Sem véu, grinalda ou cravos na lapela

26 de agosto de 2011

Engraçado como as pessoas desenham como tudo tem que ser. Noivas detalhistas escolhendo tudo para o casamento ser perfeito, flores amarelas e rosas que não são cor-de-rosa. Decoração de primeira classe. Músicas selecionadas. Convidados censurados. Dia em que costuma não chover. Tudo pensado. Tudo pensando em ser feliz. Felizes para sempre. Na saúde e na doença até que a morte os separe.

Ama a importância de mostrar a sociedade que o amor é grande, mesmo não sendo. Querem se mostrar. Como um trailer do que está por vir. O grande lançamento do produto que promete ser recordista em vendas. Esquecem a simplicidade. Querem casar de branco, com véu e grinalda. Cravo na lapela do noivo que sua em bicas. Exalam perfeição.

E no dia seguinte, o amor acaba. Afinal, nunca existiu.

No nosso primeiro encontro não houve perfeição, não houve nada que poderia arrancar suspiros das adolescentes na poltrona do cinema. Fomos comer sushi. Falamos de tudo que não devíamos, fomos sinceros como uma carne crua. Mal passada molhando o arroz. Confessei logo que sou estabanado, derramei o molho shoyo por toda a mesa, tentei desenhar um coração que pareceu mais um pneu de tanque. Falei de futebol, religião e política.

Ela se engasgou com a caipirinha vermelha feita com morango, quebrou um pedaço da unha azulada e ficou resmungando. Despedaçou aquela peça que tem mais arroz que qualquer outra coisa, me explicou errado o que era kani. Disse que aquela ervinha verde era boa, não me disse que ardia. E riu de como eu tentava disfarçar que estava ardendo demais. Fiquei vermelho.

Tínhamos tudo pra dar errado, um péssimo começo. Tudo errado. Mas a simplicidade nos unia, o jeito meio imperfeito com que nos tratávamos. O jeito como a gente ria um do outro e de si mesmo. O bom humor idiota de comédias-pastelão.

Nosso amor não tem véu, nem grinalda, nem detalhes em ouro. Não andamos de mãos dadas segurando cravos na lapela de nossos corações. Nossos sorrisos não são forçados, falseados, são gargalhadas nervosas e verdadeiras. Com defeitos expostos como uma cicatriz que temos no mesmo lugar ao cortar cebola pro jantar. Se houvesse aliança seria um pedaço de fio, não é amor?

E no dia seguinte, temos um bom dia. Todo dia. Eu te amo.

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Uma resposta to “Sem véu, grinalda ou cravos na lapela”

  1. ap Says:

    Um pedaço de fio e uma geladeira amarela. Ha! Te amo 🙂


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