Pelada não é álibi

20 de junho de 2011

Mário era complicado. Tinha uma sorte incomparável para mulher, mas brincava com todas elas. Sempre. Ele costumava jogar bola com a gente na segunda-feira. Era casado com uma loira fenomenal. Todos meio que o invejavam por isso. Além de ser bom de bola.

Certo dia ele passa na praia, nessa época o jogo era na areia. Dá um pique de cinco minutos, se joga na areia e vai embora. Sem falar com ninguém. Sem explicar nada. Todo mundo começou a rir.

Era a desculpa pra traição. A pelada da segunda. Mas não se usa a pelada como álibi. Essa é uma das regras mais rígidas do código masculino de conduta. Além de ser uma forma de confessar um adultério doloso. Premeditado. Com agravantes e qualificadoras. É uma forma egoísta de prejudicar a vida de todos os amigos da bola.

É uma sacanagem sem tamanho. Ele sabe como todos nós como é difícil conseguir uma noite sem problemas, jogar com a galera, quem sabe tomar umas duas antes de ir pra casa, relaxar de um dia estressante do trabalho. E uma escorregada pode por em risco todo esse planejamento. Afinal, as mulheres costumam generalizar. “Se o Mário faz, vocês todos também fazem”.

Além disso, quando descoberto e mesmo perdoado pela mulher. Ele passa a ser considerado fora do bando pela turma. Que não mais respeitará o mandamento de não cobiçar a mulher do próximo. Usar a pelada como álibi só tem problemas.

Que ele procure outras desculpas como as clássicas reuniões. Para trair é preciso criatividade. Pra prover uma mentira, cria-la com carinho, sustentar a mentira, acreditar na própria mentira para que ela um dia possa tentar virar verdade. Senão não funciona. E um homem sempre é pego, mais cedo ou mais tarde é descoberto.

Mário se traiu também por não atentar que nós somos amigos, por conseguinte nossas mulheres também o são. Portanto, pra funcionar a mentira. Teria que ser compartilhada com todos da pelada. Ou então ser um segredo de Estado. Os dois são riscos gigantescos.

Certo dia eu estava tomando banho tranquilo depois da pelada. O banho pós-pelada é uma coisa sagrada. Podemos demorar o tempo que for preciso e que se foda o planeta e seus programas sustentáveis. É o banho pós-pelada, pô. Hora de não pensar em nada. Nessa hora, confesso, fico realmente bobo.

A Anna chegou e comentou enquanto eu me enxugava: “Encontrei a Claudia e o Mário na fila do banco hoje, amor. Eles são tão apaixonados. Amanhã tomarei café com a Claudia. O Mário comentou alguma coisa no futebol hoje com você?”. “O Mário não foi pra pelada hoje não ó”.

Pronto, já era o álibi. Erro fatal. Amanhã a primeira coisa que será assunto é o por que do Mário ter faltado a bola tradicional de segunda-feira. Sendo que pra Claudia ele realmente foi pra bola. Tudo bem. Esse erro é contornável dependendo de situações.

Nas últimas semanas, mudamos o horário da pelada e passamos a jogar em um campinho num clube. O Mário, ausente das últimas, só sabia da mudança de horário pra mais cedo. E seguia em seu ritual “pique na praia e rolamento na areia” pra chegar suado e sujo em casa.

A última vez que falei com a Claudia ela estava lá em casa fazendo uma visita a Anna na noite de segunda. Conversavam sobre uma viagem pra Bariloche. Cheguei todo sujo de terra e grama, ela viu e perguntou da mudança de local. Contei. Ela não perguntou sobre o Mário. E foi pra casa após eu chegar.

Pelo que eu soube, ele chegou mais tarde e sujo de areia. Inventou que era outra pelada que tinha arrumado. Pelo visto não mentiu, mas agora aqui em Bariloche , a Claudia está com o zagueiro do time do Mário e parece estar feliz.

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