Eu sou do amor.

27 de junho de 2011

Andando por São Paulo aproveitando a manhã do verão, sem querer eu estava com uma camisa do River Plate. Domingo no metrô Sumaré.

– Eres de River? Yo soy de River. – levei um susto com aquele rapaz com um sorriso largo no rosto, cabelo comprido e barba por fazer. Um típico argentino diria Galvão Bueno.

– Sim, torço pro River na Argentina. – o sorriso meio que desapareceu do rosto dele, mas se apresentou sendo Enzo. Argentino de pais uruguaios e com nome em homenagem ao craque Francescoli, tal qual o filho do Zidane.

Enzo virou um grande amigo. Aprendi com ele o que é ser um torcedor de verdade. E também a dar o devido valor à um amor. Ele veio morar em São Paulo por causa de uma garota. Largou à faculdade de Direito em Córdoba e veio. Mas ela não era como o seu River Plate. Ele não era dela.

Ser do River é algo inconcebível. É dedicar o mundo, à vida, tudo que se tiver ou se conquistar para o clube. Ele não pertencia a si mesmo. Era fanático. Alias, fanático ainda não chega nem perto do que ele seria. Ele repetia que seus sonhos, medos, seus melhores dias e suas piores noites coincidiam com a situação do River Plate.

Ele me contava apaixonado como eram os domingos no Monumental de Nuñez, as ruas de Buenos Aires pintadas de vermelho e branco nos dias de jogo. Detalhou como um pintor como o pôr-do-sol ficava mais bonito quando o River vencia.

E me contava como um caixa de banco confere o dinheiro dos outros as curvas de sua Maria. Sem brilho, sem emoção, sem lágrimas. Sem nada. Não era amor.

O amor é como um campeonato. Você ri, chora, xinga, pragueja aos deuses por sua sorte, depois pede desculpas e agradece por ter encontrado a metade perfeita. Contabiliza mais um ano com vitórias e derrotas. Passa um tempo longe pra voltar com a mesma paixão mais forte quase sempre. Decepciona-se e orgulha-se.

Enzo não era assim. Ele só amava o seu clube. De coração. Maria era a mulher de sua vida, mas qualquer um que o conhecia sabia que era diferente. Ela era uma Copa do Mundo conquistada. Um troféu em sua estante, algo que não precisava ser renovado. Mas até os troféus precisam ser polidos de vez em quando. Uma revigorada em seu brilho. E de algum modo ser trazido de volta à tona.

Sei que o Enzo está casado com a Maria há 5 anos e já tem dois filhos. Pablo e Ariel. Lembranças das últimas glórias do clube de coração. O argentino que não sabia amar. Hoje, ao ler sobre o rebaixamento do River Plate no campeonato argentino não quero nem imaginar como está o meu amigo. Tomara que esteja vivo e bem. Quer dizer, claro que perdeu um enorme pedaço.

Mas o amor é superar obstáculos e se o amor de Enzo é o clube. Sei que ele irá sobreviver porque o amor verdadeiro nunca morre. Que clichê, mas é verdade.

E o River Plate viverá também. Como uma grande história de amor. Afinal, por que tantos ainda falam até hoje de Romeu e Julieta?

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