Dois amigos e a “mulher fantástica”

15 de dezembro de 2010

São Paulo. 10 horas da manhã. Avenida Paulista. Dois amigos estavam atravessando na faixa de pedestres. Luis, o baixinho do cabelo bagunçado e José, o altão com gel no cabelo. De repente:

– É ela.

– Ela quem? Ela o quê? Porra, que susto, meu!

– Ela. Aquela menina que eu te falei ontem. A da conversa no Facebook!

– Porra, mas tu nem a conhece. Só conversou uma vez e já tá todo assim abixonado? Tu é maluco mesmo!

– Tu fala muito palavrão. Mas, porra, sabe quando tu sente uma coisa diferente logo apos a terceira curva de palavras?

– Bixo, tu tá ficando maluco. Precisa mesmo arrumar uma namorada logo.

– Pra ti é fácil. Tá namorando a mó tempão. Eu não fui feito pra ser solteiro.

Os dois entraram na Livraria Cultura. José foi direto pra seção de biografias. Era um fanático pela vida dos outros. Luis partiu pra seção dos romances no sentido de amor. Adorava florear a vida com palavras bonitas, se perdia nos relacionamentos com as palavras, era um apaixonado crônico. Não tinha salvação. Escrevia tanta coisa, sobre tantos assuntos que no fundo tendiam ao amor. Curtia sua solidão compulsória com vinhos, livros e conversas madrugada à dentro com semi-conhecidas.

– Luis, acho que vou comprar esse do Bussunda: A vida do Casseta, o que tu acha?

– Me empresta depois tá? Vou levar Carpinejar.

– Bixo, para de ler essas baboseiras água com açúcar. Procura uma coisa mais cultural.

– Me deixa com minhas baboseiras. Tu sabia que John sempre desdenhava das canções de amor bobas do Paul?

– Ave. Tu devia ouvir mais coisas brasileiras. Rock Anos 80. Paulinho Moska. Sai desse negócio de Beatles e músicas em inglês!

E então o Luis se afastava com uma pequena irritação, era sempre assim. Mas o pensamento dele nem estava naquela conversa e sim naquela mulher na distância de 72 horas e muitos quilometros. Como fosse encontrar a fonte da juventude sem mapas ou bússolas que apontam pra o que mais quer. Seria uma boa ter a tal bussola, afinal nem ele sabia realmente o que queria. Voltar pra casa.

– Vamos tomar um café?

– Gelado, por favor.

– Doce de leite com base de creme, né?

– Isso. Será que ela gosta de café gelado? De sorvete? De pizza? De rock’n roll? Acho que comprarei dois ingressos do U2 pra levar ela.  O que tu acha?

– Deixa de loucura. Foi só um papo normal. Ela nem sabe quem tu és. Como tu pode se apaixonar por uma mulher que tu nem sabe o cheiro? E se ela tiver bafo ou se mancar ?

– Não importa. Dou um chiclete. Eu passei boa parte da minha juventude mancando. O que tem? E se ela for a mulher da minha vida e eu deixar essa vida passar? Vou ter que morar mais 1 ano contigo e sair de vela todo fim de semana?

– Dá cá um abraço!

Eles sentam pra tomar os cafés gelados. José abre o livro comprado pelo Luis aleatoriamente num conto chamado “E eu pedi mais um café” e começou a ler alto querendo chamar atenção. Gostava de fazer os outros rirem dele. Um casal de velhinhos ria das palavras angustiantes do conto que falava de despedidas. E no fim do recital até ganhou alguns aplausos.

– Tu é muito exibido!

– Fiz isso pra vê se tu tira o foco dessa “mulher fantástica” que inventaste. Volta pra realidade, meu amigo. Tá vendo aquela ruivinha ali na seção dos quadrinhos. Tá lendo Thor! E olhando pra tua camisa do Thor, há meia hora. Vai lá!

– Sério!?

Claro que não era sério, mas o José sabia o que fazer pra convencer o Luis a fazer aquilo que seria mais palpável. E não é que deu certo. Ele e a ruivinha trocaram telefone, depois telefonaram e decidiram se encontrar. E a “mulher fantástica” ficou pra outro capítulo da história que talvez nem seja escrita. Ucronia é mais ou menos isso.

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