Pra que serve o Bidê?

3 de maio de 2011

Quando a gente completou 1 ano morando no apartamento depois de passar todos os outros 17 anos da minha vida morando numa casa gigante com 5 suítes e cheio de gente, a minha mãe me perguntou do que eu sentia mais falta da casa antiga.

Eu poderia dizer que era do quintal imenso com todas as variedades de arvores e frutas. Poderia dizer que era da galera da rua. Poderia dizer que era do quarto de hospedes ou da dispensa na qual meu avô criava peixes. Diria que era a impossibilidade de criar meus cachorros ou da saudade quadra de tênis.

Eu estaria mentindo se dissesse que era da loirinha da casa ao lado ou do banho de piscina pra me acalmar depois das provas. Poderia dizer que era do cheiro de café que me acordava todos os dias ou das aulas de violão do meu tio.

Tem outras centenas de coisas que eu poderia citar e fariam bem mais sentido pra minha mãe. Como tomar banho de mangueira no jardim. Ou deitar numa rede na varanda de casa lendo um livro. Ou do barulho de uma casa cheia. Poderia dizer que era do som das cigarras ou do canto dos passarinhos no fim de tarde.

Mas não é nada disso. Do que mais eu sinto falta é do bidê. Não que eu o usasse pra sua real finalidade. Aliás, a única coisa que já cheguei a lavar nele foi meus pés depois de jogar bola enganando os meus pais que tinha tomado banho.

O bidê era um companheiro de brincadeiras. Eram as cataratas do Niágara que meus bonecos tinham que escalar. Era a chuva no gramado dos meus jogos de botão. Era o barulho da água quando eu precisava conseguir mijar rapidamente pro exame de urina.

Era o meio mais fácil pra irrigar o piso e, portanto, me fazer deslizar pelo banheiro, uma modalidade de surfe no azulejo. Transformava-se numa piscina de sangue com uma pitada de Tang Morango nos quais os tesouros ficavam escondidos.

Foi pelo seu ralo que enfiei moedas de um centavo que fizeram com que meus pais tivessem que trocar toda encanação da casa. Um ano de transtorno e algumas semanas de castigo.

Talvez nem seja o bidê, talvez eu sinta saudades da minha infância. De poder imaginar o que eu quiser. Ser quem eu quiser. Esquecer o mundo lá fora e me perder no país das maravilhas. Encontrar Alice e os três porquinhos. Misturar quatro anões com os thundercats. Sequestrar um Smurf e coloca-lo na Caverna do Dragão.

Dizer o que penso e não pagar por isso. Achar que tudo pode melhorar. Sorrir de tudo sem ser idiota. Fazer um castelo de areia sem se importar que a onda vá desmancha-lo.

Criar meu próprio mundo com cachoeiras e piratas. Não me limitar aos adultos e ter que parecer normal. Disso tudo que sinto falta.

Mas eu disse pra mamãe que era do almoço todo dia ao meio-dia.

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Uma resposta to “Pra que serve o Bidê?”

  1. Anna Carolina Says:

    já disse que eu adoro ler né???
    ;*


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