óculos escuros

6 de dezembro de 2011

A primeira vez que fui a um velório eu tinha por volta de sete anos, e minha única lembrança além das flores, muitas flores foram os óculos escuros. Achei impressionante como todas as pessoas usavam aqueles acessórios aparentemente todos iguais. Eu não fazia ideia do porque daquilo, e quando eu tentei perguntar à minha mãe, ela estava triste demais pra me responder ou me dar atenção.

Não sou muito acostumado com perdas ou coisas assim. Não sou amigo de saudades ou de cartões postais. Desejo um Feliz Natal por SMS ou mando um recado desejando um prospero ano novo. Não troco presentes no Dia dos Namorados nem acredito em fantasmas do terceiro mundo. E não uso óculos escuros.

Mas ironicamente me apaixonei por ela em seus óculos escuros. Dava um ar de diva dos anos 50 ou filmes em preto e branco. O caminhar brilhante e o sorriso devagar. Eu que sempre fui dos olhos me deixei fisgar pela imaginação de como seriam. Um esconde-mostra que normalmente é descrito por vestidos indiscretos e cruzadas de pernas. Eu queria sorvete de doce de leite. Ela queria recheado com nozes, avelã ou qualquer coisa crocante do tipo.

De um jeito ou de outro comecei a relacionar os óculos escuros com a morte, sabe essas coisas de criança. Mesmo morando numa cidade ensolarada em que eles poderiam ser muito uteis. Eu não uso óculos escuros. Não quero esconder meus olhos, nem as lágrimas, nem a dor. Tudo tem que vir à tona para respirar.

Ela queria perder tempo comigo. Era apaixonada por perdas, por danos, morais, imorais e irreparáveis. Eu paro e queria dizer que posso caminhar ao lado dela, de olhos blindados, bengala e cão-guia. Cego por querer. Por vontade. Para que minha última memoria visual fosse o seu caminhar cambaleante, seu sorriso fácil e os óculos escuros.

Não, os olhos dela não são feios, pelo contrário. São os olhos mais belos que anunciam o belo sorriso que virá. Ela sorri ao olhar. E então esconde por trás da lente preta. Escondendo as cartas tal qual um jogador de poker. Sem emoções. Sem uma música quando sobem os letreiros dizendo seu nome baixinho.

Ela esconde a dor. Esconde a felicidade. É dada a paixões estalagmites pingando do lado inverso. É um verso que ninguém jamais declamou. Guardada no mais belo esconderijo dos seus olhos negros como o asfalto, já que as palavras bonitas já foram usadas é assim que posso comparar. Mas eu não uso óculos escuros.

E agora estamos em mais um velório. Todos como de costume de óculos escuros. Eu sustento meus óculos de grau escaldando ao sol de qualquer. Meus heróis não morrem. E se morrerem eu não quero esconder minhas lágrimas. Ela está ao meu lado, e desde esse dia não usa mais óculos escuros. Quer deixar o mundo mais claro. Quer ficar ao meu lado.

E amanhã talvez eu comece a usar óculos escuros, quem sabe.

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