Foi por medo de avião…

14 de janeiro de 2013

IMG_3092

Enquanto todo mundo arrumava as malas para fazer a viagem de férias, ele apenas seguia lendo seu livro por trás dos óculos de grau que ainda mantinham a seriedade em seu rosto de menino. Mas ele não era mais menino, não queria seguir com um sorriso bobo sem tê-la por perto.

Ela queria a viagem. Ela queria se esquecer dos problemas cotidianos por algum tempo. Planejara uma lua de mel inesquecível, como todas as luas que tem sabor doce. Na verdade, a lua deveria ter gosto de terra e nem um pouco de mel poderia melhorar isso.

Ele era louco. Escrevia poemas obscenos e fazia sistemas para usuários idiotas estragarem. Sempre tinha que manter o telefone ligado para xingamentos madrugadores. Sentia-se como um médico de plantão. E ela odiava isso.

Ela era pintora. Artista. Cozinheira. Não tinha hobbys, não tinha sonhos, não perdia tempo com as práticas. Não lavava as louças. Vivia de arte e via arte em todas as pequenas coisas do dia-a-dia. Era uma felicidade ambulante. Ululante.

Agora estavam os dois observando o resto do mundo arrumar as malas. Ele já tinha feito as escolhas desde a semana anterior. Ela enfiara tudo de uma vez. Preferia carregar todo seu guarda-roupa consigo. Não ousaria perder qualquer coisa. Não queria perder muito tempo. Apenas viver com toda a força possível. Os cálculos que ele fazia não eram pra ela nada mais que uma língua estrangeira.

Era um amor paradoxal. Ele vinha com o sal e ela enchia de açúcar as veias expostas do coração dos dois. Faziam sorvete de doce de leite. Ouviam Pearl Jam. Assistiam a filmes de super-heróis. Ela se fantasiava de Mulher Maravilha no Carnaval. Ele sempre fora o Capitão América. E nenhum dos dois percebia a incompatibilidade de universos.

Mesmo assim não existia amor mais sincero. Sem parênteses ou asteriscos. O mais puro café dividido na manhã de domingo. Sem vontade de levantar da cama, aproveitando o tempo frio para esquentar os pés um do outro.

E os versos surgiam no caderno de viagem. Mil horas de avião. Ele tinha medo de avião. Ela adorava tirar os pés do chão. Cantava baixinho, as canções de amor com fones de ouvido e pedia que ele ajeitasse o travesseiro em seus ombros. O filme na tela não importava mais. Ele era todo amor. Ela era toda, amor.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: