Sempre os melhores sapatos…

19 de outubro de 2011

Enquanto observava a imensa coleção de sapatos dentro do armário desenhado e sonhado por tantos e tantos anos, ela viajava no tempo, nas lembranças das ocasiões em que foi feliz usando cada um daqueles pares. Os amores perdidos, os dias de chuva em que tenou em vão não estragá-los. Os primeiros e últimos beijos, as lágrimas, tropeços e pedidos de casamento. Sim, no plural.

Queria jogar fora, queimar, doar para mulheres que ainda podiam ser felizes, mais idiotas por acreditar que existe amor, que dura para sempre. Ela era o retrato máximo da desilusão, onde já se viu uma mulher querer se desfazer de sesu sapatos sem a intenção de substitui-los? Queria agora viver de havaianas ou pantufas, passar o dia deitada tomando sorvete e assistindo Bridget Jones, mas odiava esse filme.

Cortou seu cabelo com a faca de pão, na verdade, nem sabia que isso era possível. Decidiu começar a beber coisas mais fortes que cerveja. Desistira de comprar um cachorro para fazer companhia. Resolvera que agora iria trabalhar em casa. Home office ou algo do tipo. Prisão domiciliar por contra própria. Depressão voluntária. Luto.

Ligava para a sua mãe três vezes ao dia. Só pra ter alguém com quem conversar. Entrava em salas de bate-papo na Internet só pra contar seus problemas a estranhos tão estranhos quanto ela. Passava o dia inteiro ouvindo Julio Iglesias no volume mais alto, sem dar ouvidos aos avisos do síndico. Sei lá. Acumulava multas, sonhos e caixas de Rivotril. Escrevia poemas, sempre os mesmos temas, sempre dizendo: “É por você que eu fecho os olhos quando penso em amor”.

Por que a vida é tão cruel? Por que a morte é uma visita que abre a geladeira e põe os pés na mesinha de centro. Até se perdia usando clichês banais como “os bons morrem jovens” e canções do Renato Russo numa terça-feira fria qualquer.

Estava sempre com a camiseta do Pearl Jam, aquela com o bonequinho que ele sempre sonhara em tatuar, mas que nunca tivera tempo. Deixando o cheiro gasto e manchado com a enxurrada de lágrimas despejadas enquanto assistia ao filme do Thor pela enésima vez. Sempre com mais um pote de sorvete de doce de leite ao pé da cama. Esperava que de repente ele abriria a porta do quarto com flores e um sorrindo bobo, de sempre, dizendo que era só brincadeira.

E por fim, escolheu virar uma Julieta. Não ir à missa de sétimo dia e pegar carona na viagem rumo ás escadarias do paraíso junto do seu amor. Se encheu de comprimidos dos mais variados como boa hipocondriaca. Sabia que casais assim não entram nos livros de estória ou romance. Mas memso assim resolveu morrer com o seu melhor par de sapatos.

 

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2 Respostas to “Sempre os melhores sapatos…”

  1. belzinha_ Says:

    Resumindo… isso era você.


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