O caranguejo e o dirigivel

7 de novembro de 2011

Eu sempre imaginei que o protótipo do casal feliz fosse aquele em que duas pessoas estão sempre felizes, rindo, conversando… sintonizados, sabe? Não haveria brigas, silencio durante as refeições num restaurante legal, lembranças desagradáveis ou ciúmes exagerados.

Um dia na praia, sentada sozinha em uma barraquinha na areia, observei um casal. Tinham já seus 50 anos. Era fim de tarde, maré subindo e eu pensando, ela comendo caranguejo, ele todo modernoso ouvindo músicas num Ipod e lendo jornal.

Ah, eles eram casados. Provavelmente há muito tempo. Nem precisava perguntar, isso pairava sobre eles como se fosse um dirigível da Goodyear que flutua sobre um estádio em dia de jogo.

Uma coisa me fazia ter essa certeza, o silencio. Nenhuma palavra. Nem um carinho. Um olhar sequer. Nada! Quando um dos dois queria pedir algo chamava o garçom, pedia e só. Não tinha aquele “quer mais alguma coisa, amor?”. Obviamente aquele casamento estava no fim. É triste ver o fim de um amor. É como ver uma criança morrer.

Pensei em como eu sempre abominei o silêncio em uma relação. Falar é mais que necessário, exagerando, é quase uma obrigação! Gosto de saber se a cerveja está boa, quais as novidades no jornal, a última vez em que mergulhou no mar, qualquer coisa. Tudo. Menos a falta de dialogo.

Cansada daquela cena torturante que predizia o futuro de qualquer relacionamento, chamei o garçom e pedi a minha conta. Enquanto ele anotava no bloquinho o meu consumo acabei soltando um “que pena…”.

O garçom levantou a cabeça e com uma cara de psicólogo me perguntou se estava tudo bem. Pedi desculpa e disse que sim, que estava apenas refletindo sobre o casal da mesa da frente. Ele não entendeu o motivo do meu comentário, então acabei explicando.

Sorrindo, ele me disse que também pensava a mesma coisa. Mas que hoje ele vê aquele casal como a forma mais explicita de amar. Logicamente, eu achei que ele só podia estar brincando, primeiro pelo sorrisinho e segundo pela “forma mais explicita de amar”. Puxei minha conta e disse que ele não deve saber o que é amor.

Na mesma hora ele retrucou: “E quem é que sabe? Você?!”. Olhei pra ele com a certeza de que nunca voltaria naquele bar. Imediatamente ele se desculpou, puxou uma cadeira e começou a contar a história do casal.

“Eles sempre estão por aqui. Nem que seja uma vez por mês. Sempre desse mesmo jeito. Ela comendo caranguejo e ele ouvindo música e lendo jornal.” Interrompi o Sebá (sim, eu já era intima do garçom a esta altura) e perguntei por que ele não comia junto com ela.

“É o prato favorito dela, mas ele não pode. Uma vez ele tentou acompanha-la e ficou à beira da morte por causa de uma grave alergia até então desconhecida. Um simples beijo ‘sabor caranguejo’ desencadearia uma crise. Ela então jurou que nunca mais comeria o crustáceo, que o mais importante era a vida dele. Ele disse que não iria priva-la de fazer uma das coisas que ela mais gostava. E juntos encontraram uma solução: ele ficaria sentado afastado, ouvindo as músicas preferidas deles e lendo o caderno de esporte e a sessão de novelas, assim, na hora que ela acabasse de comer e se limpar ele contaria pra ela todo o resumo da semana. Seguindo depois as suas vidas normalmente, até o próximo caranguejo.”

Agradeci ao Sebá por me contar tudo aquilo, paguei a conta e fui embora.  Pensativa. Reformulando toda a minha ideia de relacionamento perfeito.  Aquilo era amor. E não estava no fim. Muito menos no começo. Ele simplesmente estava lá. Sem precisar falar nada. Aparentar nada. Os dois sabiam o quão grande era o amor deles, e isso era o bastante.

* texto escrito por Anna Priscilla.

* Te Amo!

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Uma resposta to “O caranguejo e o dirigivel”

  1. ap Says:

    Ó! 😀
    Tbm te amo.


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