Retrato-falado

16 de agosto de 2011

Eu assistia a um daqueles programas esquisitos sobre Montros do Rio ou algo do tipo. Estava contando a história de um bicho que afogava crianças nos rios do Japão. O apresentador iria desvendar o mistério com algo possível. Viu e mostrou vários retratos falados. Coisas estranhas. Imaginário do povo do interior, sim, há interior no Japão.

Por fim, o animal era uma salamandra gigante que nada tinha a ver com os retratos-falados que os moradores descreveram ao longo dos séculos. Então, me pergunto onde a imaginação humana pode chegar.

Conheci uma garota em um bar nas proximidades da Paulista e tinha me esquecido de anotar o nome dela em algum lugar pra lembrar depois. Sabia que começava com a letra “J”, Juliana, Janaina, algo do tipo. Minha memória seguia me pregando peças.

– Olá, aqui é a Fernanda, a menina do barzinho ontem, lembra?

Nunca aconteceu isso com você? Ter certeza de que uma coisa começa com tal letra, afirmar certeza com todas as exclamações possíveis e a resposta não ser nada disso. Senti-me como os moradores do Japão ao descobrirem que suas lembranças não tem nada a ver com a realidade.

Seria melhor viver no mundo de suas cabeças?

Pois na minha cabeça o nosso amor era como um filme água com açúcar que passa nas menores salas do cinema e a gente assiste no domingo à tarde com um balde de pipoca mista e um refrigerante gigante. Você olha nos meus olhos e sorri. Eu procuro a sua mão entre os milhos no fim do filme.

Mas não era nada disso, você e o resto do mundo insistem em me mostrar como eu era infeliz ao seu lado. Como as brigas dominavam e minavam as reconciliações e momentos felizes. Como a gente não se dava bem com as pessoas, como o clima do bar ficava pesado com a nossa presença.

A gente não tinha nada a ver. Nunca tivemos. E que ninguém venha com essa de que os opostos se atraem. Éramos apenas miragem. Ilusão. O pote no final do arco-iris que ninguém nunca achou.

Por isso, Janaina, não volte pra mim. Rasgue os retratos falados do nosso amor e busque caçadores de mitos ou pesquisadores para te contar como era realmente.

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