canhoto. Busquei um cappuccino de caramelo e voltei pro setor de embarque. No caminho avistei-a…

Meus olhos não encontraram os dela, mas pensei: Será? Não pode ser. Voltei pro Charlie e seus amigos. Sempre olhando de soslaio pra ela e todos os seus movimentos. Lia sem nem saber o que tava lendo, acelerei meus movimentos, mechia no cabelo sem parar, ajeitava os óculos, esqueci da porra do café. Esfriou. Ficou ruim. Continuei tomando como se fosse um francês em algum café de Paris com vista pra Torre Eiffel. Mas sim, minha Eiffel estava ali. Toda de preto, ouvindo seu Ipod. Tentei imaginar o que ela ouvia. Talvez uma Carla Bruni, não. Lembrei do Sarkozy e mudei de idéia, por um segundo pensei que ela ouvisse um Rap Americano. Mas também não era, não podia ser. Definitivamente, pelo olhar era uma mulher cantando. Não sou tão fã dessas cantoras novas. Mas senti que estava certo.

Paixão à primeira vista. Primeira vez. Será? Fiquei meio confuso, mas não podia tirar os olhos daquela criatura. Chegava até a ser engraçado. O bom que esse joguinho solitário de platão fazia as horas passarem mais rápidas. As tirinhas já não faziam sentido algum. Minha cabeça não pensava em outra coisa, a não ser um jeito de chegar dizer ‘oi’. Cadê a tal coragem? Lembrei de outro personagem, o Leão do Mágico de Oz. Será que ele também possuia uma ‘leoazinha ruiva’ pela qual era apaixonado e nunca teve coragem de chegar? Será? Drogas, maldita timidez.

Resolvi chamá-la de Eiffel, parece até uma bobagem já que eu sabia o nome dela. Na verdade, já tinha visto algumas vezes lá na nossa cidade (quando eu era pequeno em Barbacena). Ahn? Anula a primeira vista? Por que? Eu que mando! A história é minha e conto do jeito que quero. E quem se apaixonou? Então pronto. Cale-se!

A Eiffel, a garotinha ruiva do momento. Por um instante nossos olhares se cruzaram, ela deu um semi-sorriso. Minha timidez crônica me fez desviar o olhar. Não sabia o que fazer, o que falar. Já conhecia ela dos orkuts da vida, mas será que ela sabia quem eu era. Com certeza não.

VÔO 2145 COM DESTINO A SÃO PAULO EMBARQUE NO PORTÃO 14.

Agora já era, perdi a chance. Vamos pra fila. Joguei o café gelado em uma lixeira, levantei-me devagar pra tentar ficar o mais perto possível dela, na esperança de um ‘olá’.

Pronto, ela ficou logo atrás de mim na fila, era agora a hora de falar, mas ela nem olhou pra mim e nem nada, melhor ficar na minha. Definitivamente não me conhece. Não falarei nada. O que será que ela vai fazer em SP? Assistir ao show que nem eu? Não faz o estilo dela. Acredito que encontrará um namorado, é isso, um namorado. Melhor ficar calado.

Olha, que comissária bonita. Bom dia. Aquele careca é pai de algum amigo, certeza. Que drogas de fila que não anda, assim vou acabar criando coragem e falar com ela. Pega logo esse bilhete. Vamos. Opa, qual o meu lugar? Lá atrás. Ela ficou lá na frente. E nunca mais a verei…Hora de dormir ouvindo Pearl Jam

*dessa vez foi um fato real*

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