Como se diz Adeus em Russo?

17 de janeiro de 2011

Todo dia Pedro passava o por-do-sol naquele cais. Independente do clima. Das dívidas externas. Das guerras. Dos problemas na família. Nada era mais certo do que Pedro e o por-do-sol no cais. Sempre achei aquilo estranho, sempre quis saber se tinha alguma explicação filosófica para aquilo ou se ele era apenas um senhor aficcionado pela vista bela dali.

Aprendi a observar. Sem me intrometer. Era sempre o mesmo ritual. Ele vinha a passos lentos, cansados, tipicos de quem apanhou muito dessa vida. Parava na ponta do cais e balbuciava algumas palavras em algum idioma que nunca decifrei. Então se sentava e tirava uma gaita do bolso e tocava uma melodia bem triste. Uma melodia que certamente servia pra encantar sereias em outras vidas.

Mas nessa vida Pedro era só um senhor aposentado. Sem filhos. Sem cachorro. Sem sonhos alimentados. Depois do sol se pôr ele vinha pro bar. Sentava na mesma mesa que eu prontamente deixava desocupada e a sua espera. E pedia uma dose tripla de vodka. Com os olhos embargados gritava bem alto: ADEUS. e então em goles longos e sem parar bebia todo o copo. Acenava para quem estivesse no balcão e ia embora.

Meu pai me disse que ele faz isso, do mesmo jeito, há pelo menos 30 anos.  Um dia quando eu era criança perguntei pra ele o porquê daquilo tudo enquanto ele saia do bar. Ele apenas parou, e por um instante pensei que fosse contar, mas seguiu seus caminhar lento sem dizer nada.

E hoje lá está ele tocando novamente sua gaita. A mesma canção. Vou logo preparando a dose de vodka. E então ele surge na porta.

– Hoje não, filho. Hoje não. Pega duas long necks e sente aqui comigo. Tenho uma história para lhe contar.

E então Pedro contou-me sua história. Há 30 anos ele amara uma mulher. A mulher mais perfeita que jamais alguém poderia conhecer. Se chamava Laura. Um dia eles estavam vendo o por-do-sol no cais e ela lhe disse que aquele era o lugar que ela estaria quando ele precisasse encontrá-la. Era o lugar ideal. Onde ela sempre estaria. E apenas ele saberia disso.

Ela era uma exímia tocadora de gaita. E tocava a mesma canção todos os dias antes de dormir. Aquela canção. Só que um dia ele chegou em casa após o trabalho e ela não estava lá. Apenas um bilhete debaixo de um copo cheio de vodka escrito ADEUS. Dentro do copo junto com a bebida estava sua gaita.

Desde esse dia ele vai ao cais tentar encontrá-la. Nunca mais amou ninguém. Aprendeu a tocar a canção em uma noite em claro. Mas hoje estava livre. Recebera um telegrama dizendo que ela tinha morrido. Em algum lugar da Rússia.

– E o que o Senhor diz antes de tocar a gaita?

– Isso você nunca saberá. Isso é só entre eu e ela.

 

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