Casa vazia

24 de maio de 2011

Sempre encontro com ela no elevador. A vizinha do apartamento 905. Dessa vez ela não me cumprimentou com o sorriso branco de todos os dias. Era um sorriso pesado, com um olhar de tristeza, acho que até vi uma lágrima tímida se recusando a cair.

Com seu passo apressado entrou no apartamento sem se despedir. Pude notar o apartamento vazio, sem móvel algum. Estranhei. Eu já tinha visitado aquele apartamento algumas vezes em algumas festas de aniversários nos últimos anos e ele era bem mobiliado com quadros e aquelas coisinhas que enfeitam mesas. Ela tinha uma pequena obsessão por gatos de porcelana.

“Eu vou me mudar. Levaram meus móveis todos já, menos a TV e a geladeira. Tenho um vinho que nos esquecemos de abrir. Traz um daqueles DVD’s grunge que você tem, a gente pode assistir e beber até o dia clarear. Amanhã é feriado. Você é um bom amigo e vai ser meu ex-vizinho a partir de amanhã”.

Sentamos na frente da TV, assistindo Live At Reading do Nirvana. Sim, eu queria peso pra tirar a leveza do ar rarefeito entre nossas bocas. Ela falava coisas sobre um antigo namorado que tinha encontrado no caminho pra casa depois do Mestrado. Lacrimejava seus sonhos em volta do meu ombro apesar de estar sentada na outra ponta do tapete.

No primeiro olhar, eu queria abraça-la até o fim do mundo que pode ser ano que vem ou nunca mais. O nosso “para sempre” sempre dura dez minutos. Ela sentia frio. Ela sentia medo. Ela queria dizer que eu era o cara com quem ela sempre sonhou. Eu só queria dizer alguma coisa engraçada, mas preferi o silêncio da guitarra.

Na segunda garrafa, nós já estávamos rindo bem alto fazendo planos de visitas. Cidades diferentes. Mundos diferentes. Mas ela disse que ia se casar, sim. E eu não poderia fazer nada a respeito. Eu amava em segredo, mesmo dizendo bem alto pra qualquer um ouvir. Ela me amava em dilema, como quem ouve canções escondida no banheiro.

Na terceira volta do DVD, eu já estava pedindo a mão dela em casamento somente nos meus sonhos. Ela dedilhava meu violão tentando acompanhar a canção. Seus olhos pediam perdão e ajuda. Eu não tinha mais o que fazer, só queria beber pra esquecer meus problemas como um velho inglês.

Na parede da sala restava um quadro, uma foto dos Beatles que eu já tinha visto em algum lugar. Ela dizia que não podia levar consigo. Que era uma lembrança minha. Afinal, eu estava junto quando ela comprou e não queria se lembrar de tudo que não passamos juntos. E eu tinha que aceitar. De coração.

[ Cinco anos depois o quadro ainda estava na minha parede, mas eu iria mudar de apartamento para outro ponto da cidade. E ao retirar o quadro notei que no fundo tinha uma carta, sim. Uma carta. Uma declaração de amor dela pra mim…agora já era. ]

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2 Respostas to “Casa vazia”

  1. Eliane Fernandes Says:

    “eu queria abraça-la até o fim do mundo que pode ser ano que vem ou nunca mais”
    Gostiiiiii….
    🙂


  2. Gostei do texto e da imagem. Ela me inspirou.
    Recomeço

    Em quanto subo os degrais
    a música embala minha saudade
    conto os passos com temeridade

    ao encontro da casa vazia
    dirijo-me com cautela até a porta
    como quem não quer acreditar…

    O céu, hoje parece mais escuro
    e nuvens cobrem a luz do luar.
    certo do confronto com o vazio
    que me vem de encontro implacável
    tomo as chaves na mão trêmula,
    tentando abrir meu destino.

    E ao abrir a porta da realidade
    deparo-me com a casa sem luz
    como o céu cobalto e tristonho.

    Mas ao chegar em meu quarto
    sem ao menos me despir,
    sinto um vento forte
    que as nuvens vai empurrando
    até o luar descobrir…

    Então, rolando para outro lado
    percebo no canto do quarto
    que todo ele se iluminou.
    E desenterro-me da saudade
    com um sorriso no rosto
    com o brilho da liberdade!

    Sei que tudo recomeça
    quando todo o resto termina,
    e não chorarei na esquina
    muito menos na escada!

    Toco minha vida á frente
    com o coração sorridente
    só, porém, com a alma liberta.

    Mando Mago Poeta 22:59 20/4/2012
    “Espero que goste” Abraços!


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