De mãos dadas.

25 de maio de 2011

Eu perdia tempo, acalmava o frio indeciso de minhas mãos escondendo-as no bolso do casaco. Eu sempre pensei que era o máximo da existência humana poder andar no meu próprio ritmo pela cidade com as mãos descansando nas frestas da minha roupa.

Os braços acompanhando o gingado dos meus passos em aceleração e frenagem, tanto faz. Perdendo a virgindade pra solidão dividindo-a com o casaco.  A única proteção para os dias frios. Como eu era bobo.

Eu acreditava na liberdade da dança de mãos solitárias. Girando no ar, acompanhando a música que nem tocava. Gesticular quando eu quisesse, sempre pronto pra cumprimentar algum conhecido que por ali passava. Eu era livre, de mãos nos bolsos ou bailando no ar. Era uma sensação tão feliz. Como eu era bobo.

A real liberdade das mãos é ficar entrelaçado entre seus dedos. Acho que é mais ou menos isso que o poeta queria dizer com estar-se preso por vontade. É sentir seus batimentos cardíacos pulsando nos meus. A palma da mão roçando nas suas unhas recém-pintadas.

Esquentar as extremidades, e o calor logo se espalha em metástase pelo resto do corpo, terminando seu circuito em um sorriso em erupção. Então, eu paro no meio da rua para roubar-te um beijo.

As minhas mãos foram feitas para as suas, um encaixe desajeitadamente perfeito como luvas usadas para tirar comida do forno. Não quero proteção para o frio, apenas proteger você de todos os perigos do mundo. Caminhas no seu ritmo, fingindo ser o mais cômodo pra depois me acostumar. Descuidar das palavras e me aborrecer com o silêncio dos pássaros verdes no caminho.

Desviar dos problemas, pessoas e postes sem nos soltar. Como gêmeos siameses. Um parco mergulho em Fernando de Noronha. Águas límpidas, eu e você. Só quem passeia de mãos dadas pode discutir felicidade, pois sabe o que é. Nessa hora, todos os enigmas do mundo parecem ter solução. Não é preciso fila de pão ou status em redes sociais para saber o quanto a gente se ama, basta observar como nossas mãos se procuram por baixo da mesa.

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3 Respostas to “De mãos dadas.”

  1. Tangerine. Says:

    “Não é preciso fila de pão ou status em redes sociais para saber o quanto a gente se ama, basta observar como nossas mãos se procuram por baixo da mesa”.

    Excelente trecho, queria ter escrito isso. Sempre bom passar por aqui. Parabéns!

  2. ap Says:

    Amei cada palavra.
    Adorei a foto, “tão fofinha”.
    Bjo

  3. Eliane Fernandes Says:

    A real liberdade das mãos é ficar entrelaçado entre seus dedos. Acho que é mais ou menos isso que o poeta queria dizer com estar-se preso por vontade.
    Né? Muito bom.
    Bj. Li


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