Minha personagem

20 de janeiro de 2011

E lá estava ela debruçada sobre seus três sagrados travesseiros, com aquela cara de birra que me dava raiva e vontade de ir até lá calar aquele silêncio com um beijo até ela perceber que não, não tenho cavalo branco.

Na verdade, nem sabia ao certo por que raios ela estava com raiva. Raiva por eu ter feito papel de besta? Por eu ter cruzado sete quarteirões a pé atrás do maldito sorvete de morango já que ela não tem paladar refinado o suficiente pra admitir que o de doce de leite é o imperador entre todos os sabores de sorvete já inventados na galáxia? Raiva por eu ter cancelado meu futebol com o pessoal da faculdade graças àqueles olhos convidativos e infantis? Ah, talvez por eu ter recusado o convite pra ir na despedida de solteiro do Marcão pra não deixá-la sozinha. Qualquer homem normal poderia dizer qualquer uma dessas, afinal, estamos falando do Jardim Secreto existente na contraditória mente feminina. Mas eu não podia. Era uma garota difícil de explicar-se e explicar: somei A+B e entendi que estava com raiva porque não aceitei abrir mão de assistir Botafogo x Santos junto com minha torcida, ela queria assistir junto com os “Loucos pelo Botafogo”, mas só se EU estivesse louco! Ela planejou uma viuvez precoce? Não queria que todos aqueles meus planos de “e viveram felizes para sempre” se concretizassem? Era só dizer, mas não precisava arquitetar minha morte! Enquanto gritassem “Uh, É Loco Abreu!” eu gritaria “Vai tomar no c*, Loco Abreu”, sendo que ainda nem pensei no meu epitáfio!

Eu tentava construir argumentos, mas aquela cara de raiva distraia qualquer ordem lógica dos meus pensamentos. Peguei meu computador e decidi que ia competir no mesmo nível: comecei a escrevê-la e sabia que logo ela viria pular no meu colo, curiosa, doida de vontade de ver quais adjetivos eu usara! Mas então, o que dizer? Não abriria mão de uma boa pitada de indignação diante do episódio do jogo, oras! Tampouco seria ácido o suficiente para fazer com ela me negasse os carinhos de reconciliação… Ah, eu tinha que ser o famoso meio termo, aquilo que faz com que nós, homens, não sejamos taxados nem de bestas, nem de insensíveis, o meio termo capaz de garantir minha felicidade após aquela minha insossa tarde de domingo em que perdi aquele jogaço e acabei simplesmente ouvindo um comentarista fajuto da CBN dizendo que Neymar era um frango! Se alguém tinha que estar zangado nessa história, esse alguém seria eu! Ela estava intacta, mas quem quase enfartou, fui eu! Eu que assisti aqueles 95 minutos de jogo sob a tensão, a possibilidade de me ver no G-4! Ela, uns gritos aqui, outros xingamentos ali, mas sem demonstrar muita interação com o adversário moral, eu. Ah, sem contar que o amor pelo El Loco beirava níveis estratosféricos, como se ele estivesse estericamente mais “LINDOOOO” que o normal e adivinhem pra quê? Pra me provocar, claro.

Controlei-me e decidi que o melhor seria camuflá-la dentro de uma outra “ela” qualquer, uma outra história que proporcionasse um olhar flamejante de ciúmes. Eu adorava aquela cara de insegurança e sabia descrevê-la de olhos fechados: mordia canto esquerdo da boca, arqueava a sobrancelha do mesmo lado, evidenciava a covinha, remexia o nariz e desviava o olhar para os lados, cantos, qualquer outro lugar, menos o meu. Aí depois era toda uma seqüência, o caminho mais rápido para o ponto final naquele clima de orgulho.

Não sabia em qual “ela” iria escondê-la. Uma cigana ladra de corações alheios? Uma idosa profunda conhecedora dos sentimentos masculinos? Uma menina de rua impetuosa e valente? Uma balzaquiana no auge da sua vitalidade? Uma garotinha que tropeçava em si mesma? Não tive tempo de decidir, em um segundo ela estava ali em meus braços, descalça como estava, rápida, imprevisível como só ela:

– Vamos pular a parte que eu tenho que me adivinhar aí e você tenta esconder-me?

– Como assim?

– Assim!

E foi o maior dos beijos, aquele que poderia ter sido a foto para o convite do nosso casamento caso alguém tivesse registrado. Essa mulher mudou minha vida. Pra melhor? Pra pior? Não sei, só sei que amanhã instalarei uma câmera de segurança naquele que poderia ser o canto de maior inspiração para as comédias românticas. Estamos perdendo dinheiro.

P.s.: agora ela vira de lado e briga que a luz do notebook não está deixando ela ter o sonho que “anjos de candura” merecem ter. Meu Deus, onde arrumei uma dessa?!

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2 Respostas to “Minha personagem”

  1. Santos Says:

    que besteira!


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