Abrace seus erros.

14 de setembro de 2011

Costumam dizer que no amor não se pode errar, não se pode demonstrar os defeitos, não pode ficar nem um milímetro abaixo da perfeição. As exigências são gigantescas, devemos amar como robôs em uma linha de produção, sem desculpas, brigas e arroz caindo do prato.

Quando eu tinha 10 anos meu pai inventou que eu deveria ser piloto de kart. Devido a umas poucas voltas que eu dei na pista para amaciar o motor do kart dele próprio. Viu que eu tinha vocação. Começou então as sessões de treino, todos os sábados a tarde. 100, 200, 300 voltas com pé embaixo para que eu pudesse alcançar o tempo mínimo necessário para me inscrever no campeonato.

Logo no primeiro dia eu consegui alcançar o tempo. Meu pai era um sujeito zangado e perfeccionista, como eu tinha uma paixão, como ele dizia, por errar sempre na mesma curva. Ele se postou no lugar que eu não deveria passar nela e lá ficou enquanto eu continuava dirigindo. Com medo de não machucar meu pai eu comecei a acertar.

No último treino antes da data marcada para o “exame de admissão” eu rodei 200 voltas e em 180 eu fui pelo menos 1 segundo mais rápido que o tempo mínimo. Meu pai considerou essa taxa de 90% como satisfatória. Eu estava pronto, segundo ele. Mas no dia tinha que conseguir o tempo em apenas três voltas e falhei. Teria ainda duas chances.

Mais treinos, mais tempos baixos. Mais gritos e broncas. Com o papel impresso com meus tempos ele criticava porque a cada 50 voltas boas eu dava uma ruim. Sublinhava meus erros, minhas falhas e eu com o sorriso dizia que cansava. Não poderia cansar, não poderia ser menos que perfeito. Se ele conseguia então eu deveria conseguir, afinal eu era seu sangue e carne.

Segunda tentativa e falhei. Quinze dias depois. Mais duas sessões de treinos e completamente sem motivação comecei a fazer tempos piores e admitir que aquilo não era pra mim. Meu pai posicionava garrafas de dois litros de coca-cola onde eu deveria frear e o ponto exato da tangencia das curvas ele desenhava com giz. Parecia um professor maluco com os cabelos desgrenhados cujo aluno não conseguia aprender.

Quando das 300 voltas eu apenas conseguira atingir o tempo mínimo em 40, ele gritou que desistia. De mim. Como filho. Como qualquer coisa nessa vida. Virei um peso. Um problema. Um garoto que não conseguia fazer nada direito. Ele não percebia que eu tinha problema de visão que atrapalhava minha percepção de profundidade na hora de frear no fim das retas.

Ele disse que eu não testaria mais. Meu tio resolveu me levar escondido para fazer o teste “final”. Minha ultima chance de entrar para o automobilismo. De ser o novo Nelson Piquet. Consegui meus melhores tempos de sempre nesse dia. Licença concedida, eu poderia competir. Sorrisos. Agradecimentos ao meu tio rebelde. Cheguei em casa, com o documento nas mãos. A minha chance de mostrar ao meu pai que ainda poderia ser perfeito.

Mas ele não estava em casa. Nunca mais esteve.

E até hoje eu tento ser perfeito pra mim mesmo, não para alguém. Ninguém precisa de alguém dizendo como se deve ser. A felicidade está em nossas próprias mãos. Pequenas coisas. Admitir limites e falhas de caráter e físicos.

Nunca cheguei a correr qualquer campeonato de kart, mas esse documento está moldurado num pequeno quadro na minha biblioteca.

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2 Respostas to “Abrace seus erros.”

  1. Eliane Says:

    ; )
    A d o r e i!
    Bj. Li

  2. Melissa Says:

    Que lindo, uma parte triste, porem como uma bela lição de vida *-*


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