Cortei o meu cabelo por você

15 de dezembro de 2010

Já amarrei meu cabelo, amor. Perdi minhas lentes de contato, estou semi-cego. Só vejo vultos, mas te reconheço pelo cheiro. Volta aqui. Mais um abraço. O quê? Terei que cortar meu cabelo? Por quê? Pensei que você gostasse dele assim, comprido. Sei que pareço um cantor de rock, sei que pareço qualquer coisa menos seu namorado. Mas o mundo é assim, amor, injusto. Você gostava quando eu era uma metamorfose? E quando eu me perdia nos braços daquela sua melhor amiga, você gostava? Sou cruel e sei que não presto, mas vocês, mulheres, não repetem o tempo todo que nós, homens, somos todos iguais. Bem vinda à vida real.

Não cortarei meu cabelo, posso até fazer a barba. Parar com essa onda de cavanhaque ridículo. Jeffrey “Dude” Lebowski way of life. Observe como eu não me importo com esse seu desespero. Não levantarei dessa rede. Vem aqui, vamos balançar um pouco. Olha como o mar está tão belo hoje. Aprecie as pequenas coisas. Elas importam. São detalhes tão pequenos, mas no fim se somados viram o prato principal. Falar nisso, tem lasanha ainda? Traz lá um prato cheio pra mim, por favor. Com uma cerveja gelada. (um piscadinha sacana)

Meu violão e o vento balançando nas palmeiras lá embaixo. Como é bom ser feliz com vista pro mar. No fundo eu sei que terei que cortar o maldito cabelo, ela sempre consegue o que quer, mas poxa passei 20 anos da minha vida querendo ter o cabelo comprido o bastante pra amarrar, agora que consegui terei que cortar compulsoriamente. Mas vou aproveitar as chantagens emocionais pra conseguir pelo menos 10 dias de felicidade incondicional.

Férias. Ser casal vinte quatros horas por dia é cansativo, sabia? Tantos quadros por pregar, tantos pregos no caminho. Dedos cortados, lágrimas por causa de cebolas e silêncio. Sim, silêncio. Não existe essa palavra por aqui. E o nosso filho que tá vindo. Terá meu nome. Desejos em plena madrugada. Onde eu vou arranjar mocotó às 4 da manhã? E desde quando ela gosta de mocotó? Mas são ossos do ofício. Lá vou eu e meu cabelo amarrado atrás de mocotó. Encontro uma tia lá no retorno da Forquilha que vende comidas exóticas pros recem-futuro-ressacados.

Feliz e saltitante chego com a encomenda em casa e ela já está dormindo. Eu já aprendi que não devo acordá-la, mas não quero que meu filho nasça com cara de sei lá que diaxo pode se parecer com cara de mocotó. E ela sorri com meu acordamento carinhoso e diz que não quer mais, que comeu uma maça que havia na geladeira. E agora? Que porra eu faço com mocotó? Meu cachorro curtiu essa noite. Ele foi quem mais se deu bem nessa gravidez. Houve tantas variações no cardapio que até parou de comer a deliciosa ração sabor frango.

* no fim das contas com 6 meses ela perdeu o bebê, tudo bem era uma gravidez de risco, mas foram 6 meses bem intensos. E penso que Deus fez o certo. Por que logo depois o “sonho” acabou. Ela casou um tempo depois com um médico rico. Eu namorei outras por aí. Mas no fim o que ficou foi meu cachorro barrigudo e averso a ração *

Ps. Cortei o cabelo e nunca mais consegui deixá-lo do jeito que eu queria.

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