Um Gump ao contrário…

28 de setembro de 2010

Inventar histórias é uma arte. Olhar nos olhos e imaginar toda uma vida é algo natural pra mim. Criar todo um mundo de pensamentos e ações que na verdade não parecem nem um pouco com a realidade. Viver num autismo constante. Também pode ser uma terapia pro trânsito caótico dessa cidadezinha. Desde que vim pra São Paulo estou tendo que andar de ônibus, metrô e afins. E demora. Como demora. Não gosto de ler em movimento, então a solução é olhar pras pessoas ao meu redor.

Aquele senhor de terno amarrotado, rosto cansado e olhos tristonhos provavelmente perdeu seu filho único num acidente de automovel, por isso desistiu de andar de carro. Só no metrô. Enfrenta problemas no casamento desde então porque a sua esposa o culpa por tudo. Além da dor da ausência ainda tem que aturar reclamações constantes. Passeia de metrô pra descontrair, esquecer. Aposto que o filho gostava do metrô. Não usa o acento preferencial porque não se acha velho, acha que não precisa.

A mulher de vestido vermelho não aguenta mais o tédio da rotina. Ir ao trabalho enche o saco. Tem um caso com o chefe, mas nem gosta dele. Queria uma paixão fulminante. Daquelas de parar o mundo que quero descer. Curte as noites de sábado com amigas, mas no domingo nem tira o pijama. Pinta as unhas de cores chamativas porque na escola era considerada um “menininho” e nenhum rapaz queria nada com ela.

Um casal na minha frente discutindo “Ensaio Sobre a Cegueira”. Ele não tira os olhos da boca dela que divaga mil teorias sobre o real motivo da cegueira coletiva. Dando várias explicações esdruxulas que não faziam sentido algum. Ele visivelmente não concordava, mas falava que sim. Fácil de verificar que ele era melhor amigo dela há muito tempo e sempre fora apaixonado, pena que não tinha coragem de falar. Ela o tratava como um igual. Provavelmente contava-lhe os detalhes picantes de seus amores e cada palavra era como uma faca no peito dele.

Por fim, encontro um cara de óculos olhando atentamente a cada um. Penso que deve estar fazendo o mesmo que eu. Criando histórias para cada um. Não me atrevo a criar uma pra ele. Vai que ele resolve criar uma pra mim. Tenho medo. Deixa eu mesmo criar a minha própria história.

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