Cemitérios na cabeça

6 de agosto de 2012

Eu gosto de cemitérios. Não gosto de mortes, nem de velórios, muito menos enterros. Mas gosto dos cemitérios, principalmente aqueles pequenos, de interior. Passear por eles nas noites quentes ou durante aquela manhã ociosa é uma experiência única.

Não, não sou gótico, nem um ladrão de flores ou lápides. Gosto apenas da tranquilidade e calma do lugar. De ver o jeito com que as árvores florescem contrastando com a natureza morta de esculturas de anjos e coisas do tipo. A vida e a morte passeando de mãos dadas por aí. Uma dualidade que poderia ser objeto de estudo filosófico.

Adoro ler os epitáfios. Todos são muito bons depois de morrer. Todos amaram demais, sorriram demais, fizeram caridade. Parece um discurso político em época de eleição. Eu sou melhor que você. Eu sou melhor que todo mundo. Veja como eu fui feliz. Como minha grama sempre foi verde e nunca nem precisei regá-la.

Às vezes até gosto de ver os visitantes vivos derramando lágrimas por seus entes queridos, crianças que não fazem a menor ideia do que está acontecendo e coroas de flores. Sou fã de flores, mas daquelas que estão alegres, sorrindo. Não as que demonstram tristeza. O dia de Finados é a festa das floriculturas que ganham dinheiro com a morte/dor alheia, mas alguém tem que lucrar afinal.

No cemitério há também amor. Sim, grandes histórias de amor. Ou pelo menos parte delas. Há amores que começam por lá e há também os que terminam. Até que a morte nos separe ou então a vida se torne muito chata.

Mas as melhores histórias estão na minha cabeça. Faço amizades e invento contos de fadas. É triste saber que teve gente ali enterrada no seu primeiro dia de vida, como é revigorante perceber que as pessoas conseguem viver mais de cem anos. Casais que morreram no mesmo dia. Será se foram felizes? Será que foram Romeu e Julieta. Ou Adolfo e Adalgisa apenas morreram num acidente de automóvel. Eu não sei. Quer dizer, eu sei.

Eles viveram o maior dos amores da cidade. Daqueles que as velhinhas costumavam comentar na saída da igreja. De causar alvoroço nos coronéis, de esmagar corações apaixonados das mocinhas na praça. Escreveram seus nomes no caule de uma árvore que agoniza no canteiro central, sorriram, choraram e morreram juntos.

Num último abraço, rápido, indolor antes do fim. Não deu tempo para um beijo de despedida, não teve despedida. Juntos para sempre. Um ponto final escrito de caneta azul. Numa história colorida. “Foi bom viver cada dia com você” e “eu te amo”. Palavras tossidas, torcidas como um pano de chão, não querendo sair, não querendo ficar. Quero você até o dia em que tudo parar. Até o escuro. Até o cemitério virar nosso livro.

Cemitérios não passam de livros. Uma biblioteca infinita de histórias de todos os tipos e feitios. Basta você escolher uma, inventar uma, mas não se esqueça de viver a sua. As personagens e personalidades ali guardadas são um pote de ouro, mesmo que você não conheça ninguém em vida, mesmo que não acredite em fantasmas, como eu, mesmo que não acredite em nada.

É uma leitura diária. Tragédias. Heróis. Romances. Ficção. Tudo em um só lugar. Bem diferente do cemitério de amores em sua cabeça.

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