Foi por medo de avião…

14 de janeiro de 2013

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Enquanto todo mundo arrumava as malas para fazer a viagem de férias, ele apenas seguia lendo seu livro por trás dos óculos de grau que ainda mantinham a seriedade em seu rosto de menino. Mas ele não era mais menino, não queria seguir com um sorriso bobo sem tê-la por perto.

Ela queria a viagem. Ela queria se esquecer dos problemas cotidianos por algum tempo. Planejara uma lua de mel inesquecível, como todas as luas que tem sabor doce. Na verdade, a lua deveria ter gosto de terra e nem um pouco de mel poderia melhorar isso.

Ele era louco. Escrevia poemas obscenos e fazia sistemas para usuários idiotas estragarem. Sempre tinha que manter o telefone ligado para xingamentos madrugadores. Sentia-se como um médico de plantão. E ela odiava isso.

Ela era pintora. Artista. Cozinheira. Não tinha hobbys, não tinha sonhos, não perdia tempo com as práticas. Não lavava as louças. Vivia de arte e via arte em todas as pequenas coisas do dia-a-dia. Era uma felicidade ambulante. Ululante.

Agora estavam os dois observando o resto do mundo arrumar as malas. Ele já tinha feito as escolhas desde a semana anterior. Ela enfiara tudo de uma vez. Preferia carregar todo seu guarda-roupa consigo. Não ousaria perder qualquer coisa. Não queria perder muito tempo. Apenas viver com toda a força possível. Os cálculos que ele fazia não eram pra ela nada mais que uma língua estrangeira.

Era um amor paradoxal. Ele vinha com o sal e ela enchia de açúcar as veias expostas do coração dos dois. Faziam sorvete de doce de leite. Ouviam Pearl Jam. Assistiam a filmes de super-heróis. Ela se fantasiava de Mulher Maravilha no Carnaval. Ele sempre fora o Capitão América. E nenhum dos dois percebia a incompatibilidade de universos.

Mesmo assim não existia amor mais sincero. Sem parênteses ou asteriscos. O mais puro café dividido na manhã de domingo. Sem vontade de levantar da cama, aproveitando o tempo frio para esquentar os pés um do outro.

E os versos surgiam no caderno de viagem. Mil horas de avião. Ele tinha medo de avião. Ela adorava tirar os pés do chão. Cantava baixinho, as canções de amor com fones de ouvido e pedia que ele ajeitasse o travesseiro em seus ombros. O filme na tela não importava mais. Ele era todo amor. Ela era toda, amor.

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Vôo JJ3382

16 de julho de 2010

– Não acredito como você pode ouvir Jeff Buckley e não ficar triste. – ela retrucou, pegando o Ipod da minha mão. – Muda isso. – aumentando o volume na tentativa de passar a música.

Continuei calado, rindo dessa espontaneidade. Mal a conhecia. Trocamos algumas palavras naquele mesmo vôo. Ela ia pra São Paulo também. Tinha recebido uma proposta de emprego num grande escritório de Publicidade. Eu ia apenas estudar. Não entendi esse interesse dela por mim. Acho que só queria fazer o tempo passar.

– Tu vai mesmo me ligar na quinta-feira pra gente tomar um café, ou uma cerveja, ou qualquer outra coisa. – sempre gostei de mulheres que falam demais, poupa-nos saliva e também me faz manter minha aura de misterioso e inteligente.

– Aham. Pronto, não tô mais ouvindo Jeff Buckley. NoFX agora. Conhece?

– Claro. Punk Rock. Você não tem cara de quem gosta de punk. Com esse cabelinho engraçado, essa cara de bom menino. Esse sorriso bobo. Diria que você era um cara mais The Killers ou Franz Ferdinand. – parou a comparação quando percebeu meu olhar de reprovação. – Que bom que estava errada.

ATENÇÃO, TRIPULAÇÃO, PREPARAR PARA POUSO.

– Poxa, já vamos nos despedir. Me liga mesmo. Ou então eu vou ligar. Qual melhor pra você?

– Tanto faz. – já tava achando ela um pé no saco. Tudo tem limites.

POUSO AUTORIZADO

– Tchau. Até qualquer dia.
– Tchau. Prazer em conhecê-la.
– O prazer foi todo meu.

QUINTA-FEIRA

– Alô? – nem sei porque eu liguei. Ela era interessante, e talvez a solidão da cidade grande ainda me assombrasse.
– Sabia que você ia ligar, já estava esperando. – aquela felicidade na voz dela parecia realmente verdadeira, conseguiu arrancar um sorrisinho tímido meu.
– Eu prometi. E aí? Pensou em algo legal pra gente fazer?
– Tava pensando em você vir pro meu apartamento. A gente poderia ouvir uns DvD do Pearl Jam. Tomando um vinho. Pedir uma pizza ou uma comida chinesa. O que você acha?
– Pearl Jam? – fiz a pergunta achando bom de mais pra ser verdade. Não podia ser.
– Isso? Não gosta? É minha banda preferida. – senti uma ponta de temor na voz.
– A minha também…
– Então pode vir as 19hrs, ok?
– Ok!

Ah. Por que não? Oportunidades não batem à sua porta assim tão fácil. Eu só queria viajar tranquilo madrugada a fora. Ela sentou do meu lado e falou, falou, falou. Não custa nada dar uma chance a ela, não? Além do mais, conhece Folk, Punk e adora Pearl Jam. O que mais posso pedir, por enquanto.

PS –> 3 meses depois mudei pra casa dela. Foi um tempo bom. 5 meses depois de morar com ela não aguentei mais e voltei pro meu apartamento. Não nos falamos há 13 meses. Mas semana que vem tem show do Pearl Jam e ela me ligou pra ir com ela. E agora? Como faz?

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