O poema

16 de janeiro de 2012

Era um poema comum, escrito com paixão e desdém. Uma certa presunção comum aos poetas que além de sofredores são feitos de orgulho. Ela carregava no bolso aquele poema, escrito em uma folha de caderno com caneta Bic preta. As letras tremidas de quem fingia que chorava enquanto o copo de uisque repousava na mão. Provavelmente era canhoto e não gostava de azeitonas.

Ela não ganhou aquele poema. Não o recebeu junto com flores e uma caixa de bombons. Ela apenas encontrou o papel repousando na mesa da praça de alimentação do cruzeiro em que fazia. Enquanto degustava o seu Big Mac sem salada com um copo gigante de Coca-cola, criou uma história de amor com aquele poema.

Um homem cansado da vida, desiludido e apaixonado por uma mulher bem mais rica ou mais bonita ou mais inteligente, não sei. Um homem simples apesar de se auto-intitular poeta. Daqueles tipos que ainda usam uma camisa de algodão branca por baixo de uma social. Talvez use chapeu ou um bigode fino. Talvez tenha vivido no Império ou então componha sambas para a Mocidade. Seria gaúcho? Não. Sem expressões típicas ficaria dificil descobrir.

No ônibus, ela notara que passou os ultimos cinco dias criando aquele homem. Estava apaixonada por uma pessoa que nem conhecia. Largou o seu namorado, deixou de retornar as ligações da sua mãe que mora no Nordeste, desistiu de um mundo real para viver uma imagem que daria orgulho a Platão. E imaginava em cada homem daquele navio poderia ser o “seu” poeta. Com paranoia e coisas afins.

Mas no fim não encontrou ninguém escrevendo em um caderno, ou pelo menos um homem com vestes antigas ou coisas do tipo. Talvez o poema tivesse sido escrito há muito tempo. Talvez a destinatária que tenha se descuidado e perdido seu presente. Pensou em deixa-lo novamente no mesmo lugar. Mas o poema já pertencia a ela.

Transcreveu o poema com sua própria letra. Queria ser dona do poema. Feminilizou-o também. Queria um amor complicado, com lágrimas, partidas e sofrimento. Cansara de ser feliz com sua vidinha comum.  Passou mais tempo observando o mar revolto que qualquer coisa. Decidira viajar para esquecer os problemas que pensava ter, mas que não existiam. Queria flores com espinho.

Até que as luzes se apagaram e o barco começou a naufragar. Era o fim. Mais 0u menos como o poema dizia: “Se não for pra viver com você quero que minhas lágrimas lavem meu corpo até o fim dos meus poucos dias”.

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