Café da manhã.

13 de abril de 2011

Eu não como ovo. Nem frito, nem cozido, nem omelete, nem naquele arroz que dizem vir da China. Talvez seja a razão de eu não gostar de bolo de chocolate. Bolos em geral.

Não sei explicar o motivo desse desgosto gigantesco, quase ódio. Minha mãe tem uma teoria que não me lembro. Meu pai me obrigava a comer ovo cru, ele apenas sacodia e fazia um furo que desse para eu beber o conteúdo. Segundo ela, quando aos cinco ele saiu de casa nunca mais eu quis acordo com o ovo.

Foram apenas quinze dias, mas foram dias felizes que eu nunca esquecerei. Ela ficou hospedada em minha casa. Toda manhã, ela levantava cedo para fazer o café da manhã. Eu da cama espantado observava ela dançando com o silêncio se divertindo em frente ao fogão. Quis alegrar aquela dança e procurei no shuffle do meu celular alguma música útil. Começou a tocar Bom Jovi e ela me olhou estranho e começou a cantar mesmo assim.

O cheiro do ovo na frigideira me causava náuseas, tonturas, mas a visão dela dançando e cantando só de calcinha logo me restabelecia a saúde. Ela preparava sempre a mesma coisa, dois ovos fritos para ela e algumas tiras de bacon pra mim. Acompanhados com suco de maracujá e laranja, respectivamente.

Todo dia ela fazia tudo sempre igual, e sempre me oferecia um teco, debochando do meu asco quase juvenil. E sempre pedia pra eu botar aquela do Bon Jovi. Apesar da gente sempre afirmar que não gostava da banda. Eu não costumava tomar café da manhã, eles sempre foram muito torturantes pra mim. Ela me ensinou a acordar cedo e sorrir para o sol que inspira e expira os problemas do dia anterior. Um novo começo, diriam os puritanos.

Agora ela foi embora e eu brindo a saudade com um ovo repousando na frigideira. Só para sentir o cheiro da manhã abraçando uma canção do Bon Jovi. Acordar cedo, ovos e Bom Jovi. Três coisas que nunca imaginei misturar, e mesmo separados não faziam sentido. Aprendi a fritar ovos, fazer omeletes e até bolos de chocolate. Todos terminam no lixo, tocados apenas pela saudade. Eu e minhas tiras de bacon seguimos firme e forte.

[ Minha paranoia diária. Todo dia faço tudo sempre igual. E ligo para ela, de noite, antes de dormir, confessando saudades sem coragem de citar minhas loucuras matutinas, e sem coragem de pegar o avião para uma visita inesperada. ]

Do outro lado do país, ela continua fazendo tudo sempre igual. Fritando os ovos para sua própria satisfação e as tiras de bacon continuam no seu cardápio. Apenas para constar. Já que ela não come carne de jeito algum.

A saudade é o café da manhã.

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3 Respostas to “Café da manhã.”

  1. Eliane Says:

    Fofoo! Sempre perfeiiiiito! Beijo. Lica

  2. ANA Says:

    OQUE TEM A VER O VIOLÃO DO JOVI?
    MAS AMEI SUA HISTORIA.

  3. ANA Says:

    HHAAAAAAAAAA DESCULPA JA ENTENDI

    Agora ela foi embora e eu brindo a saudade com um ovo repousando na frigideira. Só para sentir o cheiro da manhã abraçando uma canção do Bon Jovi


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