Congruência

10 de abril de 2011

Ela falava. Sobra qualquer coisa. Sobre tudo. Sobre nada. Desfilava seu sotaque pelas passarelas onde se sentia bem, conseguia até sair dos trilhos e pinçar alguns assuntos em que não sabia absolutamente nada, mas fazia um comentário engraçado e pertinente.

Ela me contava que tinha um problema no ouvido esquerdo e portanto não escutava nada daquele lado. Coisa de infancia. Algo parecido com o que ocorreu com o Ronaldo na Copa de 98. Convulsão, parece. Eu não conseguia respirar por uma narina. Um pequeno desvio de septo que não quis operar. Medo de agulha, poderia dizer. Ela pediu que eu sentasse de frente pra ela. O melhor jeito de conversar. O resto da mesa parecia totalmente alheio ao compartilhando de arquivos que rolava entre nós.

Ela gostava de Beatles. Sabia dizer se aquele Lado B era do Paul ou do John. E putz, “I’ve Just Seen a Face” era sua preferida. Fugindo dos clichês banais apaixonados de “Yesterday” ou “Hey Jude”. Ela citava ordinalmente as bandas prediletas e eu cantava uma música obscura que ela pensava que eram só dela.

Conversamos sobre literatura. Ela citou Verissimo. Eu rebati com Rubem Braga. Ela me abraçou com Caio Fernando Abreu e eu me rendi ao bairrismo sulista dela com Carpinejar. Traí o movimento.  Confessamos segredos para não precisar esconder nada. Nossos sorrisos eram sincronizados. Como o meu desvio de olhar toda vez que recebia um elogio.

E então marcamos um sarau com particular no apartamento dela. Ele leria alguns textos que guardava no caderno de capa azul enquanto ela levaria o violão e repassariam a discografia dos Beatles. Até alguém errar a letra. Uma brincadeira de bar. Com doses de tequila compulsórias ao perdedor. Com resultados previsiveis. Intimidades compartilhadas silenciosamente nas nossas tagarelices.

Caímos no lugar comum ao disputar histórias sensacionalistas para descrever nossas tatuagens. Um exercício de criatividade batido com doses de guerra dos sexos com um flerte quase adolescente. Ela gostava de frases e desenhos em preto e branco. Ele brincava com as cores como se seu corpo fosse uma tela. A noite ficou curta pra tantos assuntos, tantas congruências.

Contei minha infância como se fosse uma auto-biografia. Não omiti detalhes. Sórdidos e vergonhosos. Descasquei exatamente tudo que poderia ser usado contra mim em algum almoço familiar. Ela admitiu os defeitos como se fossem virtudes. Escancarou as manias que julgavam ser idiotas, mas encontraram conforto no meu olhar perplexo.

Se eu acreditasse em destino ou alma gêmea seria a hora de revisitar a fé. Uma completa estranha e já melhor amiga. Planejamos viagem à Europa Oriental antes mesmo do abraço, tramamos a mudanças dos meus móveis enquanto buscavamos a hora exata do primeiro beijo. Confabulamos qual seria nosso animal de estimação oficial, até discutimos os nomes possíveis antes mesmo da primeira briga.  Eu tenho medo de pensar o que vamos aprontar antes do sexo.

Num piscar de olhos enchi o apartamento dela com meu desarrumado. Minhas malas espalhafatosas ocupavam um lugar de destaque na organização minuciosa de seu closet. Meus livros entraram em simbiose com a estante dela se tornando uma massa única de banho intelectual. Éramos dois arrogantes. E os exemplares duplicados ficavam abraçadinhos como se dormissem de conchinha.

[ Ainda não decidi exatamente onde colocarei o meu aquário. Talvez eu compre uma mesa ou um aparador e o coloque abaixo daquele quadro do Monet que ela insistia ser original e herança da família. Mas isso ela não precisa saber.]

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2 Respostas to “Congruência”

  1. ELIANE Says:

    G.Dinamite!!!
    Muito muito muito B O M 🙂
    bj de Fã!!!
    Lica (Oficina – Carpinejar)

  2. Liliana Says:

    Oi, George,

    vim visitar o seu blog! Fiquei com pena do suicídio das azeitonas – sempre achei que um fim mais nobre seria um mergulho num dry martini.
    Dei uma passeada nos seus posts e adorei!
    Bj
    Liliana (da oficina – te mando os textos – tô devendo)


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