Amor no consultório

1 de dezembro de 2011

Eu tinha quebrado meu pé direito. Lá estava eu na emergência do único hospital na cidade que aceitava meu plano de saúde. Era domingo à noite. Hospital mais que vazio. O silêncio era quebrado pelas risadinhas esparsas vindas da sala dos enfermeiros.

Eu tinha sido atendido pelo plantonista, mas teria que esperar o ortopedista chegar. Espera chata e demorada. Meu pai me deixou por lá só, pois teve que resolver alguns problemas na empresa. É engraçado como urgências e emergências aparecem aos bandos, parecem lobos ou hienas. Acho que abutres seria mais correto.

Eu lia uma revista que tinha o Neymar na capa. Aquele mesmo jogador que tinha perdido um pênalti mais cedo que causara uma reação mais que passional da minha parte ao chutar a primeira coisa que vi na minha frente: a parede.

Foi quando ela apareceu, com o braço imobilizado. Que linda. Nunca tinha visto uma mulher tão bela, quer dizer, até já tinha a visto por aí, mas acho que o momento de fraqueza que ela demonstrava e a dor que eu sentia no meu pé a tornavam mais bela.

Então, nos cumprimentamos, partilhamos a dor. Ela estava só. Que absurdo. Começou a falar sem parar. Machucou o pulso numa freada brusca quando estava com a mão sei lá onde e a imprensou em algum lugar. Era design de moda. Como uma besteirinha dessas dói tanto. Tinha uma espécie de tipoia no seu carro o tempo todo, por isso a bandagem imensa. O plantonista a chamou.

Fiquei pensando em borboletas do Afeganistão e em coisas como giz de cera e massas de modelar. Depois comecei a imaginar passarelas, ela era a modelo principal de todos os desfiles do meu coração.  Sei que provavelmente ele ficaria atrás das cortinas, ou seja lá como chamam os bastidores da moda, mas eu queria aprender a desenhar todos aqueles modelitos estranhos da Fashion TV por ela. Meu devaneio foi cortado pela voz suave e aliviada  dela.

Foi só uma luxação. Então, eu me lembrei da explicação do professor de medicina do esporte que luxação era uma das piores lesões possíveis, pois era o deslocamento do osso de seu lugar original, algo assim. Mas preferi não alarma-la. Íamos esperar o médico especialista, juntos. Conversando. Ou melhor, eu escutando tudo que ela tinha a dizer.

Foram 30 dias com o pé imobilizado. Uma bem-sucedida cirurgia. Uma carona de volta pra casa. Um relacionamento de onze meses que terminou quando ela foi pra Milão trabalhar e terminar seu mestrado.

Depois dela meu pé e meu coração nunca mais foram os mesmos. E por uma incrível coincidência sempre que alguém citava o nome dela, minha cicatriz começa a coçar e arder. Da próxima vez prometo conhecer meu amor no consultório do meu otorrinolaringologista. Afinal, inflamações de garganta são mais comuns que luxações de pulso.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: