Saudade com caroço

22 de março de 2011

 

Ela.

Eu não conseguia compreender o que sentia por ela. Não sabia dizer se ainda gostava ou se era só ressentimento. Queria escrever todos os adjetivos que daria a ela. E nisso compreender tudo que penso. Formular uma opinião embasada, mas ela gostava de azeitonas.

Fazia questão de saborea-las. Seja logo quando chega a pizza. Seja no meio do alimento. Seja guardando o melhor pro fim. Era uma fanática pelo sabor acre das “baratinhas verdes”. Eu não conseguia entender.

Acredito que a saudade é igual a azeitona.

Ambas tendem a dominar os outros sentimentos, impondo seu sabor aos demais. Abrindo a porta com tanta violência e fazendo notar sua presença. Ninguém lembra de pedir pra vir sem azeitona. Ninguém pensa na saudade quando começa um grande amor. Elas vem. E apertam nosso peito, fazendo tudo parecer um grande jogo. Uma salada indigesta de momentos preciosos.

Se você comê-la antes. Ela deixa o seu gosto na boca e todo pedaço posterior de qualquer coisa tem um pesado gosto de azeite. O resto do amor sempre será marcado pela saudade, pelos reencontros imaginários. E mesmo quando se estar junto, vem a sensação de que nos separaremos em breve. Saudade.

Sentir saudade no meio é bom. Ou não. Sabe-se que vai voltar. Terão outros beijos, outras fugas. Haverá contato, atos e distratos. A saudade pode ser engolida, mas teremos que cuspir o caroço fora. O sabor está lá. A gente finge não notar. Usando de adereços e alegorias. Camuflando sentimentos e pedindo pra você ficar. Outros temperos. Outras chuvas.

No fim, haverá saudade. Com ou sem azeitonas. Ou elas ficarão lá paradas no prato. Você vai lembrar, lutar para não sentir. Esconder tudo que vÊ. Jogar fora. Mas a lembrança verde e pequena estará lá. Não adianta engolir sem mastigar. O sabor saudade é insistente e volta ao peito como uma azia.

E você então começa a beber pra esquecer. Mas o tira-gosto oferecido pelo bar ou pela empregada da casa de seu amigo é sempre ela. A saudade em forma de azeitona. E você começa a lembrar de tudo. Se põe a chorar por dentro. Acho que é por isso que muitos culpam a ressaca pela maldita azeitona da empadinha. Ou do pote de conservas.

Agora quando vejo azeitonas lembro dela se deliciando com o pote em mãos e pedindo um beijo que eu me negava a dar. Talvez isso seja só ilusão ou quem sabe saudade

Hoje, mesmo sem gostar, eu comi uma azeitona em homenagem a ela. Talvez isso seja amor.

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